#384 O que Herodes Estava Pensando?
May 16, 2015Caro Dr. Craig,
No debate dele com você, e nas pp. 175 e 211 em seu livro "Jesus is Dead", o Dr. Robert Price argumenta que a noção de ressurreições provavelmente não era muito inesperada no Judaísmo do segundo templo e/ou totalmente ausente da cosmovisão do judaísmo do primeiro século. Ele cita especificamente o caso de alguns se perguntando se Jesus era o João Batista ressuscitado.
Além de sua resposta que aponta o erro categórico essencial de Price (ressuscitar meros homens não é a mesma coisa que a expectativa de um Messias ressuscitado), você poderia elaborar mais a respeito do porquê as duas instâncias (Jesus sendo confundido como João ressuscitado e a aceitação judaica para um Deus morrendo e ressuscitando) são completamente distintas?
Muito obrigado de um ex-aluno! (MA em Apologética na Biola)
Paul
Estados Unidos
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Dr. Craig responde
A
Fico feliz em escolher a sua pergunta, Paul! A passagem em questão é Marcos 6:14-16, sobre os relatórios do ministério da realização de milagres de Jesus:
E ouviu isso o rei Herodes (porque o nome de Jesus se tornara notório) disse: João, o que batizava, ressuscitou dos mortos, e por isso estas maravilhas operam nele. Outros diziam: É Elias. E diziam outros: É um profeta ou como um dos profetas.Herodes, porém, ouvindo isso, disse: Este é João, que mandei degolar; ressuscitou dos mortos.
Um dos fatos que precisa ser explicado por qualquer historiador que pretenda dar conta do destino de Jesus e da origem do movimento de Jesus após a sua morte, é o fato de que os primeiros discípulos vieram de repente e sinceramente à crença que Jesus ressuscitou dentre os mortos, apesar de toda a predisposição para o contrário. Por exemplo, a ideia da ressurreição de uma pessoa isolada fora e antes da ressurreição geral no fim do mundo, era simplesmente desconhecida no judaísmo antigo. Esse dado torna mais difícil explicar por que os discípulos acreditaram tal coisa de Jesus.
Alguns têm utilizado a passagem acima para disputar a afirmação de que a ideia de uma ressurreição isolada no meio da história era desconhecida no judaísmo antigo. Tal resposta faz um erro de categoria, como você nota. Mas você parece não ter compreendido o que é o erro de categoria. Não é uma confusão entre a ressurreição do Messias e a ressurreição de um mero homem. Pelo contrário, é a confusão entre revivificação e ressurreição. Uma pessoa revivida da morte apenas voltou para a vida mortal e morreria de novo; uma ressurreição no pensamento judaico era para a glória e imortalidade. Certamente revivificações milagrosas dos mortos eram conhecidas—Jesus mesmo ressuscitou os mortos nesse sentido—, mas tais revivificações não eram, propriamente falando, ressurreições. Assim, a passagem de Marcos não fornece um contraexemplo para a afirmação de que no judaísmo a ressurreição sempre era um acontecimento escatológico corporativo mais do que Jesus revivendo Lázaro da sepultura.
O que ainda precisa ser dito, no entanto, é que Herodes e as pessoas não estavam falando nem da revivificação nem da ressurreição de João. Isso é muito óbvio pelo fato de que Jesus e João eram contemporâneos— Jesus estava ativo no ministério simultaneamente com João. Antes de João fosse preso e decapitado, Jesus estava vivo e ativo. Então, as pessoas não poderiam ter pensado que Jesus era literalmente o cadáver decapitado de João Batista trazido de volta à vida.
Em vez disso o que está acontecendo aqui, como o comentário "é por isso que esses poderes estão trabalhando nele" revela, é que as pessoas viam que o manto de João Batista agora tinha caído sobre Jesus. O mesmo poder que inspirou João repousaria sobre Jesus, e Jesus continuaria o que João começou. É como se alguém estivesse dizendo que Jesus é a reencarnação de João. Mas essa metáfora caberia em um contexto Hindu, não judeu. Em um contexto judaico, se diria como Herodes disse, que Jesus é João ressurreto dentre os mortos, não literalmente, mas no sentido figurado.
O que precisa ser questionado é se, quando os discípulos proclamaram que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, eles estavam falando apenas figurativamente, não literalmente. A crença deles no túmulo vazio e nas aparições post-mortem (pós-morte) de Jesus, bem como as reflexões de Paulo em I Coríntios 15, mostram o contrário.
- William Lane Craig