#21 Hinduísmo e moralidade
July 11, 2012Caro Craig,
No seu argumento moral, o senhor afirma que a natureza absolutamente santa de Deus (que existe a despeito da criação do mundo) fornece a base para a moralidade. Ouvi o argumento de que Deus não é bom nem mau (fora da criação, é apenas o Princípio Puro). Eis como o argumento se apresenta, e peço que comente a respeito, por favor:
Os mandamentos de Deus vêm DEPOIS de ele determinar a própria natureza com relação ao homem. Se não houvesse nenhuma criação, nenhuma manifestação, e houvesse somente o Princípio Puro, não poderia existir nenhuma qualidade “específica” que se pudesse mencionar (Nirguna), já que o Princípio contém em si mesmo TODA a infinitude de qualidades e potenciais sem que nenhum desses seja “atualizado”. É somente no ponto da criação ou da manifestação (que é um ato da vontade) que certas quantidades são expressas (Saguna), passando a constituírem a natureza de Deus com relação ao homem e ao universo. Não há nada de arbitrário acerca dessa determinação com relação ao homem, pois a própria criação/manifestação decorre dela, e o homem não poderia ser do modo como é, nos termos da sua constituição moral, se o universo inteiro não se conformasse com a moralidade assim determinada. Com relação ao nosso universo particular ou ao nosso estado de existência, a natureza de Deus pode ser adequadamente descrita como “imutável”.
A arbitrariedade (ou não arbitrariedade) da mortalidade em si é uma “qualidade de determinação” que “passa a existir” ou é “atualizada” somente no ponto da criação/manifestação. Não existe qualidade além desse ponto, porque o Princípio Supremo é, no sentido mais pleno das palavras, indescritível, inexprimível, indefinido, infinito, desprovido de qualidade (Nirguna, porque é em si mesmo Qualidade Pura). A razão está enraizada em nossa existência individual (ou criada/manifestada), mas o que a transcende é o Espírito de Deus em nós, ou o Intelecto Divino que nos permeia. A razão, por ser relativa, está limitada a entender as coisas por contraste (dualidades) e exclusividade, daí a diferença entre arbitrariedade e não arbitrariedade, ou o paradoxo entre livre-arbítrio e predestinação. No nível do absoluto, essas distinções desaparecem, todos os paradoxos são resolvidos e perdura apenas a singularidade máxima do Princípio.
Matar recém-nascidos, estuprar, etc., são ações “possíveis/potenciais” que não podem ser descritas como arbitrárias (ou não arbitrárias) do ponto de vista do Princípio incriado/não manifestado porque nem mesmo essa “qualidade” (arbitrariedade) ou “valor” não foi ainda criada/manifestada. A criação/manifestação resulta em duas coisas: a “atualização” de um mundo particular, com todas as suas leis, eventos e seres, e a atribuição de valores (qualidades) a cada um. Esses dois conceitos estão em conformidade, pois se matar recém-nascidos, estuprar, etc., fossem “atualizados” como ações boas ou benéficas para o homem, também lhe seriam atribuídos valores de bondade e benevolência. No caso de nosso estado particular criado/manifestado, essas ações machucam, ferem e causam sofrimento e, por isso, em harmonia com os valores que lhes foram atribuídos, são negativas, abomináveis e malignas.
Sunil
United States
Dr. Craig responde
A
Deduzo que, quem lhe apresentou esse argumento, chegou a essas perguntas a partir de uma perspectiva hindu.
Ora, sempre é necessário se perguntar: “Que premissa do meu argumento o opositor nega?”. De outra sorte, é possível, especialmente num caso assim, distrair-se em razão de toda a verborreia. É evidente que quem contesta não nega a primeira premissa do argumento moral, conforme a configurei:
1. Se Deus não existe, não existem valores e deveres morais objetivos.
Visto que ele nada diz sobre qual seria a situação acerca da moralidade — caso o ateísmo fosse verdadeiro.
Antes, pelo contrário, é evidente que ele nega isto:
2. Valores e deveres morais objetivos existem.
Afinal, afirma que àquilo que ele denomina de “Deus”, o Princípio Supremo, está além de todas as distinções, inclusive a do bem e do mal. As distinções entre bem e mal, certo e errado, são meras aparências, resultantes da operação da razão humana, que precisa pensar em dualidades e exclusividade (em outras palavras, a lei da contradição!).
Acho importante que segundo a sua visão o Princípio Supremo esteja além da distinção entre arbitrário e também não arbitrário. Mas isso não preserva a objetividade de valores e deveres morais. Afinal, nada existe, anterior à determinação do Princípio Supremo, que defina que as distinções morais devem ser de um jeito ou de outro. Se a determinação decorre da vontade (o que acho incoerente, já que o Princípio Supremo é uma entidade impessoal; mas vamos deixar isso para lá), então se trata de uma vontade cega. Isso não passa de puro voluntarismo. Aquilo que o opositor chama de “Deus” não tem nenhuma natureza anterior à determinação dele mesmo. Não há razão por que o Princípio Supremo deva manifestar-se de uma maneira tal que matar crianças seja certo e amá-las seja errado.
Uma vez mais, acho importante que, na percepção dele, “o homem não poderia ser do modo como é, nos termos da sua constituição moral, se o universo inteiro não se conformasse com a moralidade assim determinada.” Mas ainda resta a questão de que não há razão para que o universo e sua moralidade sejam determinados do modo que são, uma vez que o Princípio Supremo é desprovido de qualidade. Portanto, a imutabilidade da aparência é irrelevante; resta a questão de que é uma mera aparência, ainda que imutável.
Portanto, em harmonia com o hinduísmo Advaita Vendanta, quem levanta a objeção não aceita a Premissa 2.
Vista sob essa luz, a perspectiva do opositor é moralmente inescrupulosa. Ela nos obrigaria a dizer que nenhuma ação capaz de ser realizada é objetivamente má, nem há nada que alguém faça que, do ponto de vista moral, seja bom ou digno de louvor. Portanto, temos fundamentos morais legítimos para rejeitar a visão vedantista acerca de Deus. Poderíamos argumentar:
3. Se o hinduísmo Advaita Vedanta for verdadeiro, valores e deveres morais objetivos não existem.
4. Valores e deveres morais objetivos existem.
5. Logo, o hinduísmo Advaita Vedanta é falso.
Assim, o próprio argumento que estamos tratando fornece os fundamentos morais válidos para rejeitarmos a visão do opositor sobre aquilo que ele chama de “Deus”.
De fato, quando se pensa a respeito, do ponto de vista do opositor, até mesmo a distinção entre o Princípio Supremo e o mundo é totalmente ilusória. Não devemos nos deixar iludir por ele usar palavras como “Deus”, “criação”, e outras do tipo, pois esses termos não têm o mesmo significado num contexto panteísta. Portanto, a visão do opositor nos envolve não somente no ilusionismo moral, mas compromete-nos ainda mais radicalmente com o ilusionismo moral a respeito do mundo, de nós mesmos e de tudo aquilo que vivenciamos! Não consigo imaginar uma cosmovisão mais implausível do que essa.
Na verdade, a visão do opositor contradiz a si mesma de modo gritante, pois ele afirma que “o Princípio Supremo é, no sentido mais pleno das palavras, indescritível, inexprimível, indefinido, infinito, desprovido de qualidade.” Mas isso é exatamente descrever o Princípio Supremo, atribuir-lhe certas qualidades! De fato, o opositor consegue de alguma maneira nos dizer muita coisa sobre o Princípio Supremo, refutando a si mesmo de modo evidente — lição que certos teólogos cristão equivocados fariam bem se prestassem atenção (veja meu artigo “Pantheists in Spite of Themselves?: Pannenberg, Clayton, and Shults on Divine Infinity” [Panteístas a despeito de si mesmos: Pannenberg, Clayton e Shults tratam da infinitude divina] em “Scholarly Articles: Christian Doctrines” [Artigos acadêmicos: doutrinas cristãs] neste site)!
Finalmente, a visão do opositor refuta a si mesma de outra maneira, a saber, se a razão humana “está enraizada em nossa existência individual (ou criada/manifestada)” e, pelo fato de “ser relativa, está limitada a entender as coisas por contraste (dualidades) e exclusividade”, então, a razão não é confiável para nos dizer qualquer coisa sobre a natureza da realidade. Não podem existir fundamentos racionais para considerar que a visão do opositor seja verdadeira, porque, se for verdadeira, a própria razão estaria equivocada. Por conseguinte, a sua visão não pode ser afirmada racionalmente.
Veja uma crítica mais profunda em Robin Collins, “Eastern Religions”, em: Michael J. Murray (org.). Reason for the Hope Within. Grand Rapids, Mich.: William B. Eerdmans, 1999, p. 188-192. Cf. “Alvin Plantinga’s critique of John Hick’s notion of the ineffable Real”, em: Alvin Plantinga. Warranted Christian Belief. Oxford: Oxford University Press, 2000, p. 49-55. Veja também: Stuart C. Hackett. Oriental Philosophy: A Westerner’s Guide to Eastern Thought. Madison, Wis.: University of Wisconsin Press, 1979.
- William Lane Craig