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#542 Onde os acadêmicos cristãos estão se escondendo?

July 01, 2018
Q

Caro Dr. Craig,

Cerca de dois anos atrás, assisti ao seu debate com Michael Payton, em que o senhor fez o surpreendente comentário de que, no último meio século, ocorreu uma revolução na filosofia cristão no mundo anglo-saxão. À época, pensei que se tratasse apenas de algum artifício retórico desonesto tentando enganar o público ignorante a pensar que o cristianismo era um ponto de vista aceitável na academia, mas pensava então que mentes como Richard Dawkins eram pensadores iluminados, uma vez que ninguém na igreja a quem eu fazia as perguntas que ele propõe conseguia respondê-las satisfatoriamente, e eu não sabia que uma revolução assim realmente ocorrera. À época, sequer ouvira de pensadores como Plantinga, Swinburne e o próprio senhor. Depois de estudar um pouco de filosofia, vim a entender o que o senhor quis dizer com essa revolução, mas, se eu não tivesse deparado com vídeos de John Lennox e do debate entre o senhor e Christopher Hitchens, provavelmente eu não saberia as respostas a perguntas difíceis que esses grandes pensadores cristãos ofereceram, e a esta altura já teria me tornado agnóstico ou ateu. Graças ao seu trabalho, passei a ter confiança na minha fé e a proclamá-la a outros, mais do que jamais teria imaginado dois anos atrás.

Minha pergunta é a seguinte: qual é sua explicação para esse abismo entre o mundo acadêmico e o pensamento popular? Especificamente, por que essas respostas não chegaram às igrejas? Por que tantas pessoas perdem a fé, pensando que ninguém pode responder a suas perguntas, enquanto existe uma abundância de filosofia e teologia disponível a todos, só que flutuando num vácuo acadêmico? Como jovens acadêmicos, que sabem da existência de tais respostas, o que poderíamos fazer para ajudar a causa de Cristo neste sentido?

Obrigado por tudo o que faz e, por favor, enquanto respirar, nunca pare seu ministério apologético!

Cordialmente,

Hidde
Holanda

Afghanistan

Dr. Craig responde


A

Gosto de falar a públicos mais amplos sobre a renascença da filosofia cristã na última geração, Hidde, porque isto com muita frequência surpreende as pessoas. Penso que os leigos cristãos, de maneira geral, ainda não sabem dos membros intelectuais do corpo de Cristo; é quase como se não existissem. Por que existe “esse abismo entre o mundo acadêmico e o pensamento popular”? Creio haver diversos fatores que levam a tal abismo.

1. O efeito gradual. É preciso entender como a renascença na filosofia cristã é recente. Acontece no mundo anglo-americano desde a década de 1970, mas é apenas uma pequena centelha na Europa e ainda não atingiu a América Latina. Leva tempo para que a influência de estudiosos cristãos alcance as pessoas nos bancos da igreja. Felizmente, por meio do trabalho de divulgadores talentosos como Lee Strobel, Ravi Zacharias, Greg Koukl e tantos outros, o trabalho de estudiosos cristãos vai ficando disponível aos leigos. Consequentemente, interesse em apologética entre leigos comuns é crescente. Por isso, é preciso ter paciência para que a influência de estudiosos cristãos chegue às pessoas em nossas igrejas.

2. Nossos seminários não preparam os futuros ministros adequadamente na apologética cristã. O currículo comum de um seminário inclui pouquíssima instrução para preparar nossos futuros pastores na teologia natural, provas cristãs e respostas a objeções substanciais contra o cristianismo. Eles aprendem o conteúdo bíblico, a preparação de sermões, princípios de administração, e assim por diante, mas pouca teologia e filosofia em profundidade.

3. Nossos pastores não equipam seus rebanhos para dar a razão da esperança que há neles (1 Pedro 3.15). A maioria trata os leigos como simplórios, que não devem ser desafiados a pensar, pois receia que eles vão embora. Não há nenhuma visão para proporcionar outras ocasiões de instrução além do culto matinal. Para ser justo, os pastores são tão sobrecarregados, muitos deles não tendo tempo para manter sua própria vida intelectual, que há pouca água no poço. Além disso, são confrontados com crises existenciais mais urgentes em suas congregações, como divórcio, angústia de pais com adolescentes rebeldes, problemas financeiros, e assim por diante, de modo que questões intelectuais parecem um mundo muito distante da vida real.

4. Leigos cristãos partilham de nossa cultura assustadoramente superficial, que valoriza o entretenimento, esportes, celebridades, e assim por diante, mais do que a vida da mente. Nossas livrarias cristãs estão repletas de “besteirol sobre Jesus” (quinquilharias), em vez de bons livros, de modo que leigos raramente topam com autores cristãos acadêmicos. Repito: felizmente, isto está mudando. Quando se compara o que está disponível hoje em editoras cristãs com o que havia nos anos de 1940 e 1950, foi da água para o vinho! Infelizmente, muitos cristãos nunca chegam a ter contato com esse tipo de material.

Então, o que você pode fazer para ajudar? Simples assim: comece uma turma ou grupo pequeno em sua igreja local em que vocês leiam um livro como Em defesa de Cristo ao longo de muitas semanas. Ou assistam juntos aos vídeos de meu curso Defenders e discutam a respeito deles. Ou assistam juntos a um debate e conversem a seu respeito. O segredo é não depender dos outros para começar algo, mas fazer por conta própria. Obviamente, obtenha permissão, se for o caso, mas tome iniciativa e envolva-se.

- William Lane Craig

- William Lane Craig