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#702 Por que estudar filosofia?

March 23, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Recentemente, fui desafiado por meu professor da faculdade em relação a algumas ideias minhas, o que me levou a lhe fazer a mesma pergunta. Por que o senhor estuda filosofia? Se Cristo é o fundamento da nossa cosmovisão, jamais precisamos estudar filosofia a fim de ser uma testemunha eficaz. Se é para sermos como Cristo e imitá-lo, por que não estamos mais preocupados em dar tudo que temos e viver como os primeiros apóstolos e, obviamente, viver como Cristo? Por que o senhor crê que Deus o chamou para fazer a obra missionária por meio da filosofia, e não ao viajar por todo lugar como os primeiros apóstolos? Paulo e outros interagiram com a filosofia, mas foi mais um interesse secundário do que o principal. Ele devia pregar Cristo crucificado e foi, antes de tudo, chamado para os gentios. Ficaria grato com qualquer resposta que seja. Que Cristo o abençoe e o guarde.

Reagan

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Sou filósofo porque sou cristão! Se não tivesse me tornado cristão, provavelmente não teria me interessado em questões filosóficas (no colegial, queria virar diretor de algum grande zoológico metropolitano). Porém, ao me tornar cristão, comprometi-me de imediato com uma cosmovisão repleta de compromissos filosóficos relacionados à natureza de Deus, da alma, do pecado, de Cristo, do propósito da vida e assim por diante. Ao ser, por natureza, intelectualmente curioso, achei essas doutrinas imensamente interessantes e importantes.

Alvin Plantinga distinguiu quatro divisões de filosofia cristã, cada uma delas de importância vital para a igreja:

(1) apologética, que, negativamente, responde a objeções feitas às crenças cristãs e, positivamente, propõe argumentos a favor das crenças cristãs;

(2) teologia filosófica, que investiga as doutrinas centrais da teologia cristã, como os atributos de Deus e a encarnação e a expiação de Cristo, utilizando as ferramentas da análise filosófica;

(3) crítica filosófica cristã, que expõe a insuficiência das abordagens seculares a questões filosóficas importantes, como a relação entre a mente e o corpo; e

(4) construção filosófica cristã, que propõe um entendimento cristão positivo de certa questão filosófica importante, como justificação e aval.

Você disse: “jamais precisamos estudar filosofia a fim de ser uma testemunha eficaz”. Com certeza, é verdade num sentido literal; porém, é igualmente verdade que seremos testemunhas mais eficazes se tivermos estudado filosofia, conseguindo alcançar pessoas que, de outro modo, não creriam no evangelho, a não ser por nossa capacidade de responder às objeções delas e de prover argumentos sólidos para aquilo em que cremos. Como observa Plantinga, uma das principais utilidades da filosofia cristã é a apologética, crucial para testemunhar com eficácia a um número cada vez maior de pessoas.

Você perguntou: “por que não estamos mais preocupados em dar tudo que temos e viver como os primeiros apóstolos e ... como Cristo?”. Jesus não chamou a todos para dar todos os seus bens e viver na pobreza. Pense em Zaqueu, um homem rico que deu metade das suas riquezas, mas não toda ela, e foi elogiado por Jesus (Lucas 19.8-9). Paulo deu as seguintes instruções àqueles que são ricos:

Ordena aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que nos concede amplamente todas as coisas para delas desfrutarmos; que pratiquem o bem e se enriqueçam com boas obras, sejam solidários e generosos. Com isso acumularão um bom tesouro para si mesmos, um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a verdadeira vida. (1 Timóteo 6.17-19)

Esta exortação se aplica a quase todos nós no mundo ocidental, e penso que nosso materialismo é motivo de vergonha. Deveríamos dar uma grande porcentagem de nossa renda para a obra do Senhor e para causas beneficentes, e não míseros 10% (o que suscita a pergunta a cada um de nós: dou qual porcentagem da minha renda?).

Você perguntou: “Por que o senhor crê que Deus o chamou para fazer a obra missionária por meio da filosofia, e não ao viajar por todo lugar como os primeiros apóstolos?”. Talvez você não saiba, Reagan, que eu viajo, sim, ao redor do mundo compartilhando o evangelho em campi universitários. O campus universitário secular é um campo missionário, um deserto espiritual com poucos oásis de água viva. Tem sido privilégio meu, por meio de debates e palestras públicas em campi universitários ao redor do mundo, envolver-me na defesa e proclamação do evangelho a este grupo não-alcançado de pessoas. Em razão de minhas credenciais acadêmicas, surgiram muitas oportunidades para mim, não somente no ocidente, mas também em países comunistas e muçulmanos que estariam fechados para o missionário ou obreiro cristão comum. Que alegria tem sido defender a Cristo com ousadia em tais ambientes!

Paulo disse que ele se tornou tudo para com todos os homens, para de todos os meios vir a salvar alguns (1 Coríntios 9.22). Assim, tornei-me intelectual para aqueles que são intelectuais, a fim de ganhar os intelectuais. “Destruímos raciocínios e toda arrogância que se ergue contra o conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento para que obedeça a Cristo” (2 Coríntios 10.5).

- William Lane Craig