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#836 Michael Heiser sobre o monoteísmo

June 11, 2023
Q

Michael S. Heiser faleceu recentemente de câncer pancreático (https://www.youtube.com/live/ZDxU7PV1tKI). Ele era conhecido por seu trabalho explicando o Conselho Divino nas Escrituras. Ele também defendeu que os israelitas antigos não eram precisamente monoteístas no sentido moderno. Assim escreve ele em "Monotheism, Polytheism, Monolatry, or Henotheism? Toward an Assessment of Divine Plurality in the Hebrew Bible” [Monoteísmo, politeísmo, monolatria ou henoteísmo? Uma avaliação da pluralidade divina na Bíblia hebraica]:

As declarações no texto canônico (seja ele poético ou não) informam o leitor que, para o autor bíblico, Javé era um elohim, mas nenhum outro elohim era Javé — nem jamais foi nem poderia ser. Esta noção permite a existência de outros elohim, sendo mais precisa do que os termos “politeísmo” e “henoteísmo”. Também é mais correta do que “monoteísmo”, embora preserve o elemento de tal concepção que é mais importante para o judaísmo e cristianismo tradicionais: a “alteridade” solitária de Javé em relação a tudo que há, no céu e na terra... Em vez de fatores sociopolíticos, o autor canônico crê que somente o Deus de Israel era soberano e merecedor de adoração e culto, pois a sua natureza era singular (pré-existência) e o seu poder era inquestionavelmente superior (criador de tudo que há).

No caso, Heiser está argumentando que as Escrituras não ensinam o politeísmo ou o henoteísmo, mas tampouco elas retratam o monoteísmo moderno. Qual é o seu entendimento da posição de Heiser? E será que o monoteísmo (ou o cristianismo) nos exigem rejeitar a existência de outros deuses? Ou será que basta declarar Javé como o único deus que é digno de adoração e culto, que existe antes de todas as coisas e que criou todas as coisas?

O seguinte está em questão: se um hindu (ou um grego) vai seguir a Jesus, será que ele deve negar a existência de outros deuses? Será que é isto que o monoteísmo exige? Ou será que basta reconhecer o Deus da Bíblia, Javé, como o único deus que criou todas as coisas, sendo o único digno de adoração e culto? Parece ser uma questão prática nas missões e na apologética.

S. Josh Swamidass

Dr. Craig responde


A

Embora eu não seja especialista em Heiser, Josh, parece-me que isto tudo é uma questão de semântica pura e simples. A palavra Elohim não é nem “mais precisa” nem “mais correta” do que os termos monoteísmo e politeísmo. Pelo contrário, elohim é vago, significando algo como “ente divino”. No judaísmo, uma infinidade de coisas pode ser chamada de elohim, incluindo o rei judeu, os patriarcas, os anjos e aspectos da natureza divina. Porém, estas coisas são todas criaturas ou personificações de atributos divinos. Conforme reconhece Heiser, somente Deus é o Criador de todas as coisas e, portanto, somente ele deve ser adorado. Nenhuma destas outras coisas deve ser adorada. Há apenas um Deus, ou seja, o monoteísmo é verdadeiro.

De especial importância neste sentido é a obra de Larry Hurtado e Richard Bauckham. Hurtado assinala a característica principal do judaísmo do Segundo Templo como “a sua postura ousadamente monoteísta”.[1] A incapacidade de manter tal postura era “talvez o maior pecado possível para um judeu”.[2] De fato, o politeísmo da religião não-judaica era retratado por judeus devotos como “estupidez total e a pior de tantas características corruptas dos gentios”.[3] Embora o monoteísmo judaico do período do Segundo Templo acomodasse retórica deveras honorífica de diversas figuras intermediárias entre Deus e o mundo, tais figuras intermediárias se enquadram em uma de duas categorias: (i) seres sobrenaturais, mas, ainda assim, criados, como os anjos Miguel e Jaoel, ou os patriarcas exaltados como Moisés e Enoque, e (ii) personificações de aspectos do próprio Deus que não tinham existência independente, tais quais o Seu Verbo ou Palavra e a Sua Sabedoria.[4]

Em sua influente obra sobre o caráter do monoteísmo judaico antigo, Bauckham identifica duas características que separam de modo singular o Deus de Israel de todos os demais, a saber: “ele é o Criador de todas as coisas e o Regente soberano de todas as coisas”.[5] Existe uma reluzente linha divisória que separa a Deus, ontologicamente, de todas as coisas, uma bifurcação que Bauckham busca capturar com o termo “singularidade transcendente”. A condição de Deus como a única realidade última chega à sua expressão prática na monolatria judaica, a restrição da adoração e culto como propriedade dirigida somente a Deus.[6] De acordo com Bauckham, tal restrição “assinalava com a maior clareza a distinção entre Deus e toda a realidade restante”.[7] Com base no seu extenso exame das fontes judaicas, Hurtado concorda: “No monoteísmo exclusivo da tradição religiosa judaica, ... era o culto que se tornava o verdadeiro teste de fé monoteísta na prática religiosa”.[8] Hurtado adverte que “é possível interpretar de maneira equivocada as descrições honoríficas dos anjos principais e outras figuras exaltadas nos textos judaicos antigos..., especialmente se tratarmos tais referências fora do contexto da prática religiosa daqueles que escreveram os textos”.[9] É nesta “esfera externa e tangível de práticas de culto” que temos “indicações mais óbvias e cruciais” do compromisso monoteísta dos judeus.[10]

Heiser, obviamente, percebia e afirmava este ponto. Porém, por algum motivo qualquer, ele parecia gostar de apresentar a sua visão como se fosse algo mais radical e revolucionário do que o era.

Quanto à sua questão prática, é interessantíssimo ver a atitude do apóstolo Paulo diante dos deuses gregos e romanos do seu tempo. Paulo não era nem um pouco inclusivista! Ele não cria que Júpiter, Diana, Vênus e o restante do panteão existissem de fato, muito menos que fossem divinos. Antes, ele diz o seguinte:

Portanto, quanto ao comer da carne sacrificada aos ídolos, sabemos que o ídolo no mundo não é nada, e não há outro Deus, senão um só. Pois, ainda que existam os supostos deuses, seja no céu, seja na terra (assim como há muitos deuses e muitos senhores), no entanto, para nós há um só Deus, o Pai, de quem todas as coisas procedem e para quem vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual todas as coisas existem e por meio de quem também existimos. (1 Coríntios 8.4-6)

Os supostos deuses não existiam realmente. Na medida em que qualquer realidade estivesse por trás destas práticas pagãs, ela era demoníaca. “Será que estou dizendo que aquilo que é sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Ou que o ídolo é alguma coisa? Não! Antes digo que as coisas que eles sacrificam, sacrificam-nas a demônios, e não a Deus. E não quero que tenhais comunhão com os demônios” (1 Coríntios 10.19-20). Aqueles que se convertiam ao cristianismo, deixando o paganismo, deviam, portanto, converter-se “dos ídolos a Deus” (1 Tessalonicenses 1.9), e não reter tais seres ou práticas na sua recém-descoberta fé cristã.


[1] Larry W. Hurtado, Lord Jesus Christ: Devotion to Jesus in Earliest Christianity (Grand Rapids: William B. Eerdmans, 2003), p. 29.

[2] Hurtado, Lord Jesus Christ, p. 30.

[3] Hurtado, Lord Jesus Christ, p. 30.

[4] Para discussão detalhada dos membros de cada categoria, ver Larry W. Hurtado, One God, One Lord: Early Christian Devotion and Ancient Jewish Monotheism, 3. ed. (Londres: Bloomsbury T. & T. Clark, 2015), capítulos 2-4. Em relação aos anjos principais e aos patriarcas exaltados, Hurtado mostra que “os judeus antigos sentiam-se confortáveis com a ideia de que Deus criara ou elevara uma figura específica (por exemplo, um ser celestial) para agir como seu agente principal ou vizir”, sem comprometerem o seu monoteísmo (p. 92). Em relação a personificações, diz Hurtado: “os atributos divinos personificados eram, basicamente, maneiras vívidas de falar dos poderes e atividades do próprio Deus, e não deviam ser percebidos de maneira característica, pelos judeus, como se constituíssem uma erosão do seu compromisso com um único Deus” (p. 40). Ele dá a envolvente analogia da Penitência, um traço essencialmente humano, personificada em José e Asenate 15.7-8 como “a filha do Altíssimo... a mãe das virgens... belíssima, pura, casta e gentil”, a quem Deus ama e os anjos servem. Hurtado comenta: “É improvável que a Penitência devesse ser entendida como um ‘intermediário’ real; ainda assim, a linguagem de personificação é tão rica quanto a que se aplica à Sabedoria e figuras semelhantes” (p. 48).

[5] Richard Bauckham, “God Crucified”, in Jesus and the God of Israel (Grand Rapids, Mich.: William B. Eerdmans, 2008), p. 8. 

[6] Richard Bauckham, “Biblical Theology and the Problems of Monotheism”, in Jesus and the God of Israel, pp. 83-84.

[7] Bauckham, “God Crucified”, p. 11.

[8] Hurtado, One God, One Lord, p. 39.

[9] Hurtado, Lord Jesus Christ, p. 36.

[10] Hurtado, Lord Jesus Christ, p. 36.

- William Lane Craig