#616 Objeções ao particularismo cristão
April 23, 2019Li com grande interesse sua discussão do particularismo cristão e como/se/por que Cristo é o único caminho para Deus, e minha pergunta aborda algo que, segundo penso, está ausente ali (talvez eu esteja errado). Se aceitarmos que não há razão para defender o pluralismo religioso só para ser gentil ou por causa de algum conceito injustificado de ser “justo” ou ainda por outro motivo politicamente correto, não nos sobra ainda uma brecha no argumento? Se Deus é todo-poderoso e amoroso, por que ele não poderia ter decidido intervir nos assuntos humanos mais de uma vez e em mais de um lugar, além de criar mais de um veículo de acesso à sua graça? É verdade que teríamos, então, de examinar criticamente cada uma dessas afirmações, mas por que o seria impossível a priori?
O fato de que a Bíblia diz que Jesus é o único caminho é circular, por depender de si mesma para se provar. Porém, se aceitarmos o entendimento que o senhor tem de Deus (não sou de modo algum ateu), não seria forçado o senhor insistir em limitações do que Deus pode ou não decidir fazer ao interagir com a humanidade — i.e., apenas em tal ponto na história, e somente de tal modo, e não de outro? Parece contraditório à ideia de possibilidades infinitas (que devem, certamente, ser permitidas) e, para ser bem franco, é também um pouco conveniente para o particularismo cristão.
Gosto muito de seu site e li muitos de seus textos. Agradeço desde já por tirar seu tempo para considerar minha questão. Obrigado.
David
Canada
Dr. Craig responde
A
Acho que você não prestou atenção, David, à minha explicação de minhas ideias sobre o assunto, que têm muito mais nuance do que sugere sua pergunta. (Veja, no site, a seção de artigos sobre particularismo cristão ou sobre cristianismo e outras crenças). Porém, como muitos costumam externar esses mal-entendidos, decidi escolher sua pergunta esta semana.
Começando pela segunda objeção, primeiramente, não há nenhuma circularidade na perspectiva bíblica. Ao defender sua visão diante de um público de filósofos estoicos e epicureus em Atenas, Paulo disse: “No passado, Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou. E deu provas disso a todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (Atos 17.30-31). Observe que Deus deu provas da afirmação exclusiva de Cristo, a saber, ele o ressuscitou dentre os mortos. O que me surpreende é que as mesmas provas nos estão disponíveis hoje. A pergunta, então, não trata do que Deus pode ou não pode fazer, mas do que ele, de fato, fez. Ele agiu decisivamente na pessoa de Jesus de Nazaré para efetuar nossa salvação e até mesmo deu provas do fato ao ressuscitá-lo dentre os mortos.
Com relação à primeira objeção, você pergunta: “Se Deus é todo-poderoso e amoroso, por que ele não poderia ter decidido intervir nos assuntos humanos mais de uma vez e em mais de um lugar, além de criar mais de um veículo de acesso à sua graça?” Mas ele o fez! Conforme explico, a graça divina salvadora é universalmente acessível, mesmo para quem jamais ouviu o evangelho, por meio da revelação divina geral na natureza e na consciência. Além disso, ele se revelou especialmente ao Israel histórico por meio de seus atos salvíficos. Hoje, muitos no mundo muçulmano relatam sonhos e visões através dos quais Deus tem se revelado a pessoas de diversos modos, a fim de levá-las a um conhecimento salvífico de si mesmo. Não há razão para pensar que, digamos, o budismo ou o politeísmo seja um dos veículos através dos quais se tem acesso à salvação. Pode haver caminhos que levam ao erro, bem como caminhos que levam à verdade.
Se você ainda se pergunta por que Deus fez as coisas do jeito que as fez, e não de outra maneira, argumentei que é possível que o modo que Deus escolheu levará livremente à salvação o número ideal de pessoas e é, portanto, preferível.
- William Lane Craig