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#615 Neo-apolinarismo e dualismo de mente e corpo

April 01, 2019
Q

Ando ouvindo sua série no curso Defenders sobre a encarnação de Cristo, um estudo maravilhoso para o período festivo. O senhor propõe um modelo da encarnação no qual o Cristo encarnado é onisciente, mas, ainda assim, tem conhecimento humano limitado e normal. Sugere que Cristo pode ter tido o conhecimento divino onisciente subliminarmente (ou em seu subconsciente) e conhecimento humano normal em sua mente consciente (Defenders, série 3, seção 7, parte 7).

Em primeiro lugar, como os dados infinitos de uma mente onisciente poderiam ser “armazenados” num cérebro humano finito? Se não forem “armazenados” no cérebro humano de Jesus, como, porventura, seriam armazenados? Tal modelo da encarnação implicitamente nos compromete com o dualismo de substância, a noção de que as mentes humanas têm um componente metafísico / espiritual independente? Se sim, não estaríamos dificultando a vida dos descrentes céticos? Para manter uma visão teológica sólida acerca de Cristo, seria preciso também se comprometer com uma ideia controversa na neurociência.

Em segundo lugar, sugere que algumas pessoas talvez adotem a perspectiva de que Jesus não podia, na verdade, acessar o conhecimento subliminar. Caso se adote tal perspectiva, qual é a diferença para a ideia de que Jesus se despojou de onisciência (a visão quenótica geralmente rejeitada como heresia)? Parece-me que seria o mesmo que o Logos se esvaziando de onisciência.

Obrigado por seu maravilhoso trabalho.

Pete

Reino Unido

United Kingdom

Dr. Craig responde


A

Agradeço por suas perguntas, Pete!

Em primeiro lugar, é impossível que conhecimento infinito seja armazenado no cérebro humano, por mais incrível que este seja. Portanto, tal conhecimento é a possessão do Logos divino, a segunda pessoa da trindade, que se encarnou como Jesus de Nazaré. Sim, o modelo nos compromete com o dualismo de mente e corpo. É um princípio do modelo, totalmente desvencilhado de questões ligadas à onisciência. A ideia é que o Logos divino imaterial é a alma de Jesus de Nazaré, mas apenas uma parte diminuta do que ele conhece vem à consciência ativa durante o chamado “estado de humilhação” de Jesus (i.e., sua estada terrena). Assim, do começo ao fim, o modelo pressupõe o dualismo.

Isto não cria dificuldades para descrentes céticos, pois estamos propondo o modelo meramente como explicação possível de como Cristo pode ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O ônus da prova fica, pelo contrário, com o cético, que deve mostrar que a proposta é impossível. Boa sorte! Além disso, o teísmo já nos compromete com uma mente divina incorpórea. Se o descrente está disposto a considerar tal possibilidade, a proposta mais ampla de que também pode haver mentes incorpóreas não parece ser pedir demais. Para uma boa refutação de objeções ao dualismo de mente e corpo, veja o tratamento que meu colega J. P. Moreland dá em Philosophical Foundations for a Christian Worldview, 2.ed. (IVP, 2017) [primeira edição publicada em português com o título Filosofia e cosmovisão cristã (Vida Nova, 2005)].

Em segundo lugar, se alguém mantém que Cristo, em sua consciência ativa, não era capaz de acessar o subliminar divino, tal visão é completamente diferente do quenotismo, que nega haver um subliminar divino! O teólogo quenótico diz que o Logos deixou de lado a onisciência por causa da encarnação. Por isso, Cristo, literalmente, não tinha conhecimento sobre-humano. Porém, segundo minha proposta neo-apolinarista, Cristo tem tal conhecimento subconscientemente, e o subliminar divino teria o poder de fazer que tal conhecimento viesse à tona na consciência, mesmo que Jesus, em sua consciência ativa, não o pudesse provocar.

- William Lane Craig