#249 Má Compreensão do Argumento Ontológico
January 14, 2015Um bom dia do Nepal. Precisamos muito de apologética no Nepal, por isso, mantenha-nos em suas orações. Eu trabalho na tradução de material de apologética na língua do Nepal, onde o secularismo e o hinduísmo são bastante fortes. Obrigado por seu trabalho, Dr. Craig. A minha pergunta lida com o argumento ontológico. Eu não o entendo totalmente. Você pode ajudar a esclarecer? Recentemente perguntei a um filósofo aqui é o intercâmbio (o seguinte diálogo):
A minha pergunta para o professor:
pergunta sobre o pacote de leitura em nossas fontes sobre Descartes e o argumento ontológico. A maioria dos não-filósofos parece pensar que o argumento não é crível, enquanto a maioria dos filósofos sim - você poderia me ajudar, oferecendo suas próprias ideias para o seu mérito? Por exemplo - Alvin Plantiga parece ter desenvolvido o seguinte:
A versão abaixo é de Alvin Plantinga, um dos filósofos premier da América. Ela é formulada em termos de semântica de mundos possíveis. Para aqueles que não estão familiarizados com a terminologia de mundos possíveis, deixe-me explicar que por "um mundo possível" não significa um planeta ou mesmo um universo, mas sim uma descrição completa da realidade ou uma maneira em que a realidade poderia ser. Dizer que Deus existe em algum mundo possível é só para dizer que há uma possível descrição da realidade que inclui a declaração "Deus existe" como parte dessa descrição.
Agora em sua versão do argumento, Plantinga concebe Deus como um ser que é "maximamente excelente" em todos os mundos possíveis. Plantinga considera que a excelência máxima inclui propriedades como onisciência, onipotência e a perfeição moral. Um ser que tem excelência máxima em todos os mundos possíveis teria o que Plantinga chama de "grandeza máxima". Então, Plantinga argumenta:
1. É possível que um ser de grandeza máxima exista.
2. Se é possível que um ser maximamente grande exista, então um ser maximamente grande existe em algum mundo possível.
3. Se um ser de grandeza máxima existe em algum mundo possível, então ele existe em todos os mundos possíveis.
4. Se um ser de grandeza máxima existe em todos os mundos possíveis, então ele existe no mundo real.
5. Se um ser de grandeza máxima existe no mundo real, então existe um ser de grandeza máxima.
6. Portanto, existe um ser de grandeza máxima.
As premissas (2) - (5) deste argumento são relativamente incontroversas. A maioria dos filósofos concordaria que se a existência de Deus é mesmo possível, então Ele deve existir. A questão principal a ser resolvida no que diz respeito ao argumento ontológico de Plantinga é: que garantia existe de pensar que a premissa chave "É possível que um ser de grandeza máxima exista" seja verdadeira.
A ideia de um ser de grandeza máxima é intuitivamente uma ideia coerente e por isso parece plausível que tal ser poderia existir. Para o argumento ontológico falhar, o conceito de um ser de grandeza máxima tem de ser incoerente, como o conceito de um solteiro casado. Mas o conceito de um ser de grandeza máxima não parece nem remotamente incoerente. Isto fornece alguma garantia prima facie para pensar que é possível que um ser de grandeza máxima existe.
Você concordaria que as premissas 2-5 são relativamente não-controversas? Em outras palavras, se a premissa 1 é "verdade", então você diria que todas as 5 premissas devem, portanto, ser logicamente verdadeiras? Qualquer pensamento/comentário seria muito apreciado.
Professor Messick:
O número 2 não é incontroverso.
Só porque é possível que algo exista, não significa que ele existe ou deve existir. Essencialmente número 2 está afirmando "Se é possível, então em algum lugar deve ser." Não somente isso não é prático, mas não segue nem mesmo logicamente. Coisas possíveis não se traduzem automaticamente em coisas reais. Eu também disputo o item número 3, com o fundamento de que um exemplo em um mundo possível não se traduz automaticamente em todos os mundos possíveis – se este fosse o caso, então todos os mundos possíveis teriam de ser idênticos, e cheios de elementos mutuamente exclusivos. Exceto, é claro, se há algo de especial sobre o "ser de grandeza máxima" que o torna único e diferente de outras coisas, e portanto, a lógica vacila novamente.
Isso remonta a Anselmo para a melhor formulação e ainda mais para trás do que isso. Ele sempre foi problemático.
Lembro-me de um professor meu dizendo uma vez que cada filósofo, mais cedo ou mais tarde, chega à conclusão de que a prova está correta, mas não sabemos como e mais tarde chega à conclusão de que a prova está errada, mas nós não sabemos porquê.
Você diria que ele está basicamente certo, Dr. Craig? Há um monte de apologetas que lutam com o argumento ontológico então qualquer ajuda seria muito apreciada.
Kamal
Nepal
Dr. Craig responde
A
Kamal, receber uma carta de um irmão cristão em um lugar tão longínquo e tão hostil à fé cristã como Nepal fez o meu dia! Portanto, apesar das objeções de seu professor serem baseadas em má-compreensões muito elementares, eu queria compartilhar a sua carta com outros.
Tenho medo de que seu professor esteja em sua maior parte incorreto no que ele diz, Kamal. Seu professor erra ao pensar que o argumento ontológico volta para antes de Anselmo e em pensar que a versão de Anselmo é a melhor versão do argumento. Como Plantinga (assim como Leibniz) explicou, a versão de Anselmo precisa ser reformulada; Além disso, a versão de Plantinga não é suscetível às objeções de seu professor.
Por exemplo, a objeção dele à (2) é baseada em uma aparente falta de familiaridade com a semântica de mundos possíveis. Dizer que alguma entidade existe em um mundo possível é só dizer que essa entidade possivelmente existe. Não entende-se que a entidade realmente existe em algum lugar. Olhe novamente para a minha explicação: "Dizer que Deus existe em algum mundo possível é só dizer que há uma possível descrição da realidade que inclui a declaração ‘Deus existe’ como parte dessa descrição." Somente se essa descrição for verdadeira é que a entidade, neste caso Deus, realmente existiria. Então, (2) é por definição verdadeira.
Mais uma vez, (3) é virtualmente verdadeiro por definição. Um ser de grandeza máxima é aquele que tem, entre outras propriedades, a propriedade de existir necessariamente. Então, se ele existe em um mundo, ele existe em todos eles! Nesse sentido, esse é um ser diferente do que os seres contingentes, os quais existem apenas em alguns mundos possíveis. Um unicórnio, por exemplo, existe em algum mundo possível, mas não em todos eles, pois a sua existência é possível, mas não necessária. Portanto, o seu professor está certo que há algo de especial, não sobre um ser de excelência máxima (que, você vai se lembrar, é definido como sendo um ser que é todo-poderoso, onisciente e todo-bondoso), mas sobre um ser de grandeza máxima, que é definido como um ser que tem excelência máxima em todos os mundos possíveis. Se tal ser existisse em qualquer mundo, isto é, se for possível que tal ser existe, então ele existe em todo mundo possível, incluindo o mundo real.
A lógica não vacila aqui. Tudo depende em você achar que (1) é verdadeira. (2) - (5) são verdadeiras se (1) é verdadeira ou não. Mas se todas as premissas são verdadeiras, a conclusão segue logicamente.
Há uma lição a ser aprendida nisto. Estudantes, com razão, tem respeito por seus professores. Devemos aprender com eles com humildade. Mas o fato é que muitos professores, tanto no mundo anglófono e, especialmente, fora do mundo anglófono, são quase ignorantes quando se trata de Filosofia da Religião. Tenho ficado mortificado pelas refutações simplistas e equivocadas do teísmo e argumentos teístas que os alunos muitas vezes compartilham comigo de suas aulas de Introdução à Filosofia. Você está sendo aconselhado a ser bastante crítico sobre o que seus professores dizem sobre este assunto, especialmente se eles não evidenciam familiaridade com a literatura filosófica e não estão interagindo com outros filósofos no campo que não compartilham suas posições.
- William Lane Craig