#541 Inspiração e as epístolas de ocasião do Novo Testamento
June 24, 2018Dr. Craig,
Primeiramente, gostaria de agradecer por seu esforço incansável de trazer o cristianismo à relevância intelectual para tantos entre os perdidos. Sempre achei isto tão útil e encorajador.
Não tenho dúvidas quanto a Jesus. Ele é meu Senhor e Salvador, e confiei-lhe a minha vida.
No entanto, estou começando a questionar o ensino comum da igreja de que toda palavra no Novo Testamento deve ser considerada “Escritura”.
Vale notar que não cresci cristão. Filho de dois ateus (que, graças a Deus, vieram também a entregar suas vidas a Cristo), não tenho noções preconcebidas sobre o cristianismo, conceito de tradições, etc. Tudo que sei é o que a Bíblia (e os sermões) me dizem; por isso, com frequência me vejo questionando diversos pressupostos que cristãos de longa data parecem sustentar.
Em suma, minha dúvida diz respeito às epístolas. Para ser claro, não duvido da autenticidade delas e creio que são, de modo geral, úteis e não heréticas. Minha pergunta tem a ver com intenção.
Para explicar meu raciocínio, devo contrastar as epístolas com Atos e os evangelhos. Em relação a Atos, não nos é dito, mas imagino que, após a ressurreição, um dos discípulos foi nomeado por seus pares para escrever o primeiro livro do Novo Testamento. Lucas, sempre cuidadoso em tomar nota, sabia da gravidade de seu escrito. Igualmente, muitos anos depois, os escritores dos evangelhos sabiam que seus escritos influenciariam substancialmente o mundo cristão enquanto Escrituras, uma vez que continham diálogos do próprio Verbo. Esses homens sabiam o que estavam prestes a fazer, e provavelmente o fizeram com grande temor e preparo, na medida em que cresceram vendo a reverência com a qual as Escrituras do Antigo Testamento eram tratadas.
Quando considero as cartas de Paulo, no entanto, a intenção parece diferente. Não podemos saber com certeza, mas a ideia de Paulo não era se sentar para escrever um livro para gerações vindouras de cristãos; antes, ele escrevia para seus amigos e igrejas específicas para encorajar ou repreender em diferentes situações. Obviamente, Paulo se esforça em ser preciso, mas ao mesmo está abordando pessoas e igrejas específicas; comparado com Atos, que registra a história da igreja primitiva, e os evangelhos, que registram verdades universais de nosso criador encarnado, as cartas de Paulo parecem merecer menos atenção e menos aplicabilidade universal. Talvez uma ilustração se aplique aqui.
Tenho uma estante de livros em casa que está lotada até demais. A prateleira no topo é dedicada a minhas Bíblias. A prateleira abaixo dela, também merecendo um lugar de destaque, abriga obras de autores cristãos como C. S. Lewis, Ravi Zacharias e, claro, o senhor! As duas prateleiras do topo são o que tenho de mais precioso. Quando, porém, penso nas epístolas, gostaria de uma nova prateleira, abaixo das Bíblias (sem epístolas), mas acima dos demais escritores cristãos. Afinal, foram escritas por apóstolos durante o período em questão. No entanto, a maioria de meus amigos cristãos encarariam esta ideia como heresia, estando indispostos a considerar minhas razões acima.
O senhor acha que há algum mérito no meu argumento? Obrigado por proporcionar um lugar seguro onde posso fazer minha pergunta.
Seu irmão,
Mark
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Há, sim, mérito em suas observações sobre a natureza das epístolas do Novo Testamento, Mark, mas penso que você está se precipitando nas inferências que está tirando.
Certamente, é verdade que as epístolas do NT são, muitas vezes, intensamente pessoais, tratando de questões específicas em determinadas igrejas locais (embora essas cartas também fossem destinadas, às vezes, a ser circuladas e lidas em múltiplas congregações [Colossenses 4.16]). De fato, isto é truísmo, de modo que as epístolas são chamadas por estudiosos de “cartas de ocasião”. Todos reconhecem que foram escritas para pessoas específicas e abordam questões relevantes a tais pessoas. Você, na verdade, provavelmente exagera o grau em que os evangelhos e Atos estão em si livres de tais características de ocasião.
O problema que enxergo é sua inferência de que a natureza ocasional das epístolas implique, de algum modo, que não são inspiradas por Deus. Infelizmente, você não dá nenhum argumento para esta conclusão, além de dizer que se trata de uma questão de “intenção”. Seu pressuposto implícito parece ser que uma condição necessária para a inspiração divina é que o autor do escrito inspirado por Deus deve ter plena consciência de que está escrevendo algo que não seja meramente de ocasião. Acho que você concordaria que tal pressuposto está longe da obviedade e precisa de argumentos de apoio. Quem pensa que Deus soberanamente superintendeu a redação das epístolas não pensa que os autores humanos tivessem de estar conscientes da orientação divina ou mesmo da importância duradoura do que estavam escrevendo.
Felizmente, tratei desta questão com alguma minúcia nas minhas aulas do curso Defenders sobre a inspiração das Escrituras (partes 5 e 6), e, por isso, indico o que disse ali. Em poucas palavras, defendo que, dado o conhecimento médio divino do que qualquer pessoa faria livremente em qualquer circunstância em que se encontrasse, Deus pode supervisionar a redação das cartas de ocasião sabendo o que uma pessoa (digamos, Paulo) escreveria livremente se fosse colocada em determinadas circunstâncias. Tal carta de ocasião, então, torna-se a palavra de Deus para nós. Esta perspectiva a partir do conhecimento médio de Deus nos dá uma palavra de Deus autorizada e divinamente inspirada, sem infringir a liberdade dos autores humanos de escrever o que desejavam.
- William Lane Craig