#90 Jesus e a Mitologia Pagã
August 03, 2014Dr. Craig,
Obrigado por sua ajuda em tudo o que você faz para mostrar a verdade que está em Cristo.
Eu na verdade só tenho uma pergunta e, para ser honesto, me traz uma frustração sem tamanho. Ela surge quase toda a vez que discuto Cristianismo com alguém.
A questão de se “Jesus é um mito plagiado ou pessoa real?” É a fonte da objeção que eu recebo a maior parte das vezes. Eles mostram todas as semelhanças de Cristo com outros deuses mitológicos e constelações estrelares e depois dizem “Está vendo quão semelhantes eles são?”
Parece que não importa como eu refuto alguma semelhança específica entre Cristo e outras crenças mitológicas, eles não levam o que eu falo a sério, porque eles respondem que eu “trabalho duro demais para salvar a minha religião.”
Quão sólido é o caso deles? É ainda debatido nos altos níveis acadêmicos?
Eu realmente gostaria de ouvir suas ideias sobre esse assunto, porque eu o fico encontrando e francamente estou cansado de tentar refutar cada similaridade individualmente.
Obrigado por tudo que você tem feito, mas o argumento para valores e deveres morais objetivos foi aquele que me levou para Cristo.
Kevin
United States
Dr. Craig responde
A
O falecido Robert Funk, fundador do radical Jesus Seminar [Seminário de Jesus], costumava reclamar amargamente do abismo que existe entre o alto academicismo e as crenças populares sobre Jesus. Funk estava pensando, primariamente, no isolamento da piedade popular com o academicismo do Jesus histórico; mas, em nenhum lugar o abismo ficou tão imenso quanto entre a impiedade popular e os estudos do Jesus histórico.
O movimento do Pensamento Livre, que abastece a objeção popular que crenças Cristãs sobre Jesus são derivadas da mitologia pagã, está travado no academicismo do fim do século dezenove. Em um sentido, isto é espantoso, já que existem diversos acadêmicos céticos contemporâneos, como aqueles no Seminário de Jesus, de cujo o trabalho os Pensadores Livres poderiam tirar proveito a fim de justificar sua compreensão tradicional sobre Jesus. Mas isso simplesmente mostra quão desorientados esses popularizadores estão com o trabalho acadêmico sobre Jesus. Eles estão cem anos desatualizados.
Há muitos anos, no tempo da então chamada escola da História das Religiões, acadêmicos em religião comparada colecionaram paralelos a crenças cristãs em outros movimentos religiosos, e alguns quiseram explicar aquelas crenças (incluindo a crença na ressurreição de Jesus) como resultado da influência de tais mitos. Hoje, porém, raramente qualquer acadêmico pensa no mito como uma categoria interpretativa importante para os Evangelhos. Acadêmicos começaram a se dar conta que a mitologia pagã é simplesmente o contexto interpretativa errado para entender Jesus de Nazaré.
Craig Evans tem chamado essa mudança de a “Eclipse da Mitologia” na pesquisa Vida de Jesus (veja seu excelente artigo "Life-of-Jesus Research and the Eclipse of Mythology," [Pesquisa Vida de Jesus e a Eclipse da Mitologia] TheologicalStudies 54 [1993]: 3-36). Então James D. G. Dunn começa seu artigo sobre “Mito”no Dictionary of Jesus and the Gospels [Dicionário de Jesus e os Evangelhos] (IVP, 1993) com um comentário direto, “Mito é um termo no mínimo duvidoso quando se trata de sua relevância aos estudos de Jesus e os Evangelhos.”
Às vezes essa mudança é referida como “a reivindicação judaica de Jesus.” Pois Jesus e seus discípulos eram judeus da Palestina do primeiro século, e é contra esse pano de fundo que eles devem ser entendidos. A reivindicação judaica de Jesus tem ajudado a tornar sem justificativa qualquer compreensão do retrato dos Evangelhos sobre Jesus como significativamente moldado pela mitologia.
Esta mudança é nítida com respeito a historicidade dos milagres e exorcismos de Jesus. Acadêmicos contemporâneos podem não estar mais preparados a acreditar no caráter sobrenatural dos milagres e exorcismos de Jesus do que estavam os acadêmicos da geração anterior. Mas eles não estão mais dispostos a atribuir tais histórias à influência de mitos helenísticos do homem divino (theiosaner). Em vez disso os milagres e exorcismos de Jesus devem ser interpretados no contexto das crenças e práticas judaicas do primeiro século. O acadêmico judeu Geza Vermes, por exemplo, tem chamado a atenção para os ministérios de realizadores de milagres carismáticos e/ou exorcistas como Honi, o Desenhador de Círculos (primeiro século A.C.) e Haninaben Dosa (primeiro século A.D.), e interpreta Jesus de Nazaré como um Judeu hasid ou homem santo. Hoje o consenso do academicismo defende que realizar milagres e exorcismos (retirando a questão de seu caráter sobrenatural) asseguradamente pertencem a qualquer reconstrução histórica aceitável do ministério de Jesus.
O colapso da velha escola da História das Religiões aconteceu primariamente por duas razões. Primeiro, acadêmicos começaram a entender que os supostos paralelos são espúrios. O mundo antigo tinha um número sem fim de mitos de deuses e heróis. Estudos comparativos em religião e literatura requerem sensitividade a suas semelhanças e diferenças, ou distorções e confusão serão o resultado inevitável. Infelizmente, aqueles que alegaram paralelos com as crenças cristãs falharam em exercer tal sensitividade. Pegue, por exemplo, a história do nascimento virginal, ou, mais acuradamente, a concepção virginal de Jesus. Os supostos paralelos pagãos a essa história são relativos aos contos de deuses assumindo forma corporal, e tendo relações sexuais com mulheres humanas para ser pai de um descendente divino-humano (como Hércules). Como tais, essas histórias são exatamente o oposto da história do Evangelho de Maria concebendo Jesus à parte de qualquer relação sexual. As histórias do Evangelho da concepção virginal de Jesus são, de fato, sem paralelo no Antigo Oriente Próximo.
Ou considere o evento dos Evangelhos de mais interesse para mim: a ressurreição de Jesus dos mortos. Muitos dos supostos paralelos com esse evento são, na verdade, histórias apoteóticas, como a divinização e a ascensão do herói ao céu (Hércules, Rômulo). Outras são histórias de desaparecimento, afirmando que o herói foi para uma esfera maior (Apolônio de Tiana, Empédocles). Ainda outros são símbolos sazonais para o ciclo de colheita, ao a vegetação morrer na estação seca e voltar à vida na estação chuvosa (Tamuz, Osíris, Adonis). Alguns são expressões políticas de adoração ao imperador (Júlio César, César Augusto). Nenhum desses é paralelo à ideia judaica da ressurreição dos mortos. David Aune, que é especialista de literatura comparativa do Antigo Oriente Próximo, conclui, “nenhum paralelo a eles [tradições de ressurreição] é encontrado na biografia Greco-Romana” ("The Genre of the Gospels," [O Gênero dos Evangelhos] em Gospel Perspectives II, ed. R. T. France e David Wenham [Sheffield: JSOT Press, 1981], p. 48).
Na verdade, a maioria dos acadêmicos tem começado a duvidar, propriamente falando, se haveria qualquer mito de deuses que morrem e ressuscitam de verdade! No mito de Osíris, um dos mitos de símbolo sazonal mais conhecido, Osíris não volta, de fato, a vida, mas simplesmente continua a existir no reino inferior dos falecidos. Em uma recente revisão das evidências, T. N. D. Mettinger reporta: “Desde os anos 1930.... um consenso tem se desenvolvido para o efeito que 'deuses que morrem e ressuscitam' morrem mas não retornaram ou levantaram-se para viver novamente... Aqueles que pensam diferentemente são vistos como membros residuais de uma espécie quase extinta.”(Tryggve N. D. Mettinger, The Riddle of Resurrection: "Dying and Rising Gods" in the Ancient Near East [O Enigma da Ressurreição: “Deuses que Morrem e Levantam” no Antigo Oriente Médio] [Stockholm, Sweden: Almquist & Wiksell International, 2001], pp. 4, 7).
O próprio Mettinger acredita que mitos de morrer e ressuscitar existiram nos casos de Dumuzi, Baal, e Melcarte; mas ele reconhece que tais símbolos são bastante diferentes da antiga crença cristã da ressurreição de Jesus:
Os deuses que morrem e levantam eram intimamente relacionados ao ciclo sazonal. Sua morte e retorno eram vistos como refletidos na vida vegetal. A morte e ressurreição de Jesus foi um evento único, não repetido, e não relacionado a mudanças sazonais. ... Não existe, até onde eu saiba, qualquer evidência prima facie de que a morte e ressurreição de Jesus seja uma construção mitológica, ao compará-lo com os mitos e ritos de deuses morrendo e levantando do mundo ao redor. Quando estudado com o pano de fundo da crença na ressurreição judaica, a fé na morte e ressurreição de Jesus retém um caráter único na história das religiões. O enigma permanece. (Ibid., p. 221).
Note o comentário de Mettinger, de que a crença na ressurreição de Jesus pode ser proveitosa quando estudada com o pano de fundo das crenças na ressurreição judaicas (não mitologia pagã). Aqui nós vemos aquela mudança nos estudos de Novo Testamento que eu destaquei acima, como a reivindicação judaica de Jesus. A estupidez dos supostos paralelos é apenas um dos indicativos de que a mitologia pagã é o contexto errado para entender as crenças dos discípulos na ressurreição de Jesus.
Segundo, a escola da História das Religiões entrou em colapso como uma explicação para a origem das crenças cristãs sobre Jesus, porque não havia uma conexão causal entre os mitos pagãos e a origem das crenças cristãs sobre Jesus. Pegue, por exemplo, a ressurreição. Judeus estavam familiarizados com as deidades sazonais mencionadas acima (Ez 37.1-14) e os achavam repugnantes. Portanto, não há qualquer traço de cultos aos deuses que morriam e levantavam na Palestina do primeiro século. Para judeus, a ressurreição para a glória e imortalidade não aconteceria até a ressurreição geral de todos os mortos no fim do mundo. É inimaginável pensar que os discípulos originais teriam, de repente e sinceramente, começado a acreditar que Jesus de Nazaré foi levantado dos mortos só porque eles teriam escutado mitos pagãos sobre deuses sazonais que morrem e levantam.
Mas, em um certo sentido, isso é irrelevante para sua pergunta principal, Kevin. Como você indicou, as pessoas com quem você está falando são insensíveis ao academicismo. Quando você apontou a eles a besteira dos supostos paralelos, foi acusado de “trabalhar duro demais para salvar sua religião.” Esta é uma situação que não tem vitória para você. Então estou inclinado a dizer que você não deveria “tentar refutar cada uma das similaridades.” Em vez disso acho que uma atitude mais generalizada e de desconsideração da sua parte teria mais efeito.
Quando eles disserem que crenças cristãs sobre Jesus são derivados da mitologia pagã, eu acho que você deveria rir. Depois olhe para eles com olhos arregalados e com um sorriso irônico diga, “Você realmente acredita nisso?” Aja como se você acabasse de encontrar alguém que acredita na terra plana ou na conspiração de Roswell. Você poderia dizer algo como, “Cara, aquelas velhas teorias morreram há mais de cem anos! De onde você está tirando isso?” Diga que isso é simplesmente lixo sensacionalista, não academicismo sério. Se eles persistirem, então peça para eles lhe mostrarem as próprias passagens narrando o suposto paralelo. São eles que estão nadando contra o consenso acadêmico, então faça-os trabalhar duro para salvar sua religião. Acho que você verá que eles nunca nem mesmo leram as fontes primárias.
Se eles em algum momento citarem a passagem da fonte primária, eu acho que você ficaria surpreso com o que verá. Por exemplo, em meu debate sobre a ressurreição com Robert Price, ele alegou que os milagres de cura de Jesus vieram de histórias de cura mitológicas como aqueles de Esculápio. Eu insisti que ele nos lesse a passagem da fonte primária mostrando o suposto paralelo. Quando ele o fez, o conto que ele produziu não se assemelhava em nada às histórias de curas milagrosas de Jesus nos Evangelhos! Foi a melhor prova que as histórias não estavam genealogicamente relacionadas.
Lembre-se: qualquer um pressionando uma objeção tem o ônus da prova para a sustentar. Ele precisa mostrar que as narrativas são paralelas e, além do mais, que elas estão causalmente conectadas. Insista que eles têm que sustentar este ônus se querem que você leve suas objeções a sério.
- William Lane Craig