#381 Irrevogabilidade e Abertura para Evidência
May 16, 2015Caro Dr. Craig, eu sou um grande fã de você. Apesar de vive em Gana, um país predominantemente religioso sem muita presença secular e humanista, o seu trabalho fortaleceu minha fé e me aprimorou em meus encontros com incrédulos principalmente online. E, à medida que o secularismo está gradualmente ganhando espaço, acredito que o seu trabalho vai ajudar muitos aqui para defender a fé.
Eu tenho lido e ouvido você falar sobre sua visão epistemóloga reformada; a fé cristã está sendo baseada em crenças propriamente básicas testemunhadas pelo Espírito Santo; distinguindo entre saber e mostrar sua fé como sendo verdadeira e tudo mais. Em suas declarações, e, especialmente, com referência ao recente podcast “The Problem with Christian Apologetics” [O Problema com Apologética Cristã], você afirma que quando um crente encontra uma refutação mais qualificada e sofisticada a sua fé, porque ele sabe que sua fé é verdadeira sobretudo pelo testemunho de Deus, ele só tem que ir e pesquisar sobre bons derrotadores (defeaters) às refutações. As refutações sem resposta, de nenhuma maneira, deveriam triunfar sobre o testemunho do Espírito para nós sobre a verdade do cristianismo.
A minha pergunta é: não se poderia argumentar que a pessoa teria o jogo final em mente e só encontrar as razões para escorar uma conclusão pressuposta? O incentivo para reforçar a sua defesa não levaria à interpretação dos dados para encaixar a conclusão já tida? Eu acredito que você defende que devemos avançar até onde as evidências nos levam, quão abertos estamos para as evidências se temos uma conclusão que precisa ser e só pode ser mantida? Eu adoraria ter uma resposta sua.
Obrigado.
Ishmael
Gana
Ghana
Dr. Craig responde
A
É maravilhoso receber a sua carta, Ishmael! É tão animador saber que há pessoas em Gana que estão achando que os materiais do Reasonable Faith são úteis.
A sua pergunta é boa, pois há um grande mal-entendido da Epistemologia Reformada. A subcultura do Livre Pensamento, de onde vem muito do ateísmo popular tende a ser comprometida com o fundamentalismo clássico, o qual mantém que apenas as crenças que são auto-evidentes, incorrigíveis, ou talvez evidente aos sentidos podem ser propriamente mantidas como básicas ou fundamentais; todas as demais devem ser inferidas por argumentos.
Ateísmo cultural popular não percebe que o fundamentalismo clássico está epistemologicamente falido. Ele nos consignaria ao ceticismo ou irracionalidade, já que grande parte do que acreditamos (como a realidade do passado, a existência do mundo exterior, etc.) não pode ser justificado dessa forma. Além disso, a posição é auto-refutante, já que o próprio fundamentalismo clássico não é nem auto-evidente, incorrigível, ou evidente aos sentidos, nem é capaz de [fazer] inferência por argumento das crenças que são. Precisamos proclamar alto e claro que fundamentalismo clássico está morto e que todos nós racionalmente aceitamos crenças que não podem ser justificadas por argumento mas que não satisfazem os critérios estreitos do fundamentalismo clássico para a basicalidade apropriada.
É o mérito dos Epistemólogos Reformados como Alvin Plantinga perguntar por que a crença em Deus não pode estar entre essas crenças propriamente básicas que nós racionalmente aceitamos. Em seu livro Warranted Christian Belief [Crença Cristã Garantida] (Oxford University Press, 2000) Plantinga argumenta convincentemente, eu acho, que fora de uma demonstração da falsidade do cristianismo, não há nenhuma boa objeção à alegação de que podemos conhecer as grandes verdades do evangelho (as verdades centrais da fé cristã) através do testemunho do Espírito de Deus. Porque, se o cristianismo é verdadeiro, então é obvio que Deus poderia conceder aos seus filhos o conhecimento das grandes verdades do evangelho desta forma. De fato, um Deus amoroso não iria abandonar as pessoas para os caprichos de argumentos e evidências, que são relativos ao lugar, à época e às oportunidades e educação de uma pessoa. Ao rejeitar o testemunho do Espírito de Deus como um meio de conhecer as verdades do cristianismo, os ateus e agnósticos do livre pensamento estão pressupondo que o cristianismo é falso, o qual comete uma petição de princípio.
A melhor maneira de considerar isso, eu acho, é a seguinte: nós temos duas fontes independentes de garantia de nossas crenças cristãs, uma das quais é muito superior à outra. Uma fonte são os argumentos e evidências em apoio a reivindicações das verdades cristãs. O outro é o testemunho do Espírito de Deus. Temos, assim, garantia dupla de nossas crenças cristãs. Uma pessoa que se encontra em circunstâncias em que ele não tem os argumentos e evidências (por exemplo, alguém em um campo da Coreia do Norte), ainda tem a garantia concedida pelo Espírito de Deus.
Nós nos encontramos muitas vezes em circunstâncias em que temos tais garantias duplas de nossas crenças. Tome as crenças da memória, por exemplo. Suponha que alguém pergunte como você sabe o que você comeu no café da manhã. Você poderia fornecer evidências em termos do seu padrão habitual de comportamento, o resíduo sobre os pratos sujos na pia, e do testemunho de membros da família que viram você tomando café da manhã. Mas mesmo que essa evidência não estivesse disponível, de modo que você não poderia convencer alguém, você mesmo ainda teria a garantia de sua própria memória do que você comeu no café da manhã. Na verdade, sua crença não é baseada em quaisquer evidências, por mais convincentes que possam ser, mas é uma crença propriamente básica. Você tem duas fontes independentes de garantia para a sua crença.
Assim, Ishmael, você diria que uma pessoa é tendenciosa porque ela aceita sem evidência sua crença na memória que ela comeu ovos no café da manhã? Lógico que não! Ela tem garantia para a sua crença de que ela comeu ovos no café da manhã. Como enfatiza Plantinga, as crenças propriamente básicas fazem parte das conclusões da razão, tanto quanto as crenças inferenciais. (É claro que, se você interpretar o termo "evidência" amplamente o suficiente para abranger a memória, então Plantinga vai dizer que o testemunho do Espírito também é, neste sentido mais amplo, evidência, mas não é assim que Epistemólogos Reformados normalmente usam o termo).
Observe que o que dizemos que conhecemos por meio de testemunho do Espírito não são os pontos específicos da doutrina cristã, muito menos os argumentos da teologia natural e apologética cristã! Na verdade, aqueles que mantêm que o conhecimento não-inferencial de Deus está disponível tem uma grande variedade de visões sobre a teologia natural e as evidências cristãs. Alguns, como Plantinga, tem uma teologia natural robusta (embora ele seja cético de evidências cristãs). Outros, como Karl Barth ou Paul Moser desdenham a teologia natural e até mesmo consideram-na realmente prejudicial ao conhecimento da salvação de Deus. O fato é que as pessoas que abraçam a Epistemologia Reformada não se identificam a um partido em relação aos argumentos teístas ou evidências cristãs.
Por que deveriam? Como eles pensam que uma forma não-inferencial de conhecer as grandes verdades do evangelho é superior aos argumentos e evidências, eles podem na verdade ser mais objetivos do que evidencialistas, cuja crença (ou descrença!) depende desses argumentos! No meu caso, foi preciso fazer uma tese de doutorado sobre o assunto antes de aceitar que o argumento cosmológico Kalam é sólido, e não foi até muitos anos depois que a obra de Stephen Davis me convenceu de que uma versão sólida e persuasiva do argumento cosmológico Leibniziano poderia ser formulado. Foi só mais recentemente que eu mudei de ideia sobre o valor do argumento ontológico. Por outro lado, eu permaneço não convencido pelo argumento conceitualista de Quentin Smith para Deus, por mais que eu gostaria de ser convencido. Como a minha fé é garantida independentemente desses argumentos, eu posso ser mais objetivo do que o ateu do livre pensamento, cujo mundo vai desabar se mesmo um desses argumentos acabar sendo sólido.
Agora eu percebo que eu realmente ainda não cheguei ao centro da sua pergunta, a qual lida com a minha afirmação de que o testemunho do Espírito de Deus é irrevogável, ou seja, é o que Plantinga chama de derrotador (defeater) intrínseco de qualquer derrotador que pode vir contra ele. Esta não é uma reivindicação inerente à Epistemologia Reformada, e eu não tenho noção de quantos Epistemólogos Reformados iriam apoiá-la. Mas parece-me bastante razoável. Parece-me impensável que o nosso amado Pai Celestial deixaria um de seus filhos em uma situação em que a pessoa é racionalmente obrigada a apostatar. Eu acho que Deus, em tal situação, garantiria ainda mais poderosamente a verdade do evangelho por meio de Seu Espírito para que a pessoa permaneça racionalmente justificada em sua crença, apesar dos derrotadores (defeaters) levantados contra ela.
Então eu não acho, nem já afirmei, que devemos sempre "avançar até onde as evidências nos levem." As evidências estão mudando e em dadas circunstâncias podem não apontar para a verdade. Plantinga faz a ilustração de um homem acusado de um crime que ele sabe que ele não cometeu. Mesmo que a evidência esteja contra ele para que um júri o considere culpado, o homem é obrigado a seguir as evidências até onde elas levem? Lógico que não! Pode, obviamente, haver situações em que a evidência aponta para uma conclusão falsa, e se temos garantia independente o suficiente nós não deveríamos seguir a evidência onde ela nos leve. (Talvez devêssemos dar a tal situação um nome atraente, como a Isenção da Redenção de Shawshank.)
Você pergunta: "não se poderia argumentar que a pessoa teria o jogo final em mente e só encontrar as razões para encaixar uma conclusão pressuposta?" Bem, se por "o jogo final" você quer dizer, não os argumentos da teologia natural e evidências cristãs, mas as grandes verdades do Evangelho, então, sim, isto está na minha visão. Mas não é meramente "pressuposta", é garantido! É a petição presunçosa de princípio dos pensadores livres que é apenas uma pressuposição. Assim como o homem inocente acusado de um crime vai tentar encontrar as razões pelas quais as evidências que foram contra ele são de alguma forma falhas, como ele sabe que são, nós também somos perfeitamente racionais em procurar as falhas nos derrotadores (defeaters) apresentados contra a verdade do cristianismo.
Por fim, você pergunta, "O incentivo para reforçar a sua defesa não levaria à interpretação dos dados para atender a conclusão já tida?" Agora, espere um minuto, não vamos ficar confusos! Nós não estamos falando sobre a defesa positiva para a verdade do cristianismo. Como vimos, os Epistemólogos Reformados diferem muito se existe mesmo uma defesa a ser apresentada. Longe de reforçar a defesa apologética de alguém, ter um conhecimento não-inferencial de Deus pode enfraquecer e muitas vezes enfraqueca-a, porque tal defesa torna-se supérflua. Portanto, não pode ser correto que afirmar ter conhecimento não-inferencial de Deus leva a um reforço da defesa de alguém.
O que está em questão aqui é, em vez disso, se manter que o testemunho do Espírito de Deus é irrevocável leva a algum passo epistêmico em falso. Se isso acontece, então com prazer eu vou abandonar essa reivindicação. Afinal de contas, essa afirmação não é essencial para a Epistemologia Reformada, muito menos para o cristianismo. Mas eu não vejo que você identificou qualquer transgressão epistêmica até agora.
- William Lane Craig