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#56 Liberdade e aptidão para escolher o mal

July 12, 2012
Q

Um conhecido meu perguntou-me recentemente por que é necessário poder escolher o mal para que tenhamos o livre-arbítrio, ao passo que não é necessário Deus poder escolher o mal para que ele tenha livre-arbítrio. Ele acha que não há resposta para essa pergunta, e assim identificou uma inconsistência lógica dentro do teísmo cristão que é contrária à sua veracidade.

Respondi desafiando o seu entendimento de liberdade, como também a sua suposição de que a genuína liberdade de vontade necessitará da aptidão para escolher o mal. Com relação à última, escrevi:

A sua objeção assume que um requisito necessário para a liberdade da vontade é a aptidão para escolher o mal, bem como o bem. Não vejo razão para aceitar essa hipótese como verdadeira, não apenas para Deus, mas também para os seres humanos. Embora seja mesmo verdadeiro que a liberdade da nossa vontade inclui a nossa aptidão para escolher o mal, a suposição não é necessariamente verdadeira. Para que a vontade seja livre, exige-se apenas que nossas escolhas não sejam determinadas por fatores casuais alheios a nossas capacidades volitivas. É possível ser livre, mesmo só sendo capaz de escolher o bem e não o mal.

William Lane Craig apresenta um perspicaz experimento mental para demonstrar que não é preciso ser capaz de escolher B para fazer da opção por A uma escolha livre e significativa:

“Imagine um homem com eletrodos implantados secretamente no cérebro, a quem apresentam a possibilidade de escolher A ou B [para nossos propósitos, vamos atribuir o bem para A e o mal para B]. Os eletrodos estão inativos, desde que ele escolha A, mas se o indivíduo quiser escolher B, logo os eletrodos serão ligados e o forçarão a escolher A. Se os eletrodos entram em ação, fazendo-o escolher A, a sua opção por A é obviamente uma escolha não livre. Mas suponha que o homem quer realmente fazer A e o escolhe por sua própria volição. Nesse caso, a sua escolha de A é totalmente livre, mesmo que ele seja literalmente incapaz de escolher B, já que os eletrodos não são acionados de modo nenhum, nem interferem na sua escolha de A. O que torna a sua escolha livre é a ausência de quaisquer fatores causalmente determinantes da sua escolha de A. Essa concepção de liberdade libertária tem a vantagem de explicar como a escolha de Deus pelo bem é livre, mesmo lhe sendo impossível escolher o pecado, ou seja, a sua escolha não é determinada por restrições causais. Dessa forma, a liberdade libertária da vontade não requer a capacidade de optar por outra escolha diferente da preferida pela pessoa”.

A limitação na gama de escolhas não é o mesmo que não ter escolha nenhuma. Se A, B e C são escolhas boas, e D, E e F escolhas más, a incapacidade de alguém escolher D, E ou F não nega o fato de ele poder escolher A, B ou C. Quando vou à mercearia comprar sorvete, eles podem ter somente 15 dos 100 sabores de sorvetes produzidos. O fato de eu não poder escolher 85 desses sabores não nega o fato de que posso escolher qualquer uma das 15 opções à minha disposição. De modo semelhante, a falta de capacidade de Deus para escolher o mal não significa que lhe falta livre-arbítrio. Na melhor hipótese, a sua gama de livres escolhas é mais restritiva do que a nossa.

Embora me pareça certo que a liberdade humana não requer a aptidão para escolher o mal, isso conflita com a teodiceia do livre-arbítrio (que sempre considerei persuasiva). A teodiceia do livre-arbítrio alega que, para Deus, é logicamente impossível criar um mundo no qual os seres humanos desfrutem de livre-arbítrio, mas não são capazes de usar essa vontade para escolher o mal. Quanto a isso, a capacidade para escolher o mal não é só factualmente verdadeira, mas necessariamente verdadeira. Assim, como argumentei acima, parece-me que Deus poderia nos ter feito sem a capacidade para escolher o mal.

Enfrento um dilema. No processo de responder à objeção de meu amigo, eu “irresolvi” o problema do mal. Além disso, não consigo explicar por que, já que Deus poderia nos ter criado livres sem a capacidade para escolher o mal, ele não fez assim (especialmente pelo fato de que somos criados à sua imagem, e ele não é capaz de escolher o mal). É por que somos finitos? Se for, uma vez que somos necessariamente finitos, isso significa que a nossa capacidade para escolher o mal também é necessária. Embora ponha a salvo a teodiceia do livre-arbítrio, a conclusão conflita com o meu argumento de que a capacidade para escolher o mal não é necessária à genuína liberdade da vontade.

Onde está o problema? Em meu argumento de que a liberdade humana não carece da aptidão para escolher o mal? Em meu entendimento da teodiceia do livre-arbítrio? Em ambos? Agradeceria seu auxílio.

Jason

United States

Dr. Craig responde


A

Acho que posso solucionar seu dilema, Jason! Mas antes me deixe reconhecer o belo trabalho que você fez ao responder à pergunta de seu amigo. Quero fazer apenas um pequeno ajuste.

Deixe-me dizer também que a ilustração apresentada não é originalmente minha, mas é fruto da mente do filósofo Harry Frankfurt, cuja obra gerou muita discussão sobre ilustrações desse tipo. Observe, também, quão proveitosa é a análise de Frankfurt sobre a liberdade libertária para o entendimento da livre resistência de Cristo à tentação. Como Segunda Pessoa da Trindade, Cristo era impecável (i.e., incapaz de pecar). Não obstante, ele resistiu livremente à tentação. Como isso é possível? Porque no seu estado de humilhação (seu estado encarnado antes da ressurreição) ele experimentou limites cognitivos consistentes com uma consciência genuinamente humana e, por isso, sentiu a sedução da tentação; à qual resistiu livremente, pois, por sua própria capacidade, resistiu-a sem influência causal externa.

Agora, de que modo isso é compatível com a reivindicação da defesa do livre-arbítrio de que “para Deus é logicamente impossível criar um mundo no qual os seres humanos desfrutem de livre-arbítrio, mas não são capazes de usar essa vontade para escolher o mal”? Observe que a defesa do livre-arbítrio não implica tal alegação. É consistente com a defesa do livre-arbítrio que, embora haja mundos possíveis como os descritos por você, eles tenham deficiências dominantes que os tornam menos preferíveis a mundos em que os seres humanos possam escolher tanto o bem como o mal. O ateu deve mostrar que, necessariamente, Deus preferiria um mundo sem o mal (seja qual for a razão) a qualquer mundo com o mal, se provar que Deus e o mal são logicamente incompatíveis.

Todavia, acho duvidoso que Deus criaria uma criatura com a capacidade de livremente escolher somente o bem. Essa capacidade parece pertencer adequadamente apenas a uma natureza que tem a propriedade da perfeição moral, propriedade que pertence somente a Deus. Um ser livre, cuja natureza se caracteriza por menos do que a perfeição moral (N.B., perfeição moral é diferente de mera inocência!), carece da faculdade para escolher infalivelmente o bem. Para Deus, criar um ser que tem a capacidade de escolher infalivelmente o bem seria, com efeito, criar outro Deus, o que é logicamente impossível, uma vez que Deus é essencialmente incausado; além de que, obviamente, onipotência não importa em aptidão para realizar o que é logicamente impossível.

Isso não quer dizer que seja logicamente impossível que os seres humanos, na realidade, calhem sempre de escolher o bem e jamais, o pecado. Esse é um mundo logicamente possível. Antes, quer dizer que os seres humanos têm a capacidade inerente de escolher o mal, ou melhor, falta-lhes a capacidade inerente para escolherem infalivelmente o bem. Mesmo que não pequem, podem pecar.

Em resposta a essa posição, você expressa a preocupação: “uma vez que somos necessariamente finitos, isso significa que a nossa capacidade para escolher o mal também é necessária. Embora ponha a salvo a teodiceia do livre-arbítrio, a conclusão conflita com o meu argumento de que a capacidade para escolher o mal não é necessária à genuína liberdade da vontade”. Não, a nossa capacidade para escolher o mal é necessária! Você respondeu ao seu amigo “desafiando o seu entendimento de liberdade, como também a sua suposição de que a genuína liberdade de vontade necessitará da capacidade para escolher o mal”. Ambos os desafios permanecem. Por isso, você só precisa ajustar as frases em seu parágrafo de abertura nas quais afirma que os seres humanos poderiam ter a capacidade para só escolher o bem. Você respondeu à objeção de seu amigo ao mostrar que a liberdade da vontade em si mesma não necessita de liberdade para praticar o mal e ao explicar por que, no caso de pessoas finitas como os seres humanos, a liberdade para fazer escolhas morais importantes implica necessariamente a aptidão para escolher tanto o mal como o bem.

- William Lane Craig