#38 Molinismo e livre-arbítrio
July 12, 2012Minha pergunta é sobre o molinismo.
O molinismo alega que o indivíduo escolherá por livre vontade um caminho particular em cada conjunto de circunstâncias logicamente possíveis e suscetíveis de ocorrerem em um mundo real.
É verdade?
Consideremos dois conjuntos de circunstâncias logicamente possíveis que poderiam ter ocorrido no mundo real, mas não ocorreram.
1) Estou sentado para o desjejum em um hotel às 8h30 do domingo 30/12/2007, e o garçom me pergunta: “Chá ou café?”, e um ser onisciente tem o conhecimento infalível de que escolherei chá.
2) Estou sentado para o desjejum em um hotel às 8h30 do domingo 30/12/2007, e o garçom me pergunta: “Chá ou café?”, e um ser onisciente tem o conhecimento infalível de que escolherei café.
Esses diferentes conjuntos de circunstâncias são logicamente possíveis?
Quais são os meus contrafactuais de liberdade em cada um desses dois conjuntos de circunstâncias?
Que caminho eu poderia escolher por livre vontade em cada um desses conjuntos de circunstâncias?
Se existe um fato definido da questão sobre como eu escolheria em cada um desses conjuntos de circunstâncias, fica provado agora que o molinismo é verdadeiro?
Steven
United States
Dr. Craig responde
A
Sua definição do molinismo não é muito precisa, Steve. O molinismo defende que Deus sabe logicamente antes do seu decreto para criar um mundo o que qualquer pessoa faria de livre vontade em qualquer conjunto de circunstâncias plenamente especificadas e com liberdade total na qual Deus a colocasse. Se as circunstâncias não forem especificadas o suficiente, então, pode ser que a preocupação contrafactual sobre o que a pessoa faria nessas circunstâncias não seja verdadeira; em vez disso, podemos ter um contrafactual declarando meramente o que ela poderia fazer.
As circunstâncias que você descreve carecem grandemente de especificidade, o que, à primeira vista, levaria à ideia de que, nesse caso, ocorre apenas um contrafactual do tipo “poderia”. Mas a solução imprevista é que você inclui como parte das circunstâncias o conhecimento da sua escolha por um ser onisciente e infalível que o leva a decidir de maneira específica.
Assim, quanto às suas quatro perguntas a respeito da circunstância que você imaginou:
(i) Esses diferentes conjuntos de circunstâncias são logicamente possíveis? Num certo sentido, sim. Porque você descreve parcialmente dois mundos possíveis até o momento t da sua escolha, a qual abrange a presciência (N.B. não conhecimento médio!) que um ser onisciente e infalível tem da sua escolha pelo chá. Por outro lado, quando os molinistas contemporâneos falam das “circunstâncias” diferentes nas quais se faz uma escolha, eles não incluem fatos “contaminados de futuro”, como o conhecimento que um ser onisciente e infalível tem do futuro. Uma vez que essa contaminação de futuro, ou fatos “flexíveis”, acompanha as livres escolhas de alguém, variando quando elas variam, não tem utilidade como guias para determinar que livres escolhas estão ao alcance em certas circunstâncias. Nesse sentido técnico, então, (supondo que o hotel, o garçom, etc., são os mesmos) você não descreveu as “circunstâncias” distintas. Caso contrário, você poderá terminar com um dito “colapso contrafactual”; em outras palavras, a verdade de sua oração consequente implica a falsidade de sua oração antecedente, portanto, isso não pode ser verdade.
(ii) Quais são os meus contrafactuais de liberdade em cada um desses dois conjuntos de circunstâncias? Há uma quantidade indefinida de muitas livres escolhas que você poderia criar nessas circunstâncias, e.g., você se levanta e sai, você pede uma Coca-Cola, você manda o garçom sumir, etc. É óbvio que, se você fizesse qualquer uma dessas coisas, o conhecimento do ser onisciente sobre o que você fará teria sido diferente. Uma vez que esse tipo de conhecimento é um fato flexível a respeito do passado, não é independente de como você escolherá. Em casos assim, você tem a capacidade para agir de tal maneira que, se você agisse dessa maneira, alguns fatos passados teriam sido diferentes desses. Casos assim justificam o uso dos chamados “contrafactuais retroativos” para significar que, se você fizesse uma ação A em t, então algum fato anterior a t teria sido diferente. Incorremos no mesmo tipo de situação em exercícios mentais que envolvem casos de viagem no tempo ou de causalidade retroativa.
(iii) Que caminho eu poderia por livre vontade escolher em cada um desses conjuntos de circunstâncias? Você já deixou o gato escapar do saco, com respeito a que contrafactual é verdadeiro com relação a cada conjunto de circunstâncias, quando nos informou que o ser onisciente e infalível sabe o que você fará. Afinal, isso equivale precisa e logicamente àquilo que é verdade que você fará. Portanto, obviamente, se fosse verdade que você escolheria chá, então escolheria chá, e se fosse verdade que você escolheria café, então escolheria café. Aqui não há mistério!
(iv) Se existe um fato definido da questão sobre como eu escolheria em cada um desses conjuntos de circunstâncias, fica provado agora que o molinismo é verdadeiro? Obviamente que não, pois o aspecto crítico para a doutrina do conhecimento médio é quando Deus tem conhecimento desses contrafactuais verdadeiros: logicamente anterior ao seu decreto criador ou somente logicamente posterior ao seu decreto criador? Por tradição, todos os teólogos concordam que Deus tem conhecimento desses contrafactuais; o traço distintivo da visão de Molina foi a sua contenção de que Deus conhece os contrafactuais logicamente antes de seu decreto de um mundo; em outras palavras, o valor-verdade deles independe da vontade divina. Logo, para provar que a doutrina do conhecimento médio não é suficiente para mostrar que em quaisquer circunstâncias existem contrafactuais verdadeiros a respeito de nossas escolhas que são conhecidos por Deus, ainda falta mostrar que ele os conhece antes da sua seleção do mundo atual.
- William Lane Craig