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#703 Humanismo secular mais uma vez

March 23, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Tenho duas perguntas (interrelacionadas) para o senhor.

Pergunta 1: Suponha que eu, enquanto humanista (como o sou) — ou mesmo enquanto cristão (como não o sou) —, fizesse a seguinte afirmação: “Creio que os seres humanos, objetivamente, têm valor intrínseco”, isto não seria, por conta própria, fundamento suficiente para a moralidade objetiva? Minha própria perspectiva é que sim. Algo que tenha valor — digamos, uma obra de arte exposta num museu — impõe algum tipo de dever de cuidar dessa coisa, mesmo que o seu valor não seja intrínseco. A moralidade, segundo esta perspectiva, é simplesmente esse mesmo senso de dever aplicado a coisas que têm valor intrínseco.

Pergunta 2: O senhor, como cristão, acredita que os seres humanos têm, de fato, valor intrínseco? Antes de responder à pergunta 2, por favor, leve em conta uma possível resposta que o cristão pode dar, e minha tréplica. O cristão pode dizer: “sim, creio que os seres humanos têm valor intrínseco, porque o receberam de Deus”. Minha resposta é que se trata de contradição dizer que seres humanos recebem valor intrínseco de Deus. Valor intrínseco significa que a coisa (ser humano) não deriva o seu valor de nenhuma fonte além de si mesma. Se os seres humanos derivam o seu valor de Deus, o seu valor é, no máximo, derivado ou extrínseco, como uma obra de arte. Assim, com esta explicação em mente, como o senhor responderia à pergunta 2? Obrigado pela sua atenção às minhas perguntas.

Atenciosamente,


David

Austrália

Dr. Craig responde


A

Sinto ouvir que você seja humanista secular, David, em vez de humanista cristão, embora eu pense que deveria estar feliz que, pelo menos, você não é niilista moral, como seus colegas seculares mais coerentes! Espero que você considere um humanismo que fundamente o valor objetivo dos seres humanos, que ambos afirmamos, em Deus. Portanto, em resposta às suas perguntas:

1. “Suponha que eu ... fizesse a seguinte afirmação: ‘Creio que os seres humanos, objetivamente, têm valor intrínseco’, isto não seria, por conta própria, fundamento suficiente para a moralidade objetiva?” É óbvio que não! Você pode afirmar o que bem entender, mas, como reza o ditado: “Só pensar não muda nada!”. A sua afirmação nos fala somente do que você crê, mas não oferece nenhuma razão para pensar que aquilo em que crê é verdade. Outro pode, com igual justificação, dizer: “Creio que seres humanos, objetivamente, não têm valor intrínseco”. Mas os dois não podem estar certos, uma vez que ambos estão fazendo afirmações sobre o que seja objetivamente verdadeiro, e não sobre como as coisas lhes parecem.

Concordo que algo que tenha valor extrínseco, em vez de intrínseco, como uma pintura, pode ser algo que temos obrigação de cuidar. O valor moral objetivo pode ser intrínseco ou extrínseco (ver abaixo). Porém, isto em nada avança a demonstração de que tal valor possa surgir meramente da minha valorização de algo, pois isto é puramente subjetivo. Diferentes pessoas valorizam coisas diferentes, e algumas pessoas não valorizam nada mesmo.

2. “O senhor, como cristão, acredita que os seres humanos têm, de fato, valor intrínseco?” Mas é claro! A sua objeção a esta resposta revela um mal-entendido sobre o valor moral intrínseco. Você diz: “Valor intrínseco significa que a coisa (ser humano) não deriva o seu valor de nenhuma fonte além de si mesma”. Isto está errado. A distinção pertinente, no caso, é entre intrínseco e extrínseco. “Valor intrínseco” significa que algo é valorizado como fim em si mesmo, por exemplo, um ser humano. “Valor extrínseco” significa que algo é valorizado como meio para um fim, por exemplo, um martelo.

Em contraste, algo tem valor não-derivado (ou inerente), se o seu valor não for fundamentado em algo mais. Algo tem valor derivado, se o seu valor for fundamentado em algo mais. Não confunda a distinção entre intrínseco e extrínseco com a distinção entre inerente e derivado. Algo pode ter valor intrínseco (deve ser tratado como fim em si mesmo, e não como meio para um fim) e, ainda assim, o seu valor ser fundamentado em algo mais (como Deus ou o Bem).

Portanto, não segue daí que, “Se os seres humanos derivam o seu valor de Deus, o seu valor é, no máximo, derivado ou extrínseco”. Derivado, sim, mas extrínseco, não. Devem ser tratados como fins em si mesmos.

- William Lane Craig