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#80 J. Brian Pitts sobre o Argumento Cosmológico Kalam

January 14, 2015
Q

Eu estou no momento fazendo [aluno] uma pesquisa sobre o Argumento Cosmológico Kalam. Tenho olhado (e para ser honesto, lutado com) um artigo recente que é de Pitts, J. Brian (2007), Why the Big Bang Singularity does not Help the Kalam Cosmological Argument for Theism [Porque a Singularidade do Big Bang não ajuda o Argumento Cosmológico Kalam em favor do Teísmo] (http://philsci-archive.pitt.edu/archive/00003496/), que você aparentemente já leu (?). Pitts parece levantar algumas questões técnicas que você não parece ter abordado na literatura que já li até agora:

1. Nos seus argumentos contra infinitos atuais, você parece assumir que o conceito de tamanho é completamente capturado pela noção de cardinalidade. Pitts afirma, porém que 'alguém pode muito bem aceitar a possibilidade de infinitos atuais, tal como o hotel de Hilbert, enquanto nega que a cardinalidade esgota a noção de igualdade de tamanho', e oferece evidência que a física contemporânea 'implicitamente nega' que isso acontece (p. 10). Se isso é verdade, isso não poderia fazer com que grande parte do seu discurso sobre o absurdo dos infinitos atuais se tornasse redundante?

2. No seu apelo à cosmologia contemporânea, Pitts também te critica veementemente por oferecer um critério para um começo que é 'sem significado para a teoria Bach-Weyl' e 'ambíguo para teorias escalar - tensoriais'. Ele parece insistir que a questão realmente relevante *é* se as séries temporais tiveram ou não um primeiro momento/ponto inicial (no sentido topológico de um começo), e que você não tem a liberdade de arbitrariamente cortar as séries temporais em comprimentos iguais, apontar para o primeiro segmento e nomeá-la como o 'começo'. Aparentemente você está ignorando uma questão técnica relacionada a métricas.

Existem outras questões um tanto técnicas que Pitts levanta, mas eu ficaria grato em ouvir o que você pensa sobre esses pontos. Claro que, qualquer outro comentário que você quiser fazer sobre o artigo será, tenho certeza, muito interessante.

Obrigado por seu tempo.

Anon.

United States

Dr. Craig responde


A

Sim, Brian me mostrou o trabalho alguns anos atrás em uma versão pré-impressa, e tenho esperado o artigo aparecer de forma impressa antes de responder. É bom ver a atenção que está sendo dada ao argumento kalam em um periódico de tanto prestígio como o British Journal for the Philosophy of Science [Periódico Britânico para a Filosofia da Ciência]. James Sinclair e eu estaremos co-escrevendo e submetendo uma resposta.

Eu acho que você, na verdade, não percebeu o principal ponto da crítica de Pitt. O artigo é longo e um pouco desconexo, o que contribui para que isso aconteça. Se retirarmos a decoração e o material extra, os pontos centrais dele são, na realidade, críticas familiares que oferecem pouco material novo. Portanto, irei direto ao ponto, deixando alguns comentários adicionais para depois.

A resposta de Pitt à pergunta colocada indiretamente no título de seu artigo, “Porque a Singularidade do Big Bang não ajuda o Argumento Cosmológico Kalam em favor do Teísmo”, tem dois componentes: (1) se o espaço-tempo é singular, então não existe o primeiro momento no tempo, que é uma condição necessária para a existência do início do universo, e (2) é provável que teorias ainda não descobertas revelem que o espaço-tempo não é singular.

Já abordei (1) em muitos lugares. O ponto de Pitt é que já que a singularidade cosmológica inicial é no máximo um ponto de limite do espaço-tempo em vez de parte do espaço-tempo, não existe o primeiro instante da existência do universo, assim como não existe a menor de todas as frações. Portanto, mesmo que o tempo seja finito, não pode ser dito que ele começou a existir.

A falácia dessa objeção é a suposição de Pitt que começar a existir implica ter um ponto inicial. Porque deveríamos pensar assim? Plausivelmente, como Quentin Smith já argumentou, o tempo começou a existir se, e somente se, para qualquer intervalo de tempo arbitrariamente designado, diferente de zero e finito existe apenas um número finito de intervalos iguais anteriores a ele; ou, alternativamente, o tempo começa a existir se, e somente se, para algum intervalo temporal finito diferente de zero não existe um intervalo igual antes dele ("On the Beginning of Time," [Sobre o Começo de Tempo] Noûs 19 [1985]: 579-84). Dado essa caracterização intuitivamente plausível do que significa o tempo começar a existir, o exemplo oferecido por Pitt pode ser tomada como uma boa razão para concluir que a suposição de Pitt é falsa.

Além do mais, note que a suposição de Pitt nos comprometeria com a realidade de pontos. Mas se o espaço e o tempo realmente são compostos de uma infinidade real de pontos ou se, ao invés disso, eles são simplesmente modelados dessa forma na relatividade geral, é certamente uma pergunta que deve ser respondida usando-se argumentos e evidência, e não algo que deve ser simplesmente assumido, como Pitt faz.

Ademais, o próprio argumento do Destruidor Cósmico (pp. 15-16 de seu artigo) enfraquece sua suposição. Pois se começar a existir implica em ter um ponto de início, então, por raciocínio paralelo, cessar de existir implica ter um ponto final. Mas Pitt afirma que qualquer coisa que cai num buraco negro cessará de existir, e isso a despeito do fato de que tal coisa não tem um ponto final de sua existência (já que uma singularidade terminal também é meramente um ponto de limite do espaço-tempo em vez de ser parte do espaço-tempo). Assim, se o universo cessa de existir no Big Crunch, a paridade requer que ele tenha começado a existir no Big Bang!

Nós precisamos, portanto, de algum bom argumento de Pitt para pensar que a admitida finitude do tempo em direção ao passado não é suficiente para o tempo ter começado a existir. Aqui eu fiquei pasmo com a resposta dele. A razão que ele apresenta é que o critério que eu ofereci para o começo do tempo não é metafisicamente necessário! Existem mundos possíveis que são governados por diferentes leis da natureza, como os dois exemplos que você cita, e nesses mundos não existe forma de saber se dois intervalos temporais separados tem a mesma duração ou não. Assim, nesses mundos meu critério não se aplicaria.

Este argumento é maluco, já que eu nunca tive a intenção nem existe qualquer necessidade para que o critério seja metafisicamente necessário. Tudo o que importa é que ele se aplique ao mundo real. E Pitt admite que ele se aplica (pelo menos se o espaço-tempo tem uma singularidade inicial). Ele diz, “Se a verdadeira história do mundo real é caracterizada por tal singularidade, então o mundo é metricamente finito em idade” (p. 10). Este é o ponto em que fica fácil de compreendê-lo de forma errada. Todas essas coisas sobre teorias Bach-Weyl e escalar - tensoriais tem a ver com outros mundos possíveis governados por essas teorias ao invés do mundo real. Mas no mundo real nós podemos comparar intervalos temporais com respeito ao seu comprimento. (Para uma crítica das afirmações chamadas de convencionalismo métrico veja meu Time and the Metaphysics of Relativity, Philosophical Studies Series 84 [Tempo e a Metafísica da Relatividade] [Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2001], cap. 2.). Dessa forma, meu critério para o tempo e o universo terem tido um começo funciona muito bem.

Finalmente, um último ponto que eu acho um tanto quanto divertido: a insistência de Pitt de que começar a existir implica em ter um ponto inicial o leva diretamente aos antigos paradoxos gregos sobre o movimento, no que diz respeito às ações de parar e começar a se mover. Pensadores antigos, como Parmênides, afirmavam que se um objeto O está em descanso no tempo t, é impossível para O começar a se mover. Pois para qualquer tempo t?>t, se O está em movimento em t?, então existe um tempo anterior t*começar a mover-se não implique em ter um ponto inicial de movimento, então, generalizando, também não deveríamos exigir que, por começar a existir, o universo tenha que ter um ponto inicial de sua existência. Concluindo, a primeira objeção de Pitt não tem muita força!

Segundo Pitts, a segunda razão pela qual a singularidade do Big Bang não ajuda o argumento cosmológico kalam é que é muito provável que “algum tipo de gravidade quântica irá resolver a singularidade em alguma situação bem definida que admita extrapolações para tempos ainda anteriores, ad infinitum” (p. 10). Assim, o argumento dele é que a singularidade do Big Bang não é oferece qualquer ajuda porque não houve uma singularidade do Big Bang!

O problema com esse argumento é que se o início do universo foi ou não singular é simplesmente irrelevante para o argumento cosmológico kalam. Nesse sentido, todo o projeto de Brian nesse artigo é mal elaborado. Ele evidentemente iguala o argumento cosmológico kalam com o que ele chama de “o argumento da singularidade em favor do teísmo” (p. 2). Na realidade, esta equação está simplesmente errada, já que o argumento cosmológico kalam está comprometido simplesmente com a premissa de que o universo começou a existir.

A pergunta realmente importante é a última frase na sentença citada acima: se esses modelos quânticos gravitacionais irão “admitir extrapolações para tempos ainda anteriores, ad infinitum”. O que está em questão é a infinidade do passado, não se o começo do universo envolveu uma singularidade ou não.

Na realidade, a singularidade inicial é extraordinariamente difícil de eliminar. De fato, o teorema de Borde-Guth-Vilenkin, de 2003, mostra que qualquer universo que está, na média, em um estado de expansão cósmica ao longo de sua história precisa ter um limite no passado, independentemente de qual teoria quântica da gravidade é usada para descrever o segmento inical (veja no arquivo a Q & A 48).

Mas, de qualquer forma, como já argumentei em outros lugares, modelos não-singulares viáveis (como o modelo de Stephen Hawking) ainda envolvem um passado meramente finito e, portanto, um começo do tempo e do universo. No ainda não publicado Blackwell Companion to Natural Theology [Guia Blackwell para a Teologia Natural] Jim Sinclair avalia a gama de modelos atuais diferentes do modelo padrão e mostra que nenhum deles pode ser extrapolado para um passado infinito com sucesso. Assim, considerando a evidência oferecida pela cosmologia contemporânea, temos bons fundamentos para afirmar que o universo começou a existir.

Não contente com a promessa da cosmologia quântica, Pitt vai ainda mais longe e chega ao ponto de defender as prerrogativas de hipóteses que nem ainda foram concebidas como justificativa para o ceticismo sobre o início do universo: “O conjunto relevante de competidores para GTR [Teoria Geral da Relatividade] inclui o conjunto de teorias que concordam com GTR em todos os experimentos que já foram feitos até hoje, quer já tenham sido cogitadas na Terra ou não” (p. 19). Isso é demais. Uma coisa é ter boas razões para pensar que uma teoria gravitacional quântica irá resolver as singularidades da Teoria Geral da Relatividade e outra coisa bem diferente é apelar para teorias de espaço-tempo que nem sequer foram imaginadas e que concordam com toda a evidência experimental até hoje mas que não são singulares. Tal apelo à ignorância legitimaria o ceticismo com relação a todas as teorias científicas. Ao enfraquecer todas as teorias científicas em geral, isso não faz nada para enfraquecer a Relatividade Geral em particular.

Portanto, não existe nada em seu artigo que realmente apóie a alegação de Pitt de que a cosmologia contemporânea não faz nada, ou faz muito pouco, para justificar a crença na segunda premissa do argumento cosmológico kalam de que o universo começou a existir.

Com respeito aos argumentos filosóficos em defesa do começo do universo, os comentários incidentais de Pitt não constituem criticismo sério. Olhe novamente e você verá que ele não diz nada no parágrafo sobre “evidências obtidas da física contemporânea”. O ponto dele sobre cardinalidade e tamanho é apenas um comentário de passagem que não tem nenhuma importância até ele explicar qual outro conceito de tamanho ele propõe e como isso afetaria os absurdos do Hotel de Hilbert, especialmente aqueles envolvendo operações inversas como a subtração.

Um último ponto: as seções finais do artigo de Pitt tornam bastante evidente que seu ceticismo sobre o começo do universo é tão direcionado por uma agenda quanto as visões dos “apologistas teístas dominados pela singularidade” que ele critica. A paranóia de Pitt sobre o Deus-das-lacunas faz com que ele seja tão cético que ele preferirá ter fé na existência de teorias desconhecidas que nunca foram cogitadas na Terra em vez de admitir que a melhor evidência aponta para o começo do universo. Os comprometimentos teológicos pessoais de Pitt, portanto, fazem com que a avaliação que ele faz da evidência seja enviesada.

O que torna isso especialmente lamentável é que “o argumento da singularidade em favor do teísmo” é, de fato, um termo impróprio. Não existe tal argumento. O que Pitt realmente está discutindo é um suposto “argumento da singularidade em defesa do início do universo”. Em alguns momentos Pitt reconhece isso: “A verdade da segunda premissa, ou melhor, a fonte de garantia epistêmica para a segunda premissa, é a questão chave” (p. 10; cf, p.1). Mas a afirmação de que o universo começou a existir é uma afirmação religiosamente neutra, que pode ser encontrada em virtualmente qualquer livro-texto de astronomia e astrofísica. Isto é muito significativo, já que sugere que todo o discurso de Pitt sobre o Deus-das-lacunas e a impenetrabilidade da teologia natural é simplesmente irrelevante para o sucesso do argumento e, portanto, não deveria ter qualquer papel na discussão.

- William Lane Craig