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#159 O Argumento Ontológico Incorre em Petição de Princípio?

October 28, 2014
Q

Caro Dr. Craig,

Como cristão, em primeiro lugar gostaria de lhe agradecer por seu trabalho! É extremamente animador ver uma defesa tão sólida do cristianismo em nosso mundo secular e pluralista. Minha pergunta é sobre o argumento ontológico modal de Platinga, que você usa. Plantinga define um ser maximamente excelente sendo como um ser com as propriedades de onipotência, onisciência, etc, e um ser maximamente grande como um que existe em todos os mundos possíveis. Agora, se nós usarmos G como a proposição "Um ser maximamente excelente existe", o argumento de Plantinga se reduz ao seguinte na lógica modal. Para os leitores não familiarizados com operadores modais, "à" significa "é possível que" e "□" significa “é necessário que".

1. à□G [Premissa]

2. à□G ® □G [axioma S5]

3. □G [1, 2]

4. □G ® G [axioma S5]

5. G [3, 4]

(1) ["É possível que seja necessário que um ser maximamente excelente exista"] parece bastante modesto. No entanto, ao fazer pesquisa para o argumento, descobri que a vinculação corre para o outro lado. Em outras palavras:

□G ® à□G também é verdade por causa do axioma S5. Então isso implica que à□G ® □G. Porque (1) e (3) são logicamente equivalentes, o argumento se reduz a:

1. □G [Premissa]

2. □G ® G [axioma S5]

3. G [1, 2]

Mas isso não carrega força alguma já que ninguém vai aceitar a primeira premissa a menos que aceitem a conclusão! Uma vez que está claro que "possivelmente necessário" é a mesma coisa que "necessário", o argumento perde sua força, pois não parece haver nenhuma maneira de convencer o ateu que Deus existe necessariamente. Na verdade, ele se oporia a tal noção já que não há contradição lógica em dizer "Deus não existe".

Eu realmente gosto do argumento ontológico modal, mas é por causa dessa objeção que agora eu acho que é insustentável. Existe alguma maneira de resolver este problema?

Obrigado e que Deus abençoe,

PB

United States

Dr. Craig responde


A

A pergunta de se temos garantia independente para acreditar na primeira premissa do argumento ontológico é, certamente, a pergunta crucial enfrentando o proponente do argumento. Esta premissa afirma que é possível que um ser maximamente grande exista, onde "grandeza máxima" é entendida como sendo a propriedade de ter excelência máxima em todos os mundos possíveis. A questão, então, é se a grandeza máxima é possivelmente exemplificada.

PB, eu acho que posso resolver o seu problema com o argumento. Em primeiro lugar, a sua reconstrução do argumento está errada. Isto é evidente porque você acaba com a conclusão contingente (5): "Um ser maximamente excelente existe." Mas o argumento ontológico pretende mostrar que um ser maximamente grande existe, alguém cuja existência é necessária. Você deveria ter parado a reconstrução do argumento com o passo (3): □G.

Em segundo lugar, você confunde necessidade de re com necessidade de dicto. Necessidade de re é a necessidade de uma coisa (res); necessidade de dicto é a necessidade de uma declaração (dictum). A primeira premissa do argumento ontológico afirma que certa declaração é possível, ou seja, a declaração de que um ser maximamente grande existe ou que a grandeza máxima é exemplificada. Não é a declaração: "É possível que seja necessário que um ser maximamente excelente existe." Essa declaração envolve a interação de duas modalidades de dicto. Se permitimos que G seja a proposição "Um ser maximamente grande existe", a primeira premissa deveria ser simbolizada: □G.

Terceiro, você confunde equivalência lógica com sinonímia. Dizer que "Possivelmente, um ser maximamente grande existe" é, de fato, logicamente equivalente a dizer que "Possivelmente, é necessário que um ser maximamente excelente exista." Mas essas declarações não significam a mesma coisa. É o significado de uma declaração que é relevante para o seu status epistemológico para nós, não as suas vinculações lógicas. Uma afirmação pode parecer verdade para nós, apesar de sabermos de suas implicações lógicas. Portanto, é um erro dizer que "'possivelmente necessário' é a mesma coisa que 'necessário'", se por "é" você quer dizer "significa". Então é um erro também pensar que porque à□G ® □G, a primeira premissa do argumento se "reduz" a □G. Não é uma questão de redução, mas dedução! O ponto central do argumento ontológico é mostrar que em afirmar a possibilidade da existência de um ser maximamente grande uma pessoa comprometeu-se com a sua existência real. A natureza de um argumento dedutivo é que a conclusão é implícita, escondida, por assim dizer, nas premissas, à espera de ser explicitado por meio das regras lógicas de inferência. Alguém normalmente acredita que à□G sem primeiro crer que □G; pelo menos não é preciso primeiro acreditar que □G e, em seguida, com base nela inferir que à□G. As intuições modais de alguém podem apoiar a crença de que à□G, e, em seguida, pode perceber que isso é logicamente equivalente a, e assim implica que, □G, e assim chega a crença que um ser maximamente grande existe.

Em poucas palavras: a equivalência lógica da conclusão do argumento ontológico para a sua primeira premissa só mostra que ele é um argumento dedutivo válido, que não incorre a petição de princípio.

Quanto à réplica do ateu de que não é autocontraditório dizer: "Deus não existe", isso é irrelevante, porque o argumento é enquadrado em termos de lógica ampla de possibilidade/necessidade, não por lógica de possibilidade/necessidade estrita ou limitada. Não há nenhuma contradição em afirmar "O Primeiro-Ministro é um número primo", mas que dificilmente mostra que tal afirmação é possivelmente verdadeira no sentido relevante (que há um mundo possível em que essa afirmação é verdadeira). O ateu tem de defender que a ideia de grandeza máxima é ampla e logicamente incoerente, como a ideia de um solteiro casado. Mas a ideia de grandeza máxima parece perfeitamente coerente e, portanto, possível, o que implica que a grandeza máxima é exemplificada!

- William Lane Craig