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#190 O Argumento Cosmológico Leibniziano (ACL)

October 28, 2014
Q

Dr. Craig,

Eu tenho algumas perguntas sobre a sua versão do Argumento Cosmológico de Leibniz (que você chama o argumento da contingência—existe uma diferença?). Embora uma vez eu costumava pensar que o ACL era o mais poderoso argumento que a teologia natural tinha a oferecer, lendo algum material por seus críticos ateus me levou a duvidar de sua solidez. Principalmente, essas objeções não são contra o PRS (princípio da razão suficiente) que você usa na primeira premissa do argumento (que afirma que tudo o que existe tem uma explicação para sua existência, seja ela uma necessidade de sua própria natureza ou uma causa externa) mas são contra a segunda premissa do argumento (que afirma que se o universo tem uma explicação para sua existência, então essa explicação é Deus).

O primeiro grupo de objeções tenta usar seu próprio PRS para minar a segunda premissa. A primeira réplica neste grupo afirma que a primeira premissa faz uma distinção entre as explicações que são (i) causas externas ou (ii) necessidade interna. Mas por que não se pode fazer as duas categorias adicionais de (iii) necessidade externa ou (iv) causas internas. Uma das críticas da ACL que li argumenta que, enquanto os dois últimos são pelo menos concebíveis e lógica e epistemologicamente possíveis, então eles permanecem sendo opções viáveis ​​para a natureza da explicação do universo. A segunda réplica neste grupo afirma que a explicação do universo não precisa ser uma causa em si, pois alguns objetos abstratos como os números e leis da matemática e da lógica, embora causalmente impotentes, podem explicar certos fatos e coisas, como porque 2 + 2 = 4 ou a existência/natureza das propriedades, respectivamente. A terceira, e eu acho que a mais poderosa, réplica nesta categoria alega que você confunde a dependência com a possibilidade. A dependência, no sentido ontológico, refere-se à relação causal entre os seres. A possibilidade, no sentido modal, refere-se à existência de um ser ou a verdade de uma proposição em todos, alguns, um ou nenhum mundo possível. A possibilidade é omissa sobre a dependência dos seres. No entanto, o seu ACL então implicaria que existem dois tipos de seres, (a) seres necessários e independentes e (b) seres contingentes, dependentes. Mas se a objeção até agora é sólida, então pareceria que não se tem justificativa para concluir que um ser é ontologicamente dependente ou independente sobre os supostos motivos de que ele é modalmente contingente ou necessário, respectivamente. Além disso, há vários exemplos contrários para esta dicotomia. Por exemplo, seres necessários e dependentes são epistemicamente possíveis (já que você usa conceptibilidade como uma diretriz para a modalidade do universo, esse uso aqui não pode ser rejeitado). De acordo com o teísmo, os valores morais são necessários no sentido de que eles existem em todos os mundos possíveis, mas eles ainda são dependentes de Deus para sua existência. Da mesma forma, o mundo se enquadraria nessa mesma categoria também. Se Deus, um ser necessário, criou o mundo, então Ele deve ter tido uma razão para fazê-lo. Esta razão, como indicada pelo PRS, deve ser uma condição necessária, ou então você precisa de uma explicação para isso. Portanto, o mundo, como um produto de um ser necessário com intenções necessárias, é também necessário. Mas porque ele foi criado, ainda é dependente de Deus. Por conseguinte, deveria haver quatro categorias de seres:

(a) seres necessários, independentes

(b) seres contingentes, dependentes

(c) seres necessários, dependentes

(d) seres contingentes, independentes

Já que seu ACL lida com apenas as duas primeiras, não pode mostrar que o universo, mesmo que contingente, depende de um ser como sua causa. Nos termos desta proposta exaustiva, os quarks que compõem o universo (já que você corretamente evita a falácia de divisão e vê que a evidência intuitiva para a possibilidade da não-existência do universo é distinta de qualquer evidência para a possibilidade da não-existência do material que constitui o universo) poderiam se encaixar em (d) e serem factualmente necessários. Richard Swinburne ofereceu um modelo de como isso funcionaria. Como o deus de Swinburne, o universo, se factualmente necessário, seria contingente, porém eterno, durando para sempre e indestrutível nos mundos em que existisse, sem qualquer explicação (como for que isso possa ser definido). Já que os seres contingentes, independentes são concebíveis e epistemologicamente possíveis, esta categoria não pode ser (aparentemente) descartada como viável sob o qual o universo se encaixaria.

O segundo grupo de réplicas tenta defender a tese de que o universo é necessário, no caso em que o primeiro grupo de réplicas falhasse. Agora, eu concordo com seus críticos aqui que você apressadamente descarta a ideia de que o universo poderia ser necessário. Você depende da conceptibilidade como uma diretriz para possibilidade modal; você diz na Pergunta 25: "Ora, parece óbvio que uma coleção diferente de quarks poderia ter existido em vez da coleção que existe”. O primeiro problema aqui, porém, é que isto prova demais. Pode-se conceber a não-existência de Deus, mas você e eu negaríamos que Ele é contingente (embora Swinburne não iria). Peter van Inwagen também argumentou que o conceito de um "knowo," um ser contingente que sabe que não há seres necessários, é concebível e, portanto, possível, o que iria contrariar que Deus seja necessário. Agora, de acordo com uma das críticas do ACL que eu li, você recorre a Charles Taliaferro para escapar esta questão, mas a epistemologia modal de Taliaferro é de pouca ajuda. Ela basicamente afirma que passar de conceptibilidade a possibilidade só é válida prima facie se o estado de coisas concebidas é internamente consistente e coerente com fatos conhecidos. Mas não parece que experiências de pensamento Deus Não é Necessário mencionados acima violam isso. Você precisaria encontrar uma epistemologia modal que impediria, não arbitrariamente, as experiências de pensamento “Deus Não é Necessário” de funcionar, mas que permita que o universo permaneça sendo contingente. A segunda réplica afirma que conceptibilidade não implica possibilidade, porque o que nós podemos conceber é sempre governado por um pano de fundo de conhecimento, que varia com a localização e época. Por exemplo, um antigo filósofo escolástico poderia ter argumentado que a "Água e H2O são diferentes porque eu posso conceber um mundo possível onde existe a água sem H2O. Assim, eles não são idênticos e, portanto, são distintos um do outro." Esse argumento usa o mesmo tipo de salto (movimento) de conceptibilidade a possibilidade utilizado no ACL. No entanto, sabemos que não é sólido por causa da química moderna. Outro bom exemplo apresenta o Homem-Aranha, cuja identidade secreta é Peter Parker. Suponha que Mary Jane Watson acredita que o Homem-Aranha e Peter Parker são indivíduos distintos. Portanto, de acordo com sua epistemologia modal, porque Mary Jane poderia conceber um mundo possível em que o Homem-Aranha não existe enquanto Peter permanece existente, esse mundo realmente existe. Isto é obviamente impossível já que eles são, sem que Mary Jane saiba, a mesma pessoa. Assim, este experimento mental prova que conceptibilidade é um guia pobre a possibilidade porque o primeiro é fortemente influenciado pela variação do conhecimento de pano de fundo. Mas, também, há o problema de intuições conflitantes. O que acontece se suas intuições modais entram em conflito com as minhas? Quem, se algum, de nós está certo?

O último conjunto de réplicas lida com a forma como devemos definir o universo no ACL. Que definição você está usando nele? Se a palavra "universo" é definida como "toda a realidade (incluindo Deus)", o "universo" não teria nenhuma explicação externa, porque essa explicação teria que existir fora da realidade, o que é impossível já que a realidade é tudo o que existe. Se o "universo" é definido como "o arranjo particular e número de quarks que conhecemos na nossa região do espaço-tempo," o “universo” seria necessário, pois quando alguém concebeu um universo diferente, eles estariam pensando em outra coisa, e não o "universo" como anteriormente definido. Isto é como argumentar que, porque Deus é o maior ser concebível, é impossível conceber algo maior, uma vez que isso seria Deus e não o que originalmente estava se referindo.

Estas são, portanto, as melhores réplicas do ACL que eu encontrei em minha pesquisa sobre ele. Eu sou um teísta cristão, aliás, mas agora estou muito cético sobre o sucesso deste argumento em particular. Você tem alguma ideia de como esses problemas podem ser amenizados, de preferência sem recorrer a outros argumentos? Se o teísta é forçado a recorrer a outros argumentos, ele será pego engajando-se em um raciocínio circular, o que obviamente não é bom.

Obrigado,

Midas

United States

Dr. Craig responde


A

Deixe-me voltar no tempo para começar a responder suas perguntas, Midas. No meu trabalho inicial com o argumento cosmológico, eu mesmo tinha dúvidas sobre o argumento cosmológico de Leibniz por causa das mesmas razões que você sugere. Em particular, eu pensei em Deus não como um ser logicamente necessário, mas como o meu mentor de doutorado John Hick chamava de ser factualmente necessário, isto é, um ser que não é causado, que é eterno, incorruptível e indestrutível. (Swinburne ainda mantém esse ponto de vista.) É a esse tipo de ser que o argumento cosmológico kalam conclui. Eu até tentei "salvar" Leibniz interpretando sua necessidade metafísica em termos de necessidade factual. Não foi até eu vir a apreciar plenamente a diferença entre a necessidade/possibilidade lógica estrita e a necessidade/possibilidade lógica ampla que eu pude ver como Deus poderia e deveria ser considerado como necessário no sentido amplamente lógico. Um argumento cosmológico a favor de Deus como um ser amplamente logicamente necessário foi, ao mesmo tempo, re-aberto como uma opção.

É claro que tal argumento deve apresentar uma versão plausível do Princípio da Razão Suficiente, e demais a versão do próprio Leibniz me parecia forte. Mas pareceu-me que versões mais fracas estavam disponíveis; versões que eram plausíveis e adequadas para o trabalho. Em particular, eu achei a versão de Stephen T. Davis do argumento é surpreendentemente simples e convincente. Então depois de muito pensar, minhas reservas iniciais foram superadas, e eu vi que o argumento era bom.

Agora, tenha em mente o que eu quero dizer com um "bom argumento." Eu quero dizer um argumento que (i) é logicamente válido; (ii) tem premissas verdadeiras; e (iii) tem premissas que são mais plausíveis do que suas negações. A fim de mostrar que um argumento não é bom, não é suficiente para o cético mostrar que é possível que a premissa seja falsa. As possibilidades saem baratas. Estou perplexo que tantos leigos parecem pensar que meramente indicar uma outra possibilidade é suficiente para derrotar uma premissa. Isto está errado, pois as premissas de um argumento não precisam ser nem necessárias nem certas a fim de que aquele argumento seja bom. O detrator do argumento precisa mostrar que a premissa em questão é falsa ou que a sua negação é tão plausivelmente verdadeira como a própria premissa.

Da mesma forma, não é suficiente para os críticos de um argumento mostrar que uma das premissas pode ser racionalmente negada. Um bom argumento não precisa forçar a aprovação de uma pessoa racional. Por isso, eu nunca disse que aqueles que rejeitam os argumentos teístas que defendo são irracionais por fazê-lo. Já que plausibilidade é até um certo grau relativo a pessoa, eu nem fico indevidamente incomodado com o fato de que algumas pessoas podem não encontrar uma das premissas mais plausíveis do que a sua contraditória. Se alguém, por exemplo, acha que é tão plausível como sua negação que as coisas podem vir a existência totalmente sem causa, eu acho que isso é problema dele, não meu. Minha avaliação diferente da plausibilidade do princípio da causalidade é perfeitamente razoável quer ele veja o ponto ou não. Por isso, a minha confiança no valor do argumento como bom não é abalada pelo cético simplesmente dizer que a premissa não parece mais plausível para ele.

Essas considerações são importantes, pois estes três grupos de objeções assumem posições mutuamente contraditórias. As objeções do Grupo I finalmente consideram o universo existindo de forma contingente. Mas as objeções do Grupo II consideram o universo existindo necessariamente. Uma vez que estas posições são logicamente incompatíveis, você sabe que pelo menos uma das posições é falsa. Se nosso objetivo é chegar ao que é mais plausivelmente verdadeira, temos que ir além de atirar possibilidades nuas e tentar descobrir o que é mais plausível o caso.

Então, com isso em mente, vamos considerar o argumento tendo em conta as objeções que você encontrou. Para aqueles que não estão familiarizados com o argumento, aqui está uma declaração dele:

1. Tudo o que existe tem uma explicação para sua existência (seja ela uma necessidade de sua própria natureza ou uma causa externa).

2. Se o universo tem uma explicação para sua existência, essa explicação é Deus.

3. O universo existe.

4. Portanto, o universo tem uma explicação para sua existência. (a partir de 1, 3)

5. Portanto, a explicação da existência do universo é Deus. (a partir de 2, 4)

Objeções do Grupo I

A primeira objeção deste grupo tenta delinear outras categorias de explicação, ou seja, a necessidade externa e as causas internas. O.K., e –? Qual é a objeção? Simplesmente enumerar outras possibilidades não faz nada para derrotar a premissa (2) do argumento. Possibilidade não implica viabilidade.

E do que estamos falando, afinal? A ideia aqui, eu acho, é que além de algo que existe por uma necessidade de sua própria natureza e, portanto, não tem causa, pode haver coisas que existem por uma necessidade de sua própria natureza e ainda são causadas. Mas isso é claramente incoerente, pois se algo depende de uma causa para a sua existência, então a sua própria natureza por si só não é suficiente para explicar por que ele existe. Concordo que, até onde sabemos, pode haver coisas que existem em todos os mundos possíveis, mas são causadas (números? Valores morais?). Ainda assim, essas coisas não existiriam por uma necessidade de sua própria natureza, apesar de existirem necessariamente (aqui vemos a sutileza e a força do argumento de Davis). Assim, a categoria de coisas que existem por uma necessidade de sua própria natureza e ainda são causadas está vazia.

Sugere-se também que podem haver coisas que existem por "necessidade interna." Se isto é para ser diferente do que algo que existe por uma necessidade de sua própria natureza, o único sentido que eu posso fazer com esta sugestão é algo que é auto-causado. Mas essa noção não faz sentido, uma vez que exigiria que algo fosse explicativamente anterior a si mesmo. Então, novamente, esta categoria está vazia.

O ponto da premissa (1) é distinguir entre dois tipos de seres: os que existem por uma necessidade de sua própria natureza e aqueles que não o fazem. Esta é uma distinção mutuamente exclusiva e exaustiva. Alega-se, ainda, que as coisas que não existem por uma necessidade de sua natureza têm causas além de si mesmos que servem para explicar por que eles existem. Em outras palavras, não há contingentes brutos. Esta premissa me parece muito plausível.

A segunda objeção sob o Grupo I é que poderia haver uma explicação não-causal para a existência de coisas parecidas com como objetos matemáticos explicam verdades como "2 + 2 = 4". Essa objeção apenas parece ser baseada em uma falsa analogia. Na medida em que eu posso fazer sentido em explicar por que 2 + 2 = 4, diríamos algo como os termos "2 + 2" e "4" designam a mesma entidade. Ou talvez poderíamos dizer que "2 + 2 = 4" é derivável como um teorema a partir dos axiomas da Aritmética de Peano. Mas nenhum desses sentidos de "explicação" é relevante para explicar por que alguma entidade existe. Mais uma vez, a força da formulação de Davis de seu Princípio da Razão Suficiente é que não exige que todas as verdades têm uma explicação, mas apenas que tudo o que existe tenha uma explicação por que ela existe.

A terceira objeção do Grupo I apenas re-vira terra já arada. É desatento para o fato de que a distinção que o argumento cria não é entre seres logicamente necessários e seres logicamente contingentes, mas entre seres que existem por uma necessidade de sua própria natureza e aqueles que não o fazem. O argumento como colocado é inteiramente compatível com a existência de coisas que existem em todos os mundos possíveis e ainda são causalmente contingentes. Esse é um dos pontos fortes do argumento.

Agora, a alegação de que o mundo é precisamente tal ser é uma reivindicação muito radical! Mas note que ela dá ao defensor do argumento cosmológico de Leibniz exatamente o que ele está defendendo, ou seja, uma causa transcendente do universo! Esta é uma objeção? Não, é uma concessão total (ironicamente, uma que o próprio Leibniz não teria ficado completamente infeliz ouvindo, dada a sua opinião sobre a necessidade da criação)! O que esta "objeção" questiona é apenas a liberdade de Deus na criação do mundo. Sugere que Deus não é livre de se abster de criar, que em todos os mundos possíveis Deus cria o nosso universo.

Então que argumento existe para adotar essa visão radical que o universo existe necessariamente mas é causalmente contingente? Como um bom leibniziano, você argumenta,

Se Deus, um ser necessário, criou o mundo, então Ele deve ter tido uma razão para fazê-lo. Esta razão, como indicada pelo PRS, deve ser uma condição necessária, ou então você precisa de uma explicação para isso. Portanto, o mundo, como um produto de um ser necessário com intenções necessárias, é também necessário.

Eu também costumava pensar que este era um bom argumento. Portanto, eu fiquei feliz que a versão de Davis do princípio da razão suficiente evita-o! Para a versão de Davis desse princípio, ao contrário da versão mais forte de Leibniz, não exige que haja uma razão pela qual Deus escolhe tudo o que Ele faz. De fato, há uma longa tradição, que remonta ao teólogo muçulmano medieval al-Ghazali, que vê a própria essência do livre-arbítrio como a capacidade de distinguir tipo de tipo, isto é, de escolher uma de duas alternativas exatamente semelhantes (por exemplo, entre ter o sistema de esferas cósmicas girar no sentido horário ou anti-horário). Assim, a versão de Davis do argumento não exige que Deus tenha uma razão (necessária) para a criação do mundo.

Mais recentemente, através da leitura do excelente trabalho de Alexander Pruss sobre o argumento de Leibniz, eu percebi que também não é de forma alguma claro que não pode haver uma explicação necessária do porquê um mundo contingente existe. Você já leu o artigo de Pruss no Blackwell Companion to Natural Theology [Companheiro Blackwell à Teologia Natural]? Você deve lê-lo! Então agora eu sou cético da própria objeção e não apenas de sua relevância para o argumento cosmológico.

Assim, as quatro categorias de seres que você lista são mais claramente rotuladas:

(a) Um ser logicamente necessário, não causado

(b) Um ser logicamente necessário, causado

(c) Um ser logicamente contingente, causado

(d) Um ser logicamente contingente, não causado

A alegação do argumento é que (a) é Deus, (b) pode ou não existir, até onde sabemos, mas depende causalmente de Deus se existe, (c) é o material que nós vemos ao nosso redor todos os dias, e (d) é vazia, uma vez que tudo o que existe tem uma explicação para sua existência. (Que grande argumento!)

Finalmente, você sugere que os quarks podem se encaixar em (d). Mas isso só é rejeitar a premissa (1) do argumento. É dizer que existem, de fato, contingentes brutos. Tudo bem, isso é o que os ateus normalmente dizem ("Se Deus não existe, o universo não tem explicação para sua existência," o equivalente lógico da premissa (2)). Mas eu acho a premissa (1) mais plausível do que não pelas razões que já expliquei em meu trabalho. O ateu apenas afirmando sua alternativa não faz nada para minar o argumento. (Quero dizer, você não esperava que ele dissesse isso, Midas?)

Grupo II

As objeções do Grupo II, de repente fazem uma reviravolta e reivindicam, ao contrário das objeções do Grupo I, que o universo existe necessariamente. Agora, observe que há uma certa hipocrisia por parte daqueles que afirmam que "o universo é necessário, no caso de o primeiro grupo de réplicas vier a falhar." Porque esta é a posição de recuo? As objeções do Grupo I aceitam que temos uma intuição confiável de contingência do universo e assim consideram a existência do universo como inexplicável, um fato bruto. Se não é plausível considerar a existência do universo como um fato bruto, por que não dizer que o universo, então, tem uma causa para sua existência? Por que em vez disso tentar tomar de volta o que já foi concedido, isto é, que o universo existe contingentemente?

Mas, para considerar as objeções sozinhas, você primeiro objeta ao meu apelo à intuição modal como justificativa, prima facie, para pensar que o universo existe contingentemente. Que temos tal intuição é indiscutível, penso eu, porque eu não consigo pensar em qualquer filósofo contemporâneo que iria defender a proposição de que o universo existe necessariamente. Isso mostra que temos uma intuição poderosa que o universo não existe por uma necessidade de sua própria natureza. Agora, a minha afirmação é modesta de que isto proporciona pelo menos justificação prima facie para pensar que o universo é contingente. Como eu escrevo em Reasonable Faith:

Em geral confiamos em nossas intuições modais em outras questões familiares (por exemplo, o nosso senso de que o planeta Terra existe contingentemente, não necessariamente, mesmo que não tenhamos experiência de sua não-existência). Se quisermos fazer o contrário com relação à contingência do universo, então o não-teísta precisa oferecer alguma razão para seu ceticismo além do seu desejo de evitar o teísmo.

Então, por que deveríamos considerar a nossa intuição de que o universo existe contingentemente como não confiável​​?

Sua réplica neste ponto parece ser que nós podemos pensar em casos em que as nossas intuições modais não são confiáveis​​: algo parece concebível, mas não é realmente possível. Portanto, não devemos confiar em nossa intuição modal da contingência do universo. O problema com esta linha de argumentação é que ela iria invalidar todas as intuições modais e resultar em ceticismo virtual sobre assuntos modais, o que certamente é um resultado improvável, para não dizer indesejável. Na verdade, isso é como argumentar que, porque há casos em que a nossa entrada sensorial não é confiável (por exemplo, uma miragem), devemos descartar a evidência de nossos sentidos.

Note, a propósito, que o cético não pode apelar para o caso da existência necessária de Deus como uma ilustração da falta de confiabilidade de nossas intuições modais sem conceder que Deus existe! Porque, se você disser que, apesar de nossas intuições modais serem de que Deus poderia deixar de existir apesar de existir necessariamente, então você acabou de admitir sua existência necessária. O teísta também não está preso na desconfortável posição de afirmar a existência necessária de Deus enquanto afirmando que sua não-existência é concebível, pois eu nego que uma vez que se entenda o conceito de Deus como um ser maximamente grande, pode-se conceber (em oposição a meramente imaginar ) Deus como inexistente. Em geral, eu acho que a sua objeção confunde imaginabilidade com conceptibilidade. Eu posso imaginar todos os tipos de coisas (por exemplo, um cavalo vindo à existência sem uma causa, ou alguém encontrando uma prova de que a Hipótese Continuum segue dos axiomas da teoria dos conjuntos tradicionais) que são metafisicamente impossíveis. Imaginabilidade não implica conceptibilidade.

Então, eu não estou pronto para abraçar o tipo de ceticismo modal que faz as objeções do Grupo II funcionarem. Nem a maioria dos filósofos.

No Reasonable Faith, eu faço a declaração modesta que temos uma intuição modal da contingência do universo e que isso proporciona justificação prima facie para pensar que não existe por uma necessidade de sua própria natureza. Eu, então, passo a dizer: "Ainda assim, seria desejável ter algum argumento mais forte para a contingência do universo do que as nossas intuições modais apenas," e eu apresento dois argumentos para a contingência do universo: em primeiro lugar, um argumento da contingência dos constituintes fundamentais do universo e, segundo, um argumento da finitude temporal do universo.

Com relação ao primeiro argumento, eu indico que ninguém pensa que os quarks são metafisicamente necessários, é rotina falar de universos operando de acordo com diferentes leis da natureza e com diferentes partículas fundamentais. Mais improvável ainda seria a sugestão de que cada quark individual que existe é uma existência independente, um ser metafisicamente necessário. Agora, eu percebo que seus céticos na verdade não afirmam uma hipótese tão estranha. Ao contrário, eles apenas tentam minar nossa confiança em nossas intuições modais. Mas, como disse acima, intuições modais não precisam ser infalíveis para podermos ter confiança em casos específicos como este.

Você não menciona qualquer resposta ao segundo argumento. Ao mostrar que o universo teve um começo mostramos que não é necessário em sua existência, bem em acordo com nossas intuições modais. Talvez você quer fechar o apelo a este argumento, dizendo: "Se o teísta é forçado a recorrer a outros argumentos, ele será pego engajando-se em um raciocínio circular." Se é isso que você quer dizer, está equivocado. Apelar a essa consideração não é petição de princípio, já que não há circularidade no raciocínio aqui.

A segunda objeção do Grupo II é semelhante a primeira na medida em que mais uma vez tenta minar a confiabilidade de nossas intuições modais amarrando nossas intuições modais à circunstâncias que mudam. Você dá alguns exemplos de pessoas pensando que algo é possível, mesmo que seja metafisicamente impossível, porque elas não estavam plenamente informadas. Agora isto é interessante. Como você pode confiar em suas intuições modais que é metafisicamente necessário que "Água é H2O" e "Peter Parker é o Homem Aranha," se nossas intuições modais não são confiáveis? Sua objeção é auto-destrutiva, uma vez que se baseia em nossas intuições modais para derrotar nossas intuições modais. Ou você acha que devemos duvidar da verdade necessária de "Água é H2O"? Eu não vejo nenhuma razão para isso. Observe que se os filósofos escolásticos soubessem que a água é H2O, as suas intuições teriam sido exatamente as mesmas que as nossas. No caso dos quarks que constituem o universo, a sugestão deveria ser que se apenas soubéssemos mais sobre eles empiricamente, descobriríamos que eles têm alguma propriedade até então não detectada que torna a sua existência metafisicamente necessária? Sem chance! Os objectores céticos estão se agarrando em palha aqui.

Em casos de intuições conflitantes, podemos não ser capazes de provar que o outro está errado. Mas isso não significa que não estamos no nosso direito de seguir o que vemos claramente. Além disso, neste caso, felizmente, não há intuições conflitantes. Não conheço nenhum filósofo ou físico que pensa que os quarks são seres metafisicamente necessários, cada um dos quais existe por uma necessidade de sua própria natureza. Não deixe que os céticos anti-teístas intimidá-lo, Midas. Suas costas estão contra a parede, e é apenas o desejo de evitar o teísmo a todo o custo que os impelem a abraçar uma visão tão extrema como a de que nenhum quark no universo poderia ter falhado em existir.

Grupo III

Por "universo" eu quero dizer o espaço-tempo e todo o seu conteúdo. Eu obviamente não incluo Deus como parte do universo, uma vez que Ele é a sua causa transcendente. Também não quero dizer apenas a nossa região do espaço-tempo e seu conteúdo. Eu tenho que confessar que eu não entendo o comentário "o 'universo' seria necessário, pois quando alguém concebe um universo diferente, eles estariam pensando em outra coisa." Para ter certeza, o universo, definido como o nosso fragmento local, não é a mesma coisa que um outro fragmento. Mas isso não faz nada para mostrar que o nosso fragmento e seu conteúdo existem necessariamente e assim não poderia ter deixado de existir.


 

Notas:

Seria melhor usar um exemplo da vida real, como "Cícero é Tully" em vez de personagens fictícios, uma vez que a maioria dos filósofos diria que sua declaração é apenas ficcionalmente verdade.

- William Lane Craig