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#228 Formulando o Argumento Moral

October 28, 2014
Q

Dr. Craig,

Eu tenho o que eu espero ser uma sugestão útil, em vez de uma pergunta. Trata-se de sua formulação do argumento moral para a existência de Deus. (Eu também devo observar que eu não posso levar o crédito pelo insight original, pois um colega estudante de graduação em filosofia o trouxe a minha atenção).

A sua formulação do argumento moral é como segue:

FORMULAÇÃO 1

1. Se Deus não existe, (também) valores e deveres morais objetivos não existem.

2. Valores e deveres morais objetivos existem.

3. Portanto, Deus existe.

O problema com este argumento é que, se a conclusão estiver correta, então [1] é uma verdade trivial. A maioria dos teístas (incluindo você) afirmam que Deus é um ser necessário. Em outras palavras, a proposição "Deus existe" é uma verdade necessária. Se isto estiver correto, então a proposição "Deus não existe" é contraditória e, portanto, uma verdade necessariamente falsa (o mesmo que dizer "O marido não é casado"). Mas tudo decorre de uma contradição. Para esclarecer, se o antecedente de uma condicional é necessariamente falso, então a condicional como um todo será sempre verdade, independentemente de qual a consequência. Assim, a condicional "Se Deus não existe, então o solteiro casado dançou com o círculo quadrado" é verdadeira.

Talvez uma maneira simples de resolver este problema seja a virada da condicional e a criação de um modus ponens:

FORMULAÇÃO 2

1*.Se existem valores e deveres morais objetivos, Deus existe.

2*.Valores e deveres morais objetivos existem.

3*.Portanto, Deus existe.

Pode-se argumentar, no entanto, que esta formulação tem seus próprios problemas. Nós queremos idealmente que a primeira premissa expresse o tipo adequado de relação entre moralidade e Deus, e pode-se argumentar que [1*] não é forte o suficiente para fazer isso. Para demonstrar isso, pegue a condicional "Se eu comi ovos e torradas esta manhã no café da manhã, então Deus existe." Esta condicional é verdade, pois cada vez que o antecedente é verdadeiro, o consequente é verdadeiro. E uma vez que eu comi, de fato, ovos e torradas no café da manhã, então eu mostrei que Deus existe! Isto é insatisfatório porque eu comer ovos e torradas realmente não tem nada a ver com a existência de Deus.

Eu acho que esse argumento é falho. Eu diria que eu comer ovos e torradas tem algo a ver com a existência de Deus, pois é impossível que eu exista ou faça qualquer coisa sem Deus. Talvez o ponto que a objeção acima esteja tentando mostrar é que ninguém aceitaria que o que eu como tenha nada ver, a menos que já acreditassem em Deus. Isso pode ser verdade para ovos e torradas, mas não é o caso com a moralidade! Sua defesa da [1*] se destina a mostrar porque HÁ uma conexão entre Deus e moralidade. Assim, a reformulação acima parece satisfatória.

Ainda há uma outra reformulação que podemos tentar:

FORMULAÇÃO 3

1`. Existem valores e deveres morais objetivos se, e somente se, Deus existe.

2`. Valores e deveres morais objetivos existem.

3`. Portanto, Deus existe.

Este argumento parece evitar algumas das preocupações que o seu argumento original enfrentava; por outro lado, eu não tenho certeza se você iria endossar [1`]. Pode-se argumentar que não é verdade que devam existir deveres morais se Deus existe. Por exemplo, pode-se afirmar que os direitos morais surgem dos comandos de Deus, e é possível que Deus não criou nada e, portanto, não emitiu qualquer comando. Talvez esta última formulação seja melhor:

FORMULAÇÃO 4

1 ~.Valores morais objetivos existem se, e somente se, Deus existe.

2 ~.Valores morais objetivos existem.

3 ~.Portanto, Deus existe.

As formulações 2 ou 4 parecem ser capazes de ser suas melhores opções. Concedido, eu estou escrevendo isso no calor do momento e posso ter perdido alguma fraqueza óbvia destas formulações. Acho que o que está realmente acontecendo no argumento moral é que você está argumentando que a crença em valores e deveres morais objetivos comete alguém a uma crença em Deus. O truque é fazer com que isso seja expresso precisamente em algumas premissas expressivas.

Eu entendo que você pode ter outras razões para manter o argumento em seu formato atual. A grande razão sendo que ninguém consideraria [1] uma verdade trivial, a menos que já aceitassem a conclusão, e o argumento é direcionado principalmente para aqueles que ainda não aceitam a conclusão. Parece, no entanto, que o argumento não deveria ser TOTALMENTE voltado para aqueles que não acreditam em Deus. Idealmente, deveria ser capaz de ser usado por teístas para confirmar a sua opinião pré-existente em Deus também. Independentemente disso, eu pensei que trazer isso a sua atenção poderia ser de alguma ajuda, e eu também espero que a discussão possa ser benéfica para outros interessados no argumento moral.

Eu aprecio e admiro o seu trabalho.

Tudo de bom,

Blake

United States

Dr. Craig responde


A

Obrigado, Blake, por seus pensamentos sobre isso! Para os leitores que não têm um conhecimento prévio em lógica, deixe-me esclarecer o problema. O cerne do problema é que, logicamente, a verdade de uma declaração "Se..., então..." é uma função do seu antecedente e cláusulas consequentes. Ou seja, a verdade de toda a declaração é determinada pela verdade de suas partes. Vamos simbolizar uma declaração "Se..., então... " como p → q. O valor de verdade p → q é uma função dos valores de verdade de p e de q. Permitindo que "V" signifique "verdade" e "F", "falso", podemos determinar o valor de verdade de p → q como segue:

p

q

p → q

 

V

V

V

V

F

F

F

F

V

F

V

V

Como você pode ver, p → q se torna falsa somente quando a cláusula antecedente é verdadeira e a cláusula consequente é falsa. (Eu sei que parece estranho, mas essa é a maneira que "→" é entendida de forma lógica.)

Então o que isso implica para a primeira premissa do argumento moral?

1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem.

Bem, uma vez que Deus não existe, a cláusula antecedente é falsa. Portanto, não importa qual a cláusula consequente, (1) acaba sendo verdade! (Olhe para a nossa tabela da verdade acima.) Por isso, também é verdade que

1'. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos existem.

Uma falsidade implica qualquer coisa! Assim, para o teísta, (1) e (1 ') são consideradas trivialmente verdadeiras ou vacuosamente verdade.

Por essa razão apenas, Blake, suas tentativas de reformular o argumento virando ou modificando as cláusulas antecedentes e consequentes realmente não ajuda muito, porque você ainda está usando a mesma verdade funcional conectiva "→".Então pegue a sua (1*), por exemplo. Uma vez que, como a nossa tabela de verdade revela, toda a declaração condicional é verdadeira se o consequente é verdadeiro, então não importa se a cláusula antecedente é verdadeira ou falsa. Assim, poderíamos ter apenas afirmado

1*.Se valores e deveres morais objetivos não existem, Deus existe.

Tal como o seu exemplo de torrada e ovos ilustra, não importa qual o antecedente; se apenas o consequente é verdade, toda a declaração se torna verdadeira.

Em última análise, eu não acho que tudo isso importa, seja pela lógica ou dialética. Logicamente, o argumento moral, como eu afirmei, permanece sólido, tendo premissas verdadeiras e sendo logicamente válido. Também não há qualquer perigo de alguém empregar uma premissa trivialmente verdadeira como (1') para formular um argumento sólido para a conclusão oposta, uma vez que a partir de (1’) e (2) nada segue logicamente. Dialeticamente, o teísta estaria em apuros somente se a única razão de ele acreditar que (1) é verdade fosse porque ele acredita que a conclusão do argumento é verdade e por isso incorre a petição de princípio. Mas nenhum proponente do argumento moral afirma que a razão porque devemos aceitar (1) é porque é trivialmente verdadeira. Ao contrário, ele apela para as razões que os próprios ateus dão para pensar que (1) é verdade. Como você observa, o ateu como Nietzsche, Russell, ou Sartre não considera (1) como meramente trivialmente verdadeira. Assim, dialeticamente, o teísta está em uma posição confortável para apresentar esse argumento para não-teístas.

De qualquer forma, devo dizer que acho que (1) é na verdade uma contrafactual disfarçada. Estas são declarações "Se..., então..." do modo subjuntivo, ao invés do indicativo. Assim, a premissa não-trivialmente verdadeira é na verdade

1''. Se Deus não existisse, então valores e deveres morais objetivos não existiriam.

Em outras palavras, se não houvesse Deus, isto é, se o ateísmo fosse verdade, então não haveria valores e deveres objetivos. Ao contrário de declarações condicionais no modo indicativo, o valor de verdade de uma contrafactual não é uma função de suas cláusulas constituintes. A contrafactual conectiva é simbolizada “”, a fim de diferenciá-la de "→". Não é um conectivo funcional de verdade. Então, (1'') não é apenas trivialmente verdadeira em virtude da falsidade da sua cláusula antecedente. A conclusão, então, segue a partir de (1'') e (2), como antes.

Mas aqui surge um novo problema. Você vai notar que, até agora, eu não abordei suas preocupações modais, preocupações sobre a falsidade necessária da cláusula antecedente. Aqui essas preocupações se tornam relevantes. Porque, se cremos, como eu creio, que Deus é um ser metafisicamente necessário, então a cláusula antecedente de (1'') não é apenas falsa, mas necessariamente falsa, ou seja, impossível. Mas na semântica habitual para condicionais contrafactuais, contrafactuais com antecedentes impossíveis são trivialmente ou vacuosamente verdade. Isto quer dizer, na semântica habitual também é trivialmente verdade que

1'''. Se Deus não existisse, então valores e deveres morais objetivos existiriam.

Parece que estamos de volta exatamente onde começamos!

Felizmente, um bom número de filósofos hoje justamente reconhece que algumas contrafactuais com antecedentes impossíveis são não-trivialmente verdadeiras ou falsas. Por exemplo, o teísta vai dizer que é claramente não-trivialmente verdadeiro que

4. Se Deus não existisse, o universo não existiria.

e é não-trivialmente falso que

5. Se Deus não existisse, o universo ainda existiria.

Tais contrafactuais são às vezes chamadas contrapossíveis. No caso do argumento moral, eu acho que (1'') é um verdadeiro contrapossível.

Isso tem ocasionado algumas discussões ultimamente. Em seu recente livro Good God [Deus Bom] (OUP, 2011) defendendo tanto Moralidade do Comando Divino e o argumento moral para a existência de Deus (recomendação para todos os interessados no argumento moral), Jerry Walls e David Baggett discernem a natureza contrafactual da minha primeira premissa e expressam reservas sobre formular o argumento moral de tal forma, pois admite demais para o não-teísta, ou seja, que ainda haveria um mundo de agentes pessoais, agindo da maneira como agimos, se Deus não existisse. Em vez disso, eles querem formular o argumento como uma inferência para a melhor explicação: a melhor explicação de valores e deveres morais objetivos é que Deus existe.

Enquanto eu não tenho problema com o argumento moral formulado como uma inferência para a melhor explicação, não partilho as reservas deles sobre a minha formulação e, na verdade, eu acho que quando se mostra que a melhor explicação de valores e deveres morais objetivos é Deus, quase inevitavelmente acaba-se argumentando que explicações ateístas não são tão boas, porque, dado o ateísmo, valores e deveres morais objetivos plausivelmente não existiriam. Por exemplo, Walls e Baggett posteriormente em seu livro entram precisamente neste tipo de argumentação, alegando,

Nietzsche é um exemplo de alguém que foi a fundo chegando às implicações que seguem de rejeitar a existência de Deus. Há algo refrescantemente ousado e honesto sobre a maneira como ele viu entre tais implicações uma revisão radical dos valores tradicionais e a perda das bases necessárias para a moralidade classicamente interpretada.... Enquanto Nietzsche compreendeu os fundamentos transcendentes da moralidade clássica e as implicações do ateísmo, ateus contemporâneos que pensam que Deus pode ser eliminado sem dor da nossa ontologia e ainda permanecerem sentimentais sobre o discurso moral, não levam Nietzsche a sério o suficiente (pp. 202-3).

Mas essas implicações Nietztscheanas são exatamente o que (1''') afirma! Minha formulação do argumento tem a vantagem dialética de encontrar-se com o ateu onde ele está, e perguntando se a moralidade seria objetiva se Deus não existisse. Nós não queremos que o argumento moral, afinal de contas, se funda com o argumento cosmológico, dependente de afirmar algo como (4). Queremos que ele fique em pé sozinho, como um argumento independente. Portanto, não há nada de errado em permitir ao ateu a suposição impossível de que vivemos em um mundo ateísta e, então, perguntar se existiriam valores e deveres morais objetivos.

Então, se essa é a formulação correta da primeira premissa do argumento moral, por que não posso apresentá-lo dessa forma? Bem, já brinquei com a ideia. Mas eu acho que o uso de condicionais subjuntivas só iria confundir as audiências populares. Como você observa, os problemas que estamos discutindo são exclusivos para o teísta, porque ele considera a existência de Deus como metafisicamente necessária. Mas isso é dialeticamente irrelevante ao apresentar o argumento para não-crentes, que não compartilham, é claro, dessa suposição. Nenhum não-teísta irá abrigar tais reservas sobre o argumento, porque ele não acredita que Deus existe. Assim, por uma questão de simplicidade e porque não afeta nada, eu continuo a apresentar o argumento utilizando condicionais no modo indicativo.

- William Lane Craig