#338 O Amor Incondicional de Deus
May 16, 2015Caro Dr. Craig,
Como um cristão preocupado com fornecer boas razões para a minha própria fé, eu aprecio o seu blog, podcast e contribuições para a filosofia da religião. Com isso dito, na sua Pergunta # 123, você argumentou que a concepção islâmica de Deus é moralmente inadequada. Perto do final do seu post, você declarou que:
“O amor de Deus é imparcial, universal e incondicional [...] [e] que um ser moralmente perfeito amaria as pessoas imparcialmente, todas as pessoas, e sem amarras. Mas Alá não tem nenhum amor pelos descrentes. Esta não é somente uma diferença em grau, mas é como a diferença entre a noite e o dia!”
Eu concordo que o amor, como você afirma, é a "uma propriedade engrandecedora". No entanto, enquanto a Bíblia diz que Deus é todo-amoroso (veja as passagens que você notou a respeito do filho pródigo e da ovelha perdida), não diz que Deus necessariamente ama incrédulos, ou pecadores. Pelo contrário, várias passagens do Antigo Testamento afirmam de forma inequívoca que Deus odeia os pecadores. Considere o seguinte:
Salmo 5:5, "Os arrogantes não subsistirão diante dos teus olhos; detestas a todos os que praticam a maldade,"
Salmo 11:5, "O Senhor prova o justo e o ímpio; a sua alma odeia ao que ama a violência."
Lev. 20:23, "E não andareis nos costumes dos povos que eu expulso de diante de vós; porque eles fizeram todas estas coisas, e eu os abominei."
Prov. 6:16-19, "Quanto melhor é adquirir a sabedoria do que o ouro! e quanto mais excelente é escolher o entendimento do que a prata! A estrada dos retos desvia-se do mal; o que guarda o seu caminho preserva a sua vida. A soberba precede a destruição, e a altivez do espírito precede a queda. Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos."
Oséias 9:15, "Toda a sua malícia se acha em Gilgal; pois ali é que lhes concebi ódio; por causa da maldade das suas obras lançá-los-ei fora de minha casa. Não os amarei mais; todos os seus príncipes são rebeldes."
Como é que você explica estes versos, dada a sua afirmação de que "Jesus ensinou o amor incondicional de Deus para com os pecadores?" Qual o efeito que esses versículos têm para o seu argumento a respeito da superioridade moral do conceito cristão de Deus?
Bridger
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
No meu debate com o apologeta muçulmano Shabir Ally, ele trouxe precisamente as mesmas passagens bíblicas em refutação à minha afirmação de que o Deus da Bíblia, ao contrário do Deus do Alcorão, tem amor incondicional por todas as pessoas.
Eu acho que não é difícil explicar essas passagens à luz do ensino da Escritura que Deus ama os pecadores. Leve em conta que quase todas elas vêm de passagens poéticas. Elas são hipérboles religiosas que expressam o ódio de Deus por atos maus e pelos atos ímpios que as pessoas ímpias cometem. Seria um erro hermenêutico considerá-las literalmente como declarações de doutrina cristã.
Fazer dicotomias hiperbólicas, preto-e-branco era uma expressão idiomática semítica comum. Por exemplo, "amei a Jacó, mas odiei Esaú" (Malaquias 1:2-3; ver Rom 9:13) é uma maneira de dizer que Deus escolheu Jacó e não Esaú. Quando Jesus diz: "Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo." (Luc 14:26), ele quer dizer que se alguém prioriza até mesmo os entes mais queridos acima de Jesus, seu discipulado é incompleto — uma afirmação que é radical o suficiente sem levá-la literalmente!
Contra essas poucas passagens hiperbólicas fica o ensinamento doutrinário claro de Jesus e os apóstolos que Deus ama todas as pessoas, mesmo os pecadores. Tire tempo para ler e meditar no Sermão do Monte, no evangelho de Mateus 5-7. Jesus disse:
"Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odeie o seu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? Não fazem os gentios também o mesmo? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial."(Mt 5:43-48).
Deus é o nosso modelo em amar os outros. Devemos amar até os nossos inimigos. É assim que Deus ama. Paulo escreveu mais tarde: "Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós... quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida."(Romanos 5:8,10). Nosso amor deve ser imparcial, assim como Deus derrama bênçãos sobre os maus e justos igualmente. Nosso amor deve ser universal, não reservado apenas para alguns. Nosso Pai celeste é perfeito, e assim Ele ama perfeitamente.
Quão maravilhoso é Deus! Ao refletir sobre as palavras de Jesus, me surpreendeu com força que o amor de Alá, tal como descrito no Alcorão, não sobe mais alto do que o amor exibido por pagãos e coletores de impostos! O amor de Alá é condicional, parcial, e tem de ser conquistado. Mas o amor de Deus nosso Pai celestial é incondicional, imparcial e universal.
Agora, me ocorreu que eu estava, talvez, sendo injusto com o muçulmano. Talvez ele também possa dizer que as passagens do Alcorão sobre Deus não amando incrédulos e pecadores são poéticas e hiperbólicas. Afinal de contas, não é o Alcorão que afirma que Deus é "o Todo-Compassivo, o Misericordioso"? Mas o problema com essa interpretação é que simplesmente não há nenhuma passagem do Alcorão comparável que afirma que Deus ama todas as pessoas ou que Ele ama os incrédulos e pecadores. Nem uma! Repetidas vezes o Alcorão nos assegura do amor de Deus para aqueles que se submetem a Ele, e declaram a confissão, e fazem a Sua vontade, mas Ele não tem amor pelos pecadores e incrédulos. Sempre que o Alcorão fala da atitude de Deus para com os incrédulos, diz-nos, em termos inequívocos, que Ele não os ama. Então, enquanto eu gostaria de receber uma afirmação de um muçulmano do amor incondicional de Deus por todas as pessoas, eu acho que essa afirmação representaria uma revisão da concepção do Alcorão de Deus, em vez de uma interpretação correta do ensino do Alcorão.
De acordo com o Alcorão, então, Deus não ama o próprio povo que a Bíblia diz que Deus ama tanto que deu o seu único Filho para morrer por ele (João 3:16). Deus ama o mundo e enviou Jesus para morrer pelo mundo, que é a massa descrente da humanidade. Louvado seja Deus!
Francamente, Bridger, estou chocado com o fato de que alguns cristãos têm uma compreensão do amor de Deus que é comparável à do Alcorão. Eles, na verdade, acham que Deus não ama todas as pessoas incondicionalmente. Eles não conseguiram entender algo tão fundamental e básico para o discipulado cristão: o maravilhoso amor de Deus.
- William Lane Craig