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#707

March 23, 2021
Q

Quais são os problemas com o naturalismo? Na superfície, o naturalismo parece bem claro. Trata-se de uma visão materialista que afirma ser o mundo natural tudo que existe. Pode ser concebido como uma postura polêmica contra a existência de deuses, espíritos, demônios e mágica. No fim das contas, resume-se a uma variação de “o que vemos é o que temos”. Há coisas naturais e leis físicas, e tudo que nos diz respeito resume-se a esses dois.

No entanto, há quem fale como se o naturalismo não fosse apenas errado ou problemático, mas demonstravelmente incoerente, uma cosmovisão que serve de porta de entrada para o desespero total e a tirania política global. Poderia explicar como o naturalismo faz algo assim? Esta aqui é citação sua:

“Além disso, o naturalismo enfrenta problemas severas por si só. O filósofo Alvin Plantinga defendeu de modo convincente que o naturalismo não pode sequer ser afirmado racionalmente. Isto porque, se o naturalismo fosse verdade, a probabilidade de que as nossas faculdades cognitivas seriam confiável é baixíssima, pois essas faculdades foram moldadas por um processo de seleção natural que não seleciona para a verdade, mas simplesmente para a sobrevivência. Há muitas maneiras em que um organismo poderia sobreviver sem que as suas crenças fossem verdade. Portanto, se o naturalismo fosse verdade, não poderíamos ter nenhuma confiança de que nossas crenças são verdadeiras, incluindo a crença no próprio naturalismo! Assim, o naturalismo parece ter um derrotador embutido que o torna incapaz de ser afirmado racionalmente.”

Esse “problema severo” parece trivial e, talvez, irrelevante. Primeiramente, o naturalismo é afirmado pela razão, bem como dados e método empíricos. O fundamento para o naturalismo se estende para além de uma série de premissas e conclusões que existem somente num tratado filosófico. Em segundo lugar, não parece nem um pouco relevante se o naturalismo pode ser afirmado racionalmente; o importante no naturalismo é o seu fundamento empírico. Temos fundamento empírico para o naturalismo. Será que proponentes de visões rivais têm sustentação empírica delas? Mais uma vez, quero dizer: quais são os dados em apoio a essas visões não-naturalistas? Em terceiro lugar, talvez eu esteja vendo coisa demais nas suas observações, mas me parece mesmo que o senhor está avaliando o naturalismo com base no seu desejo de que um modelo diferente seja verdade. Em outras palavras, o senhor me parece emocionalmente envolvido num ponto de vista que não seja o naturalismo.

Por isso, pergunto se há algo mais à crítica do naturalismo que desconheço. Será que alguém tem argumentos sólidos como parte dessa crítica?

Anônimo

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Na superfície, o naturalismo parece uma visão perfeitamente plausível e sem problemas. “O que você vê é o que você tem!” O que pode ser mais simples do que isso? Porém, filósofos sabem que o naturalismo é cosmovisão controversa, difícil de articular, muito mais de defender. Embora eu não queira me deter nisso, a sua própria formulação do naturalismo é incoerente: “Trata-se de uma visão materialista que afirma ser o mundo natural tudo que existe... Há coisas naturais e leis físicas, e tudo que nos diz respeito resume-se a esses dois”. O problema é que leis físicas, por serem entidades matemáticas, não são materiais, mas abstratas. Assim, a sua visão não é materialista, no fim das contas, e o mundo natural não é tudo que existe: você tem uma realidade bifurcada composta de coisas naturais e leis matemáticas, uma bifurcação que se demonstrará problemática em si mesma. Nesta resposta, vamos nos concentrar nos assuntos que você apresenta.

Começando do fim, admito tranquilamente que estou “emocionalmente envolvido” com o teísmo. Como é que não o seria, uma vez que Deus mudou a minha vida? Os naturalistas podem estar, da mesma maneira, envolvidos emocionalmente com o naturalismo. Thomas Nagel tem esta frase famosa: “Quero que o ateísmo seja verdade e fico desconfortável com o fato de que algumas das pessoas mais inteligentes e bem informadas que conheço sejam religiosas... Espero que Deus não exista! Não quero que Deus exista; não quero que o universo seja assim”.[1] Reconhecer o envolvimento emocional próprio, em vez de negá-lo, é o primeiro passo para não ser iludido por ele e para conseguir avaliar argumentos de modo objetivo. O seu próprio envolvimento emocional no naturalismo fica evidente com a sua atitude indiferente diante do argumento de Plantinga segundo o qual o naturalismo não pode ser afirmado racionalmente. Quem quer que descarte um argumento que mostra que uma visão é “incapaz de ser afirmada racionalmente” como se ele fosse “trivial” e “irrelevante” ou não entendeu nada ou está cegado pelo preconceito.

Será que o naturalismo é “uma cosmovisão que serve de porta de entrada para o desespero total”? Muitos naturalistas, como Nietzsche, Russell e Sartre, para citar alguns dos mais famosos, pensavam que sim. Acho que estão certos. A razão é que, dado o naturalismo, é muito difícil mostrar, na ausência de Deus, que existem sentido, valor e propósito objetivos na vida.[2] Portanto, a conclusão de que o ateísmo é verdade leva ao desespero, ao menos para a pessoa reflexiva, uma vez que é impossível viver de uma forma feliz e coerente se a sua vida não tem sentido, valor e propósito.

O seu descarte despreocupado do argumento evolutivo contra o naturalismo formulado por Plantinga foi rápido demais. No caso, uma dose de humildade intelectual ia bem. Um argumento apresentado e refinado por um gênio como Plantinga, além de debatido calorosamente por filósofos em revistas especializadas, não é nem um pouco trivial ou irrelevante. Se você pensa assim, deveria imediatamente suspeitar que não entendeu direito o argumento. Plantinga defende que o naturalismo é contraditório, pois, se as nossas faculdades cognitivas evoluíram por processos naturalísticos, eles visam à sobrevivência, e não à verdade, não se podendo, portanto, depender delas para produzir crenças verdadeiras. Uma vez que, segundo o naturalismo, os nossos estados mentais não têm absolutamente nenhum efeito em nossos estados cerebrais, o conteúdo das nossas crenças é irrelevante à nossa sobrevivência. Contudo, se não podemos depender de nossas faculdades cognitivas para produzir crenças verdadeiras, a própria crença no naturalismo é solapada, já que foi produzida por essas mesmas faculdades cognitivas.

O argumento de Plantinga pode ser, simplesmente, formulado assim:[3]

1. A probabilidade de que as nossas faculdades cognitivas sejam confiáveis, dado o naturalismo e a evolução, é baixa.

2. Se alguém acredita no naturalismo e na evolução e vê que, portanto, é baixa a probabilidade de que as suas faculdades cognitivas sejam confiáveis, tem-se aí um derrotador da crença de que as suas faculdades cognitivas sejam confiáveis.

3. Se alguém tem um derrotador para a crença de que as suas faculdades cognitivas são confiáveis, tem-se também um derrotador de qualquer crença produzida por suas faculdades cognitivas (incluindo a sua crença no naturalismo e evolução).

4. Logo, se alguém acredita no naturalismo e na evolução e vê que, portanto, é baixa a probabilidade de que as suas faculdades cognitivas sejam confiáveis, tem-se aí um derrotador da sua crença no naturalismo e na evolução.

Conclusão: o naturalismo e a evolução não podem ser aceitos racionalmente.

Este argumento, se válido, é devastador. Mostra que nenhuma pessoa racional pode ser naturalista.

Ora, como você responde a este argumento? Considere os seus três pontos:

1. O naturalismo é afirmado pela razão, bem como dados e método empíricos. Espero que você consiga ver que o argumento de Plantinga minou essa afirmação; de fato, toda a energia do argumento está em mostrar que a razão e as provas não conseguem dar amparo ao naturalismo, porque o naturalismo solapa o nosso uso da razão e das provas. Mostra que, dado o naturalismo, não se pode confiar nas nossas faculdades cognitivas.

2. Não parece nem um pouco relevante se o naturalismo pode ser afirmado racionalmente; o importante no naturalismo é o seu fundamento empírico. Esta resposta revela que você entendeu mal o argumento inteiro. Se o naturalismo não pode ser afirmado racionalmente, não há fundamento empírico para ele. Pois, se as nossas faculdades cognitivas não são confiáveis, não se pode confiar nas nossas percepções do mundo externo, e solapa-se o fundamento empírico para o naturalismo.

Você pergunta: “Será que proponentes de visões rivais têm sustentação empírica delas?” Sim. Convido-o a considerar os diversos argumentos para a existência de Deus que defendo, muito bem resumidos em breves vídeos animados disponíveis na nossa página virtual. Aqui vão algumas das premissas que gozam de apoio empírico:

Tudo que é contingente tem uma causa para a sua existência.

O universo começou a existir.

O ajuste fino do universo não se deve à necessidade física ou ao acaso.

Fenômenos físicos podem ser descritos com precisão incrível por leis matemáticas.

Há três fatos estabelecidos sobre o destino de Jesus de Nazaré: o seu sepulcro vazio, as suas aparições pós-morte e a crença dos seus primeiros discípulos de que Deus o ressuscitara dentre os mortos.

Outras premissas gozam, se não de apoio empírico dos cinco sentidos, de apoio da experiência:

Valores e deveres morais objetivos existem.

É possível que um ser maximamente grande exista.

O argumento a partir da aplicabilidade da matemática tem relevância especial para você. Mencionei acima a sua visão bifurcada do mundo, envolvendo uma esfera material de objetos físicos e uma esfera abstrata de leis matemáticas. Um dos problemas mais profundos do naturalismo é explicar como essas duas esferas de realidade independentes se relacionam e entram em contato uma com a outra. O teísmo oferece uma solução bem acabada para este problema. Talvez você queira assistir ao meu diálogo sobre esta questão com sir Roger Penrose, ganhador do prêmio Nobel de física.

Estes são apenas alguns dos problemas enfrentados pelo naturalismo. Para mais problemas, você pode se debruçar sobre o meu livro em co-autoria com J. P. Moreland: Naturalism: A Critical Analysis, Routledge Studies in Twentieth-Century Philosophy (Londres: Routledge, 2000).

 

[1] Thomas Nagel, The Last Word (Oxford: Oxford University Press, 1997).

[3] Segundo Alvin Plantinga, Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism (Oxford: Oxford University Press, 2011), pp. 344-345 [publicado em português como Ciência, religião e naturalismo: onde está o conflito? (São Paulo: Vida Nova, 2018)].

- William Lane Craig