#58 Jesus, o Filho de Deus
July 12, 2012Olá, Dr. Craig!
Antes de tudo, gostaria de me apresentar. Sou basicamente do Paquistão e tem sido um encantamento assistir aos seus debates com intelectuais cujas crenças são contrárias à sua. Estou literalmente emocionado com o seu padrão de epistemologia, raciocínio e conhecimento. A boa notícia é que abracei a Cristo Jesus e estou tentando da melhor maneira que me é possível andar nele dia após dia.
Vi seu debate com o erudito muçulmano, a saber, Dr. Badawi, e vi-o replicando que a principal palavra cristã, i.e., “Trindade”, não está registrada na Bíblia. Mas esse é um argumento arbitrário da parte do Dr. Badawi, pois é do conhecimento dele que a palavra “Tawheed” — que é a palavra principal ao conceito de Deus no islã, e um dos cinco pilares sobre os quais se ergue a religião islâmica, também NÃO EXISTE no Alcorão. Mas essa condição torna a palavra inaceitável para os muçulmanos? Não. Da mesma maneira, se o muçulmano contesta o conceito de Trindade só porque não está escrito pelo nome, literalmente, na Bíblia, então, o muçulmano tem de abandonar e revogar o conceito de Tawheed, mesmo literalmente, uma vez que não existe no Alcorão, da mesma maneira que Trindade não existe na Bíblia.
Como de costume, o senhor formulou seus argumentos de modo muito convincente, coerente e eloquente, e o Dr. Badawi não pôde abordar aquelas questões. Isso foi bastante evidente.
Minha pergunta ao senhor é: “Na Bíblia, da mesma maneira que outras pessoas justas, Jesus é chamado de Filho de Deus. Assim, o que torna Jesus diferente dos outros quando se trata do merecimento da filiação a Deus?”.
M.
Pakistan
Dr. Craig responde
A
Estou emocionado porque você veio a crer em Cristo Jesus como seu Salvador e Senhor, M.! (Abreviei seu nome por precaução, caso você ainda esteja no Paquistão). Você está certo quando afirma que a validade de um conceito teológico não depende nunca do vocabulário usado para expressá-lo. A questão que você levanta é importante e interessante e tratei dela na terceira edição de meu livro Reasonable Faith [Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã, Vida Nova, 2012]. Aqui, vou recorrer a essa discussão ao responder à sua questão.
Como mencionei no debate com Dr. Badawi, temos fundamentos históricos consistentes para achar que Jesus entendia que era e afirmava ser o Filho de Deus. Primeiro, a parábola de Jesus sobre os “agricultores maus” (Mc 12.1-9) conta-nos que ele via a si mesmo como Filho único de Deus, diferente de todos os profetas, último mensageiro de Deus e, até mesmo, herdeiro da própria Jerusalém. Observe que não é possível descartar a figura do filho na parábola, considerando-a um acréscimo inautêntico posterior, pois assim faltariam todo clímax e razão. Além disso, a singularidade do filho não é apenas declarada explicitamente, mas é deduzida inerentemente pela maquinação feita para assassinar o herdeiro, a fim de reclamarem a posse da vinha. Essa parábola, portanto, nos revela que o Jesus histórico cria e ensinava que era o único Filho de Deus.
Segundo, o autoconceito de Jesus como Filho de Deus expressa-se explicitamente em Mateus 11.27 (cf. Lucas 10.22): “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Aqui, Jesus reivindica ser o exclusivo Filho de Deus e a única revelação de Deus Pai à humanidade. Esse versículo nos diz que Jesus considerava a si mesmo como Filho de Deus em um sentido absoluto e único e como alguém investido com a autoridade exclusiva para revelar seu Deus e Pai aos homens.
Finalmente, o que Jesus diz sobre a data da consumação dos tempos: “Contudo, quanto ao dia e à hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu nem o Filho, mas somente o Pai” (Mc 13.32) fala mais uma vez do Filho em termos que implicam singularidade.
Com base nessas três manifestações de Jesus, temos forte evidência de que ele se considerava o único Filho de Deus. É verdade que havia referências aos reis judeus como filhos de Deus (2Sm 7.14; 1Cr 17.13; 22.10; Sl 2.6,7; 89.26,27), e na literatura sapiencial o justo podia ser caracterizado como filho de Deus, como tendo Deus como seu pai (Sabedoria de Salomão 2.13,16,18; 5.5; Eclesiástico 4.10; 51.10). Mas o uso genérico dessa expressão é irrelevante para a reivindicação de Jesus à Filiação divina, em razão da singularidade e exclusividade da sua alegação. Jesus se considerava Filho de Deus em um sentido singular que o punha à parte até mesmo dos profetas que vieram antes dele.
Mas que sentido era esse? Não devemos concluir com demasiada precipitação que o título era uma reivindicação implícita de divindade. Pode ser que Jesus se considerasse Filho único de Deus no sentido de que era o Messias. A obra pseudepigráfica judaica 4Esdras 7.28-29 refere-se ao Messias como filho de Deus, mas como um mortal. Os pergaminhos do mar Morto mostram também que o Messias era considerado filho de Deus (4Q174; 4Q246; 1QSa 2.11-12). A singularidade da Filiação de Jesus poderia ser uma função da singularidade do Messias.
Por outro lado, deve-se dizer com toda honestidade que esses textos judaicos não chegam nem perto do tipo de alegação absoluta e exclusiva de Jesus de Nazaré nas citações supramencionadas. Nos textos do mar Morto, não há nada para sugerir que o Messias seria filho único de Deus. Ser o Messias poria Jesus à parte de todos os profetas que o antecederam e torná-lo-ia o herdeiro de Israel, como se reivindica na parábola dos lavradores maus; nada obstante, ser o Messias, não lhe daria conhecimento exclusivo do Pai e importância revelacional absoluta, como se reivindica em Mateus 11.27. Além disso, a afirmação em Marcos 13.32 não apenas revela o sentido de filiação singular de Jesus, como também nos apresenta uma escala de posições ascendentes de homens, a anjos e ao Filho de Deus. A consciência que Jesus tinha de ser o Filho de Deus envolve um sentido de proximidade com o Pai que transcende o de qualquer homem mortal (como o de rei ou de profeta) ou de qualquer ser angelical.
Concepção tão exaltada do Filho de Deus não é estranha ao judaísmo do primeiro século. O próprio Novo Testamento testemunha desse fato (Cl 1.13-20; Hb 1.1-12). Em 4Esdras 13, Esdras tem a visão de um homem, que surge do mar, o qual é identificado por Deus como “meu Filho (13.32,37) e que segue adiante para subjugar as nações. Esdras pergunta:
“Ó soberano Senhor, explica-me isto: Por que foi que eu vi o homem saindo do coração do mar?”.
Ele disse-me: “Da mesma maneira que ninguém é capaz de explorar nem de conhecer o que há nas profundezas do mar, assim, na terra, ninguém é capaz de ver meu Filho nem aqueles que estão com ele, exceto no tempo do seu dia” (4Esdras 13.51-52; cf. 13.26).
O caso de não haver no momento outras pessoas com o Filho antes de seu aparecimento terreno sugere que o Filho é uma personagem celestial preexistente. Condição que fica muito clara em 14.9, quando se diz a Esdras que a sua vida está para acabar e que ele estará com o Filho de Deus até que este seja revelado no final dos tempos: “Tu serás tomado de entre os homens, até que os tempos terminem”. É curioso que se faz diferenciação entre o Filho preexistente e os seres humanos justos mortos, como Esdras, que estão com ele. O Filho é claramente posto à parte como personagem sobrenatural.
Além disso, como mostro em meu livro Reasonable Faith [Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã, Vida Nova, 2012], o próprio título “Messias” era também uma designação capaz de estar carregada com conotações de divindade. Títulos como “o Filho de Deus” e “o Messias” eram polivalentes e, portanto, inerentemente ambíguos quando fora de contexto. Para se entender o sentido que Jesus infundiu em tais autodescrições, devemos observar seu contexto de vida e de proclamação totais, pois, ao fazê-lo, torna-se claro que ele estava reivindicando condição super-humana.
- William Lane Craig