#270 Justificação da Segunda Premissa do Argumento Moral
January 14, 2015Caro Dr. Craig,
Tenho lido seu livro, "Em Guarda" e tenho uma pergunta sobre o argumento moral (que eu também já ouvi você usar em vários de seus debates). Eu tenho visto ele mais comumente na configuração como:
1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem.
2. Valores e deveres morais objetivos existem.
3. Portanto, Deus existe.
Essencialmente, eu acho que, embora o argumento moral tenha um papel em nossas discussões com ateus e outras cosmovisões, ele não parece ser uma prova real da existência de Deus, mas, sim, uma implicação de sua existência. Um ateu pode dizer que a moralidade (embora subjetiva) desenvolveu-se a partir de influências biológicas e sociológicas, evoluindo para o que hoje consideramos ser "certo e errado". Embora discutir como chegamos a conhecer a moralidade não diga nada sobre a ontologia da moralidade, parece que a única maneira de um teísta mostrar que uma posição moral objetiva existe seja provar (ou proporcionar uma maior probabilidade através de evidências) que Deus existe. Isto é devido ao fato de que a conversa quase sempre se move da ontologia da moralidade para a epistemologia da moralidade. Pareceria que a única maneira de limpar o ar seja determinar qual cosmovisão é verdadeira. Minha preocupação pode ser fundada sobre a minha própria ignorância, mas o argumento moral parece ser uma rua de mão única porque, ao mostrar que Deus existe, a moralidade objetiva existe. No entanto, seguindo essa linha de pensamento em seu reverso, torna-se cada vez mais difícil sem apontar a Deus, já que ambos os lados podem oferecer uma explicação de como chegamos a um entendimento da moralidade - que mais uma vez, não diz nada sobre a natureza subjetiva ou objetiva da moralidade.
Eu acho que o argumento moral ajuda a contar o custo de ideologia, ou, como você disse em seu livro, "o que está em jogo." Mas eu não acho que o "custo" deveria ser uma razão para aceitar algo como verdadeiro, já que nosso agrado ou desagrado de uma verdade não tem efeito sobre essa verdade. Acho que o meu ponto está em usar valores objetivos para mostrar que Deus existe e, em seguida, usar Deus para mostrar que existem valores objetivos parece ser raciocínio circular. Podemos usar o argumento moral, como indicado acima, como prova real da existência de Deus e em caso afirmativo, como é que vamos "provar" ou dar evidências de moralidade objetiva além de apontar para Deus?
Corey
United States
Dr. Craig responde
A
Corey, sua pergunta é, em efeito, se o argumento moral, como eu o coloco, não é petição de princípio, já que a única justificação para crer que a premissa (2) é verdadeira é acreditar que Deus existe, a qual é a conclusão do argumento, de modo que se está raciocinando em um círculo.
Eu respondo que o argumento não comete a falácia da petição de princípio, já que a garantia que eu ofereço para a crença em valores e deveres morais objetivos não é Deus, mas a experiência moral (ver pp. 141-3 de Em Guarda). Que tal recurso não comete a falácia da petição de princípio deveria ser evidente a partir do fato de que a maioria dos não-teístas, incluindo ateus, acreditam na verdade da premissa (2) precisamente nesta base.
Louise Antony, sendo uma não-teísta, disse tão bem no nosso debate há alguns anos em U Mass, Amherst: Qualquer argumento a favor do ceticismo moral será baseado em premissas que são menos óbvias do que a existência dos próprios valores morais objetivos. Isso parece-me correto. Portanto, o ceticismo moral é injustificável.
O filósofo humanista Peter Caverna dá o seguinte exemplo:
Qualquer argumento cético pode ser trazido contra a nossa crença de que a morte de inocentes é moralmente errada. Estamos mais certos de que a morte é moralmente errada de que o argumento é sólido [...] Torturar uma criança inocente para o prazer da diversão é moralmente errado. Ponto final. [1]
Na experiência moral, encontramos valores e deveres morais objetivos, e assim, na ausência de algum tipo de invalidador (defeater) dessa crença, somos perfeitamente racionais para mantê-la. O realismo moral é a posição padrão e o cético moral precisa fornecer alguns invalidadores (defeaters) poderosos para superá-lo.
Pode-se chegar ao mesmo ponto de outra maneira, comparando, como William Sorley faz (p. 128 do Em Guarda), nossa apreensão da esfera moral com a nossa apreensão da esfera física. Assim como não podemos sair de nossas percepções morais para tentar justificá-las, não podemos sair de nossas percepções sensoriais para tentar justificá-las. Assim como, na ausência de algum invalidador (defeater), nós confiamos em nossas percepções sensoriais que existe um reino de objetos físicos objetivamente existentes em torno de nós, então nós confiamos em nossas percepções morais de que existe uma esfera objetivamente existente de valores e deveres morais. Para qualquer argumento a favor do ceticismo sobre nossas percepções morais poderíamos fazer um argumento paralelo em favor do ceticismo sobre as nossas percepções sensoriais. Mas você teria que ser louco para duvidar da veracidade de suas percepções sensoriais de uma esfera de objetos físicos objetivamente existentes. Da mesma forma, até que recebamos um invalidador (defeater), devemos confiar em nossa percepção moral de uma esfera de valores e deveres objetivamente existentes.
Agora, como eu digo, isso não é uma justificação teísta de crença nos valores e deveres morais objetivos; este é o caminho que quase todos os realistas morais percorrem para justificar sua crença na objetividade dos valores e deveres. Não há circularidade aqui.
Em todo caso, eu o encorajo a simplesmente perguntar ao seu parceiro de conversa se ele acredita em alguns valores e deveres morais objetivos. Pergunte o que ele acha de exemplos de atrocidades morais. Mesmo que o descrente não tenha justificação para acreditar na premissa (2), contanto que ele acredite na premissa (2), o argumento passa. Uma vez que quase todo mundo acredita que (2) é verdadeira, o debate vem realmente para (1). O descrente vai ter que explicar como valores e deveres morais objetivos podem existirem um mundo sem Deus como padrão absoluto e legislador.
Você deve resistir resolutamente à tendência de confundir ontologia moral com a epistemologia moral. Se o descrente tentar conduzir a conversa para a epistemologia, você deve trazer a conversa de volta aos trilhos. É simplesmente irrelevante que, como você diz, "ambos os lados podem oferecer uma explicação de como chegamos a um entendimento da moralidade." Pode-se concordar com tudo o que o descrente diz sobre isso: chegamos a um entendimento da moralidade através da evolução biológica, condicionamento social, influências dos pais, etc., etc. Tudo isso é irrelevante para a pergunta de se existem valores e deveres morais objetivos, como você mesmo observa.
É claro, o descrente pode apresentar o relato sócio-biológico como um invalidador (defeater) putativo de (2), caso em que você tem que lidar com isso. Mas eu lido com duas versões desta objeção no Em Guarda, pp. 142-4. Convido você a refletir sobre o que eu digo lá.
Finalmente, quando falo sobre o custo de negar as premissas de um argumento teísta, eu estou falando sobre o custo intelectual. Um cético determinado sempre pode negar a conclusão de um argumento ao simplesmente negar uma das premissas. (Isso me leva a pensar em uma observação de Alvin Plantinga que se pode reduzir alguém do conhecimento à ignorância oferecendo-lhe um argumento válido com base em premissas que ele sabe que são verdadeiras para uma conclusão que ele simplesmente não vai aceitar!) Você quer fazer o preço intelectual do ateísmo tão alto quanto você pode, na esperança de que o descrente verá que o preço é demasiado elevado, que, para manter seu ateísmo em face do argumento comprometeria a sua integridade intelectual. Esse é o método da boa argumentação.
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[1]
Peter Cave, Humanism (Oxford: OneWorld, 2009), p. 146. Agradeço a Peter S. Williams por essa referência.
Peter Cave, Humanism (Oxford: OneWorld, 2009), p. 146. Agradeço a Peter S. Williams por essa referência.
- William Lane Craig