#837 Molinismo e abiogênese
June 11, 2023Caro Dr. Craig,
Muito obrigado por seu ministério. Muito me beneficiei em estudar os seus livros, artigos e debates. Fico muito empolgado em saber do seu projeto atual de completar uma teologia filosófica sistemática! A minha pergunta diz respeito a alguns dos comentários que fez sobre abiogênese, nos seus boletins e podcasts recentes.
O senhor descreveu uma das opções para o cristão abordar a origem da vida como “supervisionismo”, de acordo com o qual “Deus, como criador e regente providencial do universo, supervisiona a sequência de causas secundárias, de modo que elas produzam naturalmente a vida sob a supervisão dele” (Podcast RF, 22 de janeiro de 2023). Parece-me uma visão plausível, mas fiquei surpreso quando disse que a maneira mais plausível de entender o supervisionismo é o molinismo (ou, em boletim recente, que devemos entender o supervisionismo como uma visão molinista).
Pois bem, a sua obra me convenceu de que o molinismo é verdade, de modo que suponho que, em certo sentido, cada parte do decreto criador da parte de Deus seja “melhor entendido” por meio do molinismo. Porém, não vejo por que o molinista tenha vantagem sobre o calvinista ou arminiano ou teísta aberto quando o assunto é a visão supervisionista da abiogênese. Conforme o entendo, a contribuição característica do molinismo é postular a conhecimento que Deus tem, antes da criação, da verdade de condições subjuntivas relacionadas a agentes livres. Porém, por que este conhecimento médio teria qualquer importância peculiar à criação de leis físicas e condições naturais por parte de Deus que resultem, de modo contingente, na abiogênese? Parece-me que Deus não precisaria explicar as livres escolhas das criaturas no processo da criação da própria vida. Mesmo na visão calvinista, seria possível crer que Deus decretou as leis naturais que produziriam, de modo contingente, a vida, não é mesmo?
Estou ignorando algo sobre o molinismo, ou será que há algo mais na sua proposta supervisionista com que o molinismo deveria sentir-se mais confortável do que os adeptos de outras visões da providência?
Grato,
Kolten
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
A-ha! Há algo no molinismo que você está ignorando, Kolten, e é que o conhecimento médio de Deus compreende mais do que apenas “condições subjuntivas relacionadas a agentes livres”, mas, sim, todas as condições subjuntivas verdadeiras. Alfred Freddoso, o filósofo que tanto fez para trazer o molinismo à atenção dos filósofos contemporâneos, utilizou este fato para explicar o controle providencial de Deus sobre reações físicas quânticas indeterminadas, por meio do que ele chamou de “hipóteses da física quântica”. Deus sabia, por exemplo, que, se certo isótopo radiativo fosse colocado em certas circunstâncias, ele decairia precisamente em certo tempo, a despeito da indeterminação de tal evento.
As reações químicas que levam à abiogênese seriam, igualmente, objetos do conhecimento médio divino. Deus sabia que, caso certas substâncias químicas se combinassem sob justamente as condições corretas, no tempo e lugar corretos, a vida se originaria. (Se lhe parece absurdo, você está inclinado a uma explicação criacionista a envolver a intervenção milagrosa.) Porém, dado que a abiogênese tem, sim, causas naturais, elas estariam sob a supervisão de um Deus dotado de conhecimento médio de todas as condições subjuntivas verdadeiras.
Se a abiogênese for determinista, ela também estará sob o controle do Deus do calvinismo, arminianismo ou teísmo aberto, uma vez que Ele poderia determinar, causalmente, quais reações acontecem. No entanto, isto seria mais análogo ao necessitismo teológico, e não ao que estou chamando de supervisionismo. O que a sua pergunta, realmente, traz à tona é a natureza da concorrência divina, um aspecto da doutrina da providência. De acordo com o molinismo, Deus meramente concorre com as causas secundárias ao produzir os seus efeitos, ao passo que, segundo essas visões não-molinistas, Deus atua nas causas secundárias para determinar quais serão os efeitos delas. A visão molinista da concorrência divina permite que Deus controle as causas secundárias, sem determiná-las. Com base no Seu conhecimento médio, Deus implementa todas as causas secundárias que, segundo Ele sabia, levariam à abiogênese e, então, por assim dizer, ele “larga a mão” e permite que elas produzam os seus efeitos, concorrendo na operação delas, sem determiná-las. Assim, penso que o supervisionismo se associa mais naturalmente ao molinismo.
- William Lane Craig