#59 Asseidade, ficcionalismo e valores morais
July 12, 2012Tenho lido ultimamente parte do seu trabalho a respeito da asseidade de Deus, e quanto mais leio sobre o tópico e assuntos correlatos mais me convenço de que sou um ficcionalista. Seja como for, minhas duas perguntas ao senhor são:
1. O que são valores morais de acordo com o ficcionalismo? É possível ao ficcionalista aderir à moralidade objetiva sem ter de ser um teórico da ordem [divina]? Se não, então como o ficcionalista pode ser responsável pelas ordens arbitrárias da parte de Deus? (e.g., torturar criancinhas está certo se Deus ordena que seja assim)?
2. Minha segunda pergunta: podemos interpretar João 1.3 com uma restrição quantificadora. Ou seja, podemos interpretar João afirmando algo como: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele [exceto para os objetos abstratos], e, sem ele, nada do que foi feito existiria”. Por que ou por que não?
Grato pelo seu tempo.
Em Cristo,
Omar
United States
Dr. Craig responde
A
São perguntas excelentes, Omar, que me confrontaram durante meu estudo sobre a asseidade (autoexistência) divina. Para os leitores a quem faltam seus conhecimentos, permita-me dizer que aqui o problema é que muitos filósofos, normalmente denominados de platônicos, entendem que além de objetos concretos como mesas, pessoas, estrelas, existem objetos abstratos como números, propriedades e proposições. O problema é que muitos (embora, curiosamente, não todos — veja a pergunta número 9 do arquivo) objetos abstratos existem necessariamente e não foram criados por Deus, e muitos são o que podemos denominar de “incriáveis”, quer dizer, não podem ser criados, pois para serem criados já deveriam existir, terminando-se assim numa circularidade viciosa (vide o capítulo 5 de meu livro com Paul Copan, Creation out of Nothing, [Criação a partir do nada]). O ficcionalista resolve o problema negando que os objetos abstratos existem realmente — não passam de ficções úteis (como a média da família americana com 2,5 filhos).
Com base nesse mínimo contexto, consideremos primeiro a pergunta (2). A motivação por trás dela é, acho eu, questionar se na perspectiva bíblica há de fato algum problema em sustentar que existem objetos abstratos não criados, coisas outras que existam a se (por si sós). Parece-me que, teologicamente, o platonismo é tão problemático quanto ser profundamente anticristão. O platonismo pressupõe um número incompreensível de seres, objetos reais no mundo dissociado da mente, os quais existem de modo independente de Deus, de sorte que Deus se converte em só mais um ser entre tantos. Dessa maneira, adota um pluralismo metafísico que rouba de Deus suas supremacia e primazia como Criador.
Assim, mesmo que João não pensasse conscientemente em objetos abstratos quando escreveu “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele (i.e., o mundo)”, tenho a convicção de que, se algum adepto do platonismo se sentasse com ele e lhe explicasse com exatidão que números, conjuntos e funções existem na ontologia platônica, e ainda lhe inteirasse do aspecto metafísico das proposições e propriedades de acordo com o platonismo, até que o apóstolo tivesse perfeito entendimento da ontologia platônica, então, João teria dito: “Se essas coisas existem de modo tão consistente quanto os objetos concretos, então, com certeza, também foram criadas pelo Verbo!”. Não faria sentido afirmar que o Verbo criou a esfera de objetos concretos infinitesimalmente minúsculos e ao mesmo tempo permitir que a maioria dos seres exista de forma independente de Deus. Do ponto de vista teológico, o que há de bom em declarar a criação de todos os objetos concretos pelo Verbo, quando os tais não passam de trivialidades em comparação com a infinidade de infinitos seres não criados com os quais o próprio Deus se acha confrontado? Admitir esse tipo de ontologia seria roubar o prólogo de João de sua força teológica.
Além disso (e é mesmo interessante!), é admissível que na realidade João tivesse de fato esses objetos abstratos em mente, quando escreveu esse prólogo enaltecendo a Cristo como o Logos (Verbo) divino. Afinal, o Logos não é uma ideia original de João. O personagem do Logos criativo de Deus também se encontra nos escritos do seu contemporâneo, o filósofo judeu Filo de Alexandria (c. 20 a.C.-50 d.C.). Em seu texto Da Criação do Cosmos Segundo Moisés, Filo explica que, no primeiro dia da criação, Deus, à semelhança de um arquiteto, traçou os limites de um cosmos inteligente para usar como o modelo ideal para o cosmos sensível (16). Filo adverte que “Não é permissível declarar ou supor que o cosmos composto de Ideias existe em algum lugar” (17). Portanto,
Assim como a cidade demarcada de antemão pelo arquiteto não tinha localização exterior, mas fora gravada na alma do artífice, também o cosmos composto de ideias não teria outro lugar senão o Logos divino, que lhes outorga a disposição ordenada que têm (20).
Resumindo,
Se você quisesse usar uma formulação despojada até só ficarem os fundamentos, diria que o cosmos inteligente não é senão o Logos de Deus, envolvido no processo de feitura do cosmos. Porque a cidade inteligente, também, não é senão o raciocínio do arquiteto, enquanto planeja o fundamento da cidade. Essa é a doutrina de Moisés, não a minha (24-25).
Na filosofia da religião elaborada por Filo vemos a confluência do judaísmo com a filosofia platônica grega. O reino das ideias de Platão, o que denominaríamos hoje de objetos abstratos, não é um âmbito fora de Deus, mas foi transferido para a mente de Deus, onde serve como arquétipo da criação pelo Logos divino.
O prólogo do Evangelho de João exala essa mesma atmosfera de Platonismo Médio, como é chamado, e não é totalmente inadmissível pensar que João imagina que o reino dos objetos abstratos existe na mente do Logos. O que seria adotar o conceptualismo, não o platonismo. No conceptualismo, os objetos abstratos existem como ideia na mente de Deus, não como entidades que existem de forma independente.
Agora, quanto à sua primeira pergunta, há partidários do ficcionalismo que defendem uma “teoria de erro” da ética: as declarações morais são todas falsas, mas, apesar disso, úteis e importantes para as relações humanas. Já o teísta ratificará as verdades morais, mas não adotará nenhum tipo de platonismo como fundamento da verdade delas. Pois o próprio Deus, que é um objeto concreto, é o paradigma da bondade moral — assim como no passado a barra do metro depositada em Paris servia de paradigma para um metro — e não nenhum objeto matemático abstrato. A teoria da ordem divina da ética, adotada por mim, adequa-se, portanto, perfeitamente ao antiplatonismo. De fato, ela foi elaborada, em parte, exatamente para evitar o chifre platônico do dilema de Êutifron, criado por Platão (Arquivo, perguntas #44 e #46).
É possível sustentarmos a moralidade objetiva sem que sejamos teóricos da ordem divina? Talvez, se pudermos encontrar alguma outra forma de fundamentar valores e deveres morais em Deus, digamos, pela imaginação de que a lei moral natural existe na mente de Deus. O que não podemos fazer é adotar alguma versão platônica de valores morais.
Sua última pergunta — se a moralidade objetiva carece da teoria da ordem divina, então, como o ficcionalista pode ser responsável pelas ordens arbitrárias de Deus? Esse é exatamente o outro chifre do dilema de Êutifron, respondido nas questões acima. As ordens de Deus são reflexos da sua natureza, por isso Deus não pode decretar ordens arbitrárias. Logo, o Bem não é algum objeto abstrato que existe à parte de Deus, antes o próprio Deus é o Bem e a fonte de nossos deveres morais através dos mandamentos que ele nos dá.
- William Lane Craig