#293 Garantia para a Segunda Premissa do Argumento Moral
May 16, 2015Tem havido muitas discussões nas últimas semanas nos fóruns RF.org a respeito da premissa #2 do Argumento Moral - especificamente, em que base podemos afirmar a existência de valores e deveres morais objetivos?
A forma como eu entendo o seu argumento para a afirmação dessa premissa diz que, através de suas próprias experiências morais, você tem uma crença propriamente básica que a moralidade objetiva existe. Enquanto alguns psicopatas podem afirmar que acham que é OK torturar um bebê para se divertir, isso não faz nada para derrotar a garantia que você tem com base em suas próprias experiências morais que é errado (sempre foi errado e sempre será errado) torturar um bebê para se divertir.
Os objetores da premissa # 2 dizem que esta é uma resposta emocional, não intelectual e que um apelo ao próprio senso de moralidade não é mais objetivo do que a pessoa que pensa de forma diferente do que você (e, portanto, é subjetivo).
Em sua palestra "O que acontece quando morremos" (http://www.reasonablefaith.org/transcript/what-happens-when-we-die) você fala de quem já teve experiências de quase-morte, "a experiência de uma pessoa é tão real quanto a de qualquer outra pessoa, então como você julga de quem é a experiência do céu que é realmente autêntica?" Da mesma forma, se as minhas experiências morais me dizem que algo está errado, mas outra pessoa sente de outra forma - ambas as experiências são igualmente reais, mas estão em conflito, por isso temos o mesmo dilema na tentativa de decidir qual é realmente autêntica.
Talvez eu esteja entendendo mal o que você entende por "experiências morais", e deslizando para a ética aplicada como resultado. Assim, a minha primeira pergunta é:
1) "Experiência moral" quer dizer o que eu sinto que é certo ou errado, em uma determinada situação, ou "experiência moral" significa simplesmente que, "dada qualquer situação moral, haverá uma coisa certa a fazer e uma coisa errada a fazer, mesmo que eu não saiba quais são". Em outras palavras, simplesmente em virtude de pensar que ALGO está errado confirma a premissa # 2, independentemente da diferença de opinião sobre o que essa coisa errada a fazer realmente é?
Eu não consigo deixar de pensar que ainda não esteja entendendo algo que envolve este conceito de ontologia moral vs. ética aplicada. Parece que, quando se discute a objetividade da moralidade, muitas vezes se desvia para discussões em torno de ética aplicada (por exemplo, "algumas pessoas pensam que é errado mentir, até mesmo para salvar uma vida, outras não - por isso, a moralidade é subjetiva"). Você muitas vezes alega que a premissa # 2 não apela para qualquer ética situacional ou aplicada, mas, sim, apela para a sua própria crença propriamente básica. Mas, então, a minha segunda pergunta é:
2) O que é exatamente essa crença propriamente básica que lhe permite afirmar a premissa # 2? Os exemplos dados quase sempre envolvem uma situação ("é errado torturar um bebê para se divertir", "é errado sequestrar africanos e usá-los como escravos", "a Inquisição Espanhola estava errada em torturar as pessoas"). Estes exemplos parecem deslizar para um apelo à ética aplicada. Obviamente, as pessoas de uma época (ainda hoje talvez) pensavam que aqueles não eram errados - mas, novamente, o apelo por garantia para acreditar na premissa # 2 é que "aquelas pessoas que pensavam o contrário não fazem nada para prejudicar a minha própria crença propriamente básica que elas estavam erradas." Mas eu volto para a sua citação sobre as experiências quase-morte - as experiências de cada pessoa são tão reais como as da outra pessoa - de quem é a "crença propriamente básica" certa e de quem é falsa? Em que é essa crença propriamente básica, se não a verdade de certas éticas aplicadas ("é errado matar um bebê para fazê-lo parar de chorar").
Eu simplesmente não posso entender este conceito de ontologia moral e como ela é separada da ética aplicada; talvez você possa ajudar a esclarecer isso de uma maneira diferente do que você tem feito no passado.
Obrigado,
John
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Fico feliz que você esteja achando o nosso fórum aberto útil para discussão, John! Sem ter lido os posts a que você se refere, deixe-me responder à pergunta como você a colocou.
Para aqueles que não estão familiarizados com o argumento moral como já emoldurado, sua pergunta diz respeito à garantia que temos para a segunda premissa do seguinte argumento:
1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem.
2. Valores e deveres morais objetivos existem.
3. Portanto, Deus existe.
Acho que este argumento é muito poderoso, porque, apesar de as pessoas defenderem o relativismo com os lábios, elas são, de fato, profundamente comprometidas com a verdade de (2). Na verdade, eu ficaria surpreso se os críticos do argumento que você menciona não acreditassem em (2). Nesse caso, mesmo se eles pensam que (2) não pode ser provada, ainda assim, contanto que eles também aceitam (1), eles estão, sob pena de irracionalidade, logicamente comprometidos com a conclusão de que Deus existe. Nesse sentido, ao invés de entrar em uma discussão com alguém sobre uma premissa que ele já acredita, é melhor simplesmente perguntar-lhe: "Você acredita em (2)?" Se ele acredita, então, o único ponto de discórdia é (1) .
A utilização de exemplos pode ser vista nesta luz. Se a pessoa não tem certeza se ela acredita em (2) ou diz que não acredita em (2), você pode ajudá-la a esclarecer suas crenças ao simplesmente fazer perguntas específicas. Lembro-me de falar uma vez com um aluno negro, que alegou ser um cético moral. Eu simplesmente perguntei-lhe: "Então você acha que o racismo não é realmente imoral?" Ele refletiu por um momento e então disse: "Eu acho que penso que isso é imoral." Isso resolveu as coisas para ele e fomos capazes de ir adiante. Você pode visualizar esta abordagem dialética como um exercício de esclarecimento de valores, usando exemplos gritantes em vez de dilemas morais turvos. Céticos durões podem cravar seus calcanhares e afirmar que a perseguição religiosa, agressão sexual, abuso de crianças, a intolerância e tudo o mais são todos moralmente neutros, mas, fazendo isso, eles apenas expõe sua insinceridade. Se a pessoa com quem você está lidando não é um psicopata, então a resistência à (2) é geralmente por causa de um desejo de evitar a conclusão do argumento.
Quanto a garantia de (2), você está certo em dizer que é uma crença propriamente básica fundamentada na experiência moral. Os realistas morais têm comparado isso à crença na realidade do mundo externo dos objetos físicos em torno de nós. A crença em objetos físicos é uma crença propriamente básica baseada em nossa experiência sensorial. Não há nenhuma maneira de sair fora de nossas percepções sensoriais para testar sua veracidade. Ainda assim, até que nos seja dado um derrotador para as nossas crenças sensoriais, somos racionais em mantê-las.
Apelar a exemplos é, neste respeito, um apelo à experiência moral que fundamenta as crenças morais. É como dizer a alguém: "Você não vê aquela pedra? Se eu deixá-la cair no seu pé, você ainda vai negar a sua existência?" "Você não vê que torturar uma criança para se divertir é moralmente abominável? Se alguém fizesse isso para sua filha, você persistiria em pensar que é moralmente indiferente?"
A descrição acima é a justificativa padrão que os realistas morais de todos os matizes dão como justificação para crenças morais. Eu acho óbvio que aqueles que facilmente descartam isso como apenas um apelo às emoções, apenas traem sua falta de compreensão. Como se dissesse que a minha crença na realidade do Mt. Rushmore é baseada apenas em emoções!
Agora a sua pergunta sobre a veracidade das experiências de quase-morte (EQM) é muito interessante. Dizer que uma crença é propriamente básica, não é dizer que não pode ser derrotada. Como Plantinga tem enfatizado, crenças propriamente básicas muitas vezes enfrentam derrotadores (defeater), e então alguns derrotadores-derrotadores (defeater-defeaters) são necessários, se alguém deve persistir racionalmente nessa crença. Além disso, as crenças propriamente básicas diferem na quantidade de garantia de que gozam e, portanto, na tenacidade com que são defendidas. Minha crença de memória que eu deixei as chaves do carro na ignição é propriamente básica, mas muito levemente mantida e facilmente derrotada, enquanto minha crença de que eu tenho uma cabeça é muito mais poderosamente garantida e mais relutantemente desistida.
Portanto, a pergunta sobre a veracidade das EQMs depende da garantia que elas gozam e que derrotadores temos para elas. Talvez elas não sejam tão poderosamente garantidas como nossas crenças morais mais óbvias. Uma das razões que me fazem levar essas experiências a sério é precisamente por causa da garantia poderosa colocada para elas por aqueles que passaram por estas experiências. Eben Alexander observou que sua EQM foi muito mais real do que sua experiência do mundo que nos rodeia. Mas, como eu disse na passagem que você citou, temos um derrotador poderoso para a veracidade dessas experiências: elas são auto-contraditórias. Então, algumas dessas experiências não podem ser verídicas. Observe que no sermão que você cita estou falando sobre as experiências dos outros, não a própria. Para a própria pessoa, pode ser racional acreditar que o que ela experimentou é verídico. Mas como não tive uma EQM, estou incerto em quem acreditar.
Por outro lado, todos nós compartilhamos a experiência moral. E algumas de nossas crenças morais são muito poderosamente garantidas. Quando o psicopata relata que para ele estupro de crianças parece certo, somos mais racionais se nós virmos isso como um déficit em suas percepções morais, semelhante a cegueira ou a surdez, do que achar que a nossa experiência moral não é verídica. Por que você deve ouvi-lo? Ele é um psicopata!
Assim, em resposta às suas perguntas específicas:
(1) "Experiência moral" significa o que eu sinto que é certo ou errado em uma determinada situação, ou "experiência moral" significa simplesmente que "dada qualquer situação moral, haverá uma coisa certa a fazer e uma coisa errada a fazer, mesmo que eu não saiba o que elas são? "Significa o primeiro. Esta última é uma afirmação da objetividade do dever moral.
(2) O que é exatamente essa crença propriamente básica que lhe permite afirmar premissa # 2? Haverá crenças morais variadas que implicam premissa (2): "É errado torturar um bebê por diversão", "É errado sequestrar africanos e usá-los como escravos", "A Inquisição espanhola estava errada em torturar pessoas", etc. Estes são exemplos de ética aplicada de crenças que são fortemente baseadas e garantidas pela experiência moral. Dizer que essas crenças são propriamente básicas não quer dizer que elas são inalienáveis; mas, na ausência de um derrotador, eu sou racional em mantê-los. Sem dúvida, eu, como os comerciantes de escravos do passado, tenho algumas crenças morais que estão erradas; todos nós temos pontos cegos morais. Isso permite o crescimento moral. Mas há um mundo de diferença entre reconhecer humildemente minha falibilidade e pensar que nenhuma das minhas crenças morais é verdade.
- William Lane Craig