#20 O argumento kalam e as causas cósmicas múltiplas
July 11, 2012Olá, Dr. Craig,
Estou lendo o seu livro “The Kalam Cosmological Argument” [O argumento cosmológico kalam] e acho-o bem persuasivo. Entretanto, gostaria de saber como o senhor responderia às respostas das “muitas causas”? Seria possível haver mais do que uma causa eficiente do universo?
Saudações,
Doug
United States
Dr. Craig responde
A
Devo confessar que nunca senti o peso dessa objeção, Doug. Ela me faz lembrar da objeção ao argumento teleológico, segundo a qual ele só prova a existência de um Projetista do Cosmo, mas não, necessariamente, a de um Criador. Se as pessoas achassem mesmo que houve um Projetista do universo ficariam espantadas e estupefatas diante da possibilidade, não ficariam se queixando de que ele não poderia ser também o Criador. De modo semelhante, nesse caso, queixar-se de que não sabemos, com base no argumento cosmológico kalam, se o Criador pessoal do universo é único ou não parece uma trivialidade total em comparação com aquilo que o argumento prova. Quem está buscando a verdade achará aqui, não um atalho do argumento, mas um incentivo para investigar com mais profundidade.
Caso se conseguisse provar que a causa da origem do universo é onipotente, acho, então, que seria possível produzir com sucesso um argumento a favor da singularidade da causa, com base na impossibilidade da existência de uma miríade de seres onipotentes. Para mim, porém, não é óbvio que a causa do universo tem de ser onipotente. Talvez haja aqui um argumento da creatio ex nihilo — Duns Scotus defendia que, visto que há uma distância infinita entre ser e não ser, seria necessário um poder infinito para criar o universo a partir do nada. Ele poderia alegar que não é possível ter poder maior do que o poder de criar ex nihilo. Acho esse argumento bastante sedutor, mas não estou totalmente convencido. Portanto, essa é uma área que demanda uma exploração mais profunda.
O argumento kalam é obviamente não consistente com a existência de um grupo de divindades fazendo acrobacias uns com os outros antes da criação do mundo, visto que o argumento nos remete ao estado imutável que, segundo penso, é atemporal. Imaginar um grupo de mentes incorpóreas e atemporais atuando, sabe-se lá como, totalmente em conjunto para criar o mundo aproxima-se demasiadamente da doutrina da Trindade. O conceito trinitário (ou unitário) de Deus parece muito mais plausível do que os muitos deuses do politeísmo, existindo todos eles de modo independente e atemporal, e trabalhando de comum acordo para criar o universo.
Isso posto, parece-me que o proponente do argumento kalam apelará com toda razão para a navalha de Ockham: não se deve multiplicar as causas além do necessário. Uma causa é aceitável apenas para supor as causas necessárias que explicam o efeito. No caso da origem do universo, precisa-se só de um Criador pessoal ultramundano, pois seria desnecessário supor mais de um.
Além disso, é preciso lembrar que a nossa defesa a favor do teísmo é acumulativa e a singularidade de Deus é dada por outros argumentos diferentes, como o argumento leibniziano da contingência, o argumento moral e o argumento ontológico. Ademais, temos boas razões para crer na reivindicação radical de Jesus de Nazaré, de ser a revelação definitiva de Deus, e Jesus ensinou o monoteísmo: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Deus”.
- William Lane Craig