#114 Deus é Moralmente Digno de Adoração?
January 14, 2015Em uma de suas respostas para o Eutifron (Pergunta #46), você faz a seguinte declaração:
A infelicidade teológica de afirmar que “Deus poderia por livre vontade escolher ser um ditador cósmico malévolo e nocivo, mas escolheu livremente não ser assim” é que, em tal perspectiva, Deus não é essencialmente bom. Há mundos possíveis nos quais Deus por livre vontade escolhe ser maligno. Você está mesmo disposto a dizer que Deus poderia ter sido perverso? Nesse tipo de mundo, ele não seria digno de adoração. Mas um ser que não é digno de adoração, por definição, não é Deus. Isso não parece fazer sentido; o ateísmo seria verdadeiro nesse mundo? Ou alguém mais seria Deus? Deus, então, teria sido criado por tal Deus?
Eu quero sugerir que para Deus ser digno de adoração, deve ser possível para Deus falhar em ser moralmente virtuoso. Aqui está meu argumento:
1. Para o agente S ser moralmente digno de adoração, S deve ser livre para escolher ser virtuoso.
2. Para S ser livre para escolher ser virtuoso, deve haver um mundo possível em que S falha em ser virtuoso.
3. Deus é um agente moralmente digno de ser adorado.
4. Portanto, existe um mundo possível em que Deus falha em ser virtuoso.
Eu acrescentaria que para Deus ser digno de ser adorado, Deus deve ser moralmente digno de ser adorado; não existe mérito em agir por necessidade já que alguém não poderia fazer de outra forma. Então ser digno de adoração não é uma essência de Deus.
Agora para ser claro, eu acredito que em todos os mundos realizáveis, Deus age moralmente digno de adoração - ele é o paradigma definitivo de santidade transmundial, como alguns tem chamado. Mas mesmo assim, já que Deus não precisa necessariamente agir virtuosamente, ele não pode fundamentar valores morais. Sem algum padrão externo para o bem, ele está apenas agindo arbitrariamente.
Obrigado,
John
United States
Dr. Craig responde
A
Como eu expliquei em resposta a pergunta anterior, John, eu acho que Deus é essencialmente bom e que não faz sentido dizer que um ser que falhou em ser perfeitamente bom poderia ser digno de adoração e portanto ser Deus. É, portanto, incoerente dizer que existe um mundo possível em que Deus não é perfeitamente bom. Você tem que lidar com aquele argumento ou seu (4) constitui um reductio ad absurdum do seu argumento.
Seus comentários finais parecem direcionados em endereçar este problema, mas acho que estão confusos. Você quer afirmar que “em todos os mundos realizáveis, Deus age moralmente digno de adoração - ele é o paradigma definitivo de santidade transmundial.” Mas, John, quando filósofos falam de mundos possíveis, eles estão falando sobre mundos realizáveis. Um mundo possível é um estado máximo das coisas, ou uma descrição completa da realidade, que é realizável. Se em todos os mundos realizáveis, Deus é moralmente bom e o paradigma da virtude, então é, de fato, de forma geral logicamente impossível que Ele aja de forma não virtuosa. Não há um mundo possível em que Ele falhe em ser bom. Portanto, necessariamente, Ele não age de forma virtuosa na sua visão. Longe de diminuir a força do meu argumento, então, você na verdade afirma sua conclusão.
Agora, quanto ao seu argumento, eu acho que duas de suas premissas são falsas. Primeiro, parece-me que a premissa (2) é falsa, tanto filosófica quanto teologicamente. Filosoficamente, sou persuadido por argumentos como os oferecidos por Harry Frankfurt que livre escolha não precisa da habilidade de fazer diferente. Imagine que um cientista louco secretamente programou seu cérebro com eletrodos para que ele pudesse controlar suas escolhas. Suponha que na última eleição presidencial, ele queria que você votasse para Obama e determinou que se você fosse votar para McCain ele ativaria os eletrodos e faria você dar seu voto para Obama. No final das contas, você também queria votar para Obama, então quando você foi para a cabine de votação você marcou sua cédula para Obama, e portanto o cientista nunca ativou os eletrodos. Acho que é claro que você livremente votou para Obama, mesmo que não fosse possível para fazer diferente. O que esta experiência de pensamento sugere é que a essência da livre escolha é a ausência de restrição causal com respeito a suas escolhas; depende de você apenas a escolha.
Agora no caso de Deus, se Deus é essencialmente bom, então não há mundo possível em que ele faça maldade. Mas isso implica que Deus não faz o bem livremente? Não se a análise de Frankfurt está certa. Pois Deus age em completa ausência de qualquer restrição causal sobre Ele. Depende dEle, e dEle apenas a decisão de como Ele age. Ele, portanto, age livremente em fazer o bem. Que Deus está agindo livremente é evidente no fato que Sua vontade não é inclinada necessariamente para qualquer tipo de bem em particular; Ele escolhe fazer o que Ele quiser.
Teologicamente, este relato de liberdade lança luz sobre as tentações de Cristo e sua impecabilidade. Cristo é tido pela doutrina cristão ortodoxa como não meramente sem pecado, mas incapaz de pecar: ele é impecável. Porém ele livremente resistiu tentação. Como isso deve ser entendido? De acordo com o modelo de encarnação que eu defendo (veja Pergunta #112), Cristo tinha uma vida consciente humana normal. Ele, portanto, sentiu a sedução da tentação em todo seu poder. Mas ele reuniu sua força e a resistiu. Eu defendo que ele resistiu a tentação livremente mesmo que exista um mundo possível em que ele sucumbiu a tentação e tornou-se um pecador com necessidade de redenção. O conceito Frankfurtiano de liberdade faz sentido de Cristo resistindo livremente a tentação a despeito de sua impecabilidade.
Então por razões bastante independentes do seu argumento, estou convencido que a premissa (2) é falsa.
Talvez mais surpreendentemente, eu também penso que (3) é falsa. Louvor e condenação moral tem a ver com cumprimento de dever. Alguém que cumpre suas obrigações morais é moralmente digno de louvor. Mas como tenho explicado em meu tratamento a respeito da bondade de Deus, eu não acho que Deus tem qualquer dever moral. Pois deveres morais são constituídos pelos comandos de Deus, e presumivelmente Deus não faz comandos para Ele mesmo. Portanto, Ele não tem obrigações sobre Ele. Pegando emprestado uma distinção de Kant, podemos dizer que os atos de Deus estão em acordo com um dever mas não originários de um dever. Porque Deus é essencialmente amoroso, bondoso, imparcial, justo, etc., Ele age de maneira que para nós seria o cumprimento de nossos deveres.
Esta consequência surpreendente da Teoria do Comando Divino de moralidade foi primeiro apontado por Thomas Morris em seu ótimo livro Anselmian Explorations [Explorações Anselmianas]. Morris procura responder a pergunta, então, em que sentido Deus deve ser louvado. Morris responde que Deus deve ser louvado por seus atos desnecessários, isto é, Seus atos de bondade que vão além da obrigação de alguém. Eu acho que existe uma resposta melhor. Eu acredito que nosso louvor a Deus por Sua bondade deve ser entendido apropriadamente em termos de adoração. Deus é o paradigma e fonte de bondade infinita, e portanto nós O adoramos por quem Ele é. Nós não O oferecemos louvor moral no sentido de elogiá-Lo por estar a par de suas obrigações morais, e sim, nós O amamos porque Ele é a própria bondade.
Eu acho, a propósito, que esta é a melhor ilustração dos benefícios salutares de reflexão filosófica para a vida espiritual de alguém. Nossa admiração de Deus é aprofundada e nosso louvor a Ele é enriquecido ao ver claramente como nós devemos adorá-Lo por quem Ele é.
- William Lane Craig