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#55 Os condenados no inferno acumularão mais castigos?

July 12, 2012
Q

Estou preocupado com algo que li na base de dados de seus artigos. Encontrei uma explicação sua sobre o pecado na vida após a morte e sobre como isso, para o senhor, implica algo tão singular, em razão do abismo entre a vida e a morte e com base na finalidade do juízo, conforme expresso na herança judaico-cristã.

Em seu artigo “Como é possível Cristo ser o único caminho para Deus?”, o senhor menciona que os condenados ao inferno continuam a pecar nesse lugar. Essa ideia parece estar errada em três níveis:

1. O pecado é notoriamente uma predisposição terrena, sem continuação na eternidade. O termo grego “hamartia” significa “errar o alvo”. Portanto, como cristão, se cremos que o “alvo” é Deus ou a perfeita retidão, não seria isso algo alcançado, ou totalmente não alcançado, na vida por vir? Parece que, se deixarmos em aberto a possibilidade de que alguém continua “errando o alvo”, então devemos também assumir que a sua antítese é que os salvos, de algum modo, continuam “acertando o alvo”, quer isso seja Deus ou a perfeita retidão. Ora, conquanto eu esteja ciente que continuaremos a ter o nosso conhecimento de Deus por toda a eternidade (conforme menciona Paulo), não vejo isso como algo contrário àqueles que estão condenados. Afinal, tampouco parece que o conhecimento dos perdidos a respeito de Deus não desaparece nem diminui.

2. Por analogia, a ideia de alguém continuar a pecar na eternidade parece inadequada. Uma vez julgado e sentenciado pelo seu crime, o malfeitor é lançado na prisão. Digamos que ele pegue prisão perpétua sem direito a liberdade condicional. Ora, conquanto na prisão ele possa praticar atos abomináveis, digamos que ele mate outro homem numa briga, já que ele perdeu toda a esperança, podemos realmente dizer que isso pese de algum modo no juízo pelo qual ele já passou? Há casos em que essa pessoa pode levar mais 100 anos, mas todos sabemos que isso é mera formalidade. Ele não deixará a prisão. Não há nenhuma esperança real de que ele obtenha liberdade.

3. A ideia de continuar em pecado não é completamente endossada pela Escritura. A real inconsistência que acho nesse exemplo é a possibilidade que ele deixa aberta. Ou seja, se o pecado for aquilo pelo qual alguém é condenado na eternidade, sendo a rejeição a Cristo, por parte dos condenados, a soma total dos pecados individuais, a possibilidade de alguém (e não todos os perdidos) poder continuar a pecar no inferno implica a possibilidade de que alguém pode também ter uma mudança de coração. E acho que podemos ver a evidência disso no exemplo de Lázaro conversando com Abraão. (*)Em razão desse exemplo na Escritura, parece que nem todos que estão no inferno continuam pecando. Alguns parecem genuinamente perturbados pelas decisões terrenas que tomaram e querem sair. E, quando Lázaro fala com Abraão, este não o repreende por não aceitar a revelação de Deus na natureza ou por meio da lei. Antes, apenas lhe diz que há um abismo entre eles. Assim, afirmar que o coração de Lázaro ainda se encontra na mesma condição [de perdido], que está apenas tentando escapar dos sofrimentos do inferno, é uma inferência que o diálogo não suporta.

Assim, com base nessas três objeções, fico imaginando quão adequada é a ideia de um lugar de tormento eterno?

Na graça Dele,

Trey

United States

Dr. Craig responde


A

Obrigado pela pergunta profunda, Trey! É importante definirmos primeiro o contexto da minha proposta. Impelido não só pelos incrédulos, mas também pelos aniquilacionistas, procuro tratar da objeção à doutrina do inferno, segundo a qual o inferno é incompatível com a justiça de Deus porque o castigo não é proporcional ao crime. Alega-se que mesmo pecados como assassinato e crueldade não merecem o castigo eterno, uma vez que tais pecados são de significado finito, ao passo que o castigo eterno é infinito em rigor.

Então, minha resposta a essa objeção é dupla, tendo a forma “Mesmo se … , mas de fato …”. Quer dizer, argumento primeiro ex concessionis, admitindo a suposição levantada pelo oponente, a de que nenhum pecado cometido por seres humanos merece castigo eterno, e procurando mostrar que, mesmo nessa suposição, a objeção não vigora. Em seguida, argumento que não precisamos levantar a suposição pressuposta pelo oponente e proponho uma solução bem diferente para o problema a qual, de fato, acho preferível. Portanto, você não deve avaliar a primeira parte da minha resposta fora do contexto, como se eu não apresentasse a segunda parte da resposta.

Todavia, quanto à primeira parte de minha resposta, o que me deixou impressionado à medida que pensava sobre o problema é que a conclusão não é essa, pois cada pecado que cometemos merece apenas um castigo finito, logo ninguém merece punição eterna. Pois se alguém comete uma quantidade infinita de pecados, a soma de todos os pecados mereceria realmente punição eterna. É óbvio que ninguém comete um número infinito de pecados na sua vida terrena. Mas ocorreu-me que, na vida além, seria possível cometer, ao menos potencialmente, infinitamente mais pecados, basta que se continue pecando para sempre. E quando se pensa nos condenados que estão no inferno, não é jamais implausível imaginar que eles, de fato, continuam a pecar. Em vez de se arrependerem, tornam-se ainda mais implacáveis no ódio e na rejeição que sentem contra Deus.

Fico impressionado que, no livro de Apocalipse quando os cálices da ira de Deus são derramados em juízo sobre a humanidade, aqueles que são o alvo desse juízo não se arrependem, antes amaldiçoam a Deus ainda mais: “Os homens foram queimados com grande calor e blasfemaram contra o nome de Deus, que tem poder sobre essas pragas, mas não se arrependeram para glorificá-lo. (...) os homens mordiam a própria língua. Por causa de sua agonia e de suas feridas, blasfemaram contra o Deus do céu e não se arrependeram de suas obras. (...) E do céu caiu sobre os homens um pesado granizo; as pedras pesavam quase um talento; e os homens blasfemaram contra Deus por causa da praga de granizo, pois sua praga era destruidora” (Ap 16.8-11,21). Seja nesta vida ou na próxima, odiar e rejeitar a Deus é pecado, pois estamos moralmente obrigados a adorar e amar a Deus. O pecado não pode ficar impune, uma vez que Deus é perfeitamente justo, e assim os pecados cometidos na vida além também devem ser castigados. Portanto, mesmo se admitirmos que cada pecado merece somente punição finita, o inferno é incessantemente autoperpetuador.

Consideremos, então, as suas objeções. Primeiro, a possibilidade e a prática do pecado continuam na vida além? Bem, por que não? Os homens estão moralmente obrigados a adorar a Deus, e deixar de adorá-lo é, como você afirma, errar o alvo. Com certeza, os condenados não cumprem a obrigação moral que têm para com Deus. Você diz: “então devemos também assumir que a sua antítese é que os salvos de algum modo continuam ‘acertando o alvo’, quer seja Deus ou a perfeita retidão”. Bem, certamente devemos afirmar que os bem-aventurados não pecam mais e, nesse sentido, continuam a acertar o alvo, embora não precisemos achar que eles alcançam perfeição moral, propriedade que plausivelmente pertence só a Deus. Longe de falhar ou diminuir, devo entender que o conhecimento dos bem-aventurados acerca de Deus crescerá sem limites. Portanto, não vejo aqui nenhum problema. (Veja também no arquivo a Pergunta 47 sobre o estado dos bem-aventurados).

Sua segunda objeção baseia-se na analogia de alguém sentenciado à prisão. Ora, pouco sei a respeito de jurisprudência criminal, mas realmente duvido que, se alguém assassinar outro prisioneiro (ou um guarda!), escapa impune aos olhos da lei. É certo que será processado e considerado responsável por tal crime — pelo menos isso, é o que espero! Você diz que, se ele já recebeu uma sentença rigorosa, então o acréscimo de mais 100 é mera formalidade. Ah, mas você está se esquecendo que estamos considerando a suposição levantada pelo oponente de que nossos pecados merecem apenas um castigo limitado. A analogia apropriada seria a de alguém que cumpre uma condenação breve, mas continua sempre cometendo pequenos crimes na prisão, prolongando assim a sua sentença. (A propósito, analogias são uma forma pobre de argumentação, pois não conseguem provar nada; servem apenas para ilustrar. Portanto, aconselho-o a evitar esse tipo de argumentação em apologética).

A sua objeção final baseia-se na parábola de Jesus sobre Lázaro e o homem rico. Certamente, o rico no Hades mostra um coração arrependido. O problema aqui, Trey, é que é um equívoco espremer uma parábola para extrair doutrina cristã. Esse é um bem conhecido princípio de hermenêutica (interpretação literária). As parábolas, geralmente, têm a intenção de ilustrar uma ideia central, nesse caso a de que, se o povo não der ouvidos a Moisés e os profetas, também não será sensibilizado por sinais milagrosos, além disso, é má exegese extrair doutrina dos detalhes circunstanciais de parábolas. O homem rico na parábola é quase uma personagem de desenho animado e seria um erro grave usar a situação dele como fundamento para uma teologia dos condenados que estão no inferno.

Nada obstante, concordo plenamente com você que não devemos considerar a rejeição de alguém a Cristo como a soma total de seus pecados individuais. Fico, também, incomodado com ideia de que os condenados poderiam escapar do inferno mediante o arrependimento ou pelo cumprimento do tempo de sua condenação (isso cheira a purgatório). É por isso que ofereci a segunda e melhor solução: a rejeição a Cristo como Senhor e Salvador, por ser a rejeição ao próprio Deus, é pecado de gravidade e proporção infinitas e, portanto, merece plausivelmente punição eterna. Como visto, as pessoas são lançadas no inferno, não tanto por causa de homicídio, roubo, adultério, mas por rejeitarem a Deus. Ademais, se Deus é detentor de conhecimento médio, então podemos afirmar que ele permite que os condenados ao inferno passem pela vida terrena uma única vez, já que ele sabe que a rejeição deles contra Deus é irrevogável. Assim, os condenados ao inferno são, portanto, responsáveis pelo próprio destino e não podem impugnar a justiça de Deus.

 

(*)notação Tradutor: O autor da carta inverte os papéis dos personagens da narrativa de Jesus, denominando o homem rico de Lázaro. N. do T.

- William Lane Craig