#28 O ateu tem de ser onisciente? — revisitado
July 12, 2012Acabei de ler sua réplica à pergunta “O ateu tem de ser onisciente?”. Embora concorde com algumas de suas conclusões, outras fazem pouco sentido, e como ateu que se interessa por religião (como observador, evidentemente), gostaria de lhe fazer algumas perguntas de checagem.
Primeiramente, precisamos diferenciar entre ateísmo forte e ateísmo fraco. O ateísmo forte afirma que Deus não existe. Logicamente, essa posição, como você destaca, não se sustenta. O ateísmo fraco, porém, afirma que é improvável que Deus exista e por isso não há sentido em adorá-lo. A aposta de Pascal, obviamente, diz o contrário, mas não consegue enxergar a absoluta diversidade de deuses diferentes e assim acaba provando que o ateísmo é a ideia mais razoável.
Portanto, vamos ao ônus da prova. Na qualidade de ateu fraco, digo que o ônus da prova cabe a você, já que não posso provar uma negativa. Você provê de imediato um exemplo disso quando declara que “nenhum micróbio na Terra tem cérebro”. É óbvio que está certo, mas não pode provar o que diz. Para prová-lo, teria de reunir e examinar no microscópio cada micróbio da terra. Além disso, jamais poderia saber se teria deixado escapar um. Nesse caso, você é o ateu defendendo uma negativa. Como o teísta do caso eu poderia provar que você está errado achando e mostrando-lhe um micróbio com cérebro. Minha incapacidade para demonstrar isso enfraquece minha posição e agrega credibilidade à sua.
Quase da mesma maneira, você avança na sua argumentação afirmando que “nenhum senador dos eua é muçulmano”, declarando novamente uma negativa. Tudo que tenho a fazer, como o “teísta”, nesse caso, é descobrir um único senador dos eua praticante do islamismo. É evidente que não há nenhum, e isso fortalece a sua posição e enfraquece a minha.
Deixe-me agora assumir a posição do ateu e lhe atribuir a do teísta. Quando eu afirmo que “quase com certeza não existe nenhum deus”, estou declarando uma negativa. Tudo que você precisa fazer para me refutar e enfraquecer a minha posição é mostrar-me um deus. Qualquer deus serve, não tem de ser o deus cristão. Thor ou Anubis servem perfeitamente.
A incapacidade do cristianismo, em particular, (sou de um país nominalmente cristão, o Reino Unido) e da religião, em geral, para provar que estou errado, a despeito de toda minha busca, enfraquece a defesa cristã.
Quando procuramos por provas de Deus nas Escrituras, encontro crueldade, contradições e erros descarados. A apologética tenta reconciliar essas coisas com a fé, mas há uma maneira mais fácil de explicá-las. A bíblia não é divinamente inspirada, deus não guiou os israelitas. Milagres não existem (exceto se você definir milagre como uma enorme coincidência ou sorte), e deus não existe. Essa é uma declaração negativa, logo tudo que você precisa fazer para contestá-la é fornecer evidências para cada uma das declarações acima.
Muitos ateus, e especialmente a maior parte do novo grupo de ateus, simplesmente não veem nenhuma razão para acreditar em Deus. Fomos dotados de ferramentas para raciocinar, mentes inquisitivas e boa educação escolar e julgamos a religião da mesma maneira que julgamos tudo o mais. Ela, simplesmente, não consegue convencer.
Assim, vamos à minha pergunta (finalmente). Como ateu, declaro que deus, e o seu deus em particular, não existe. Que prova, evidência ou argumento você pode fornecer para convencer-me do contrário?
Oliver
United States
Dr. Craig responde
A
Fico feliz que você tenha escrito, Oliver, e valorizo o espírito de sua carta. Vamos pensar nisso juntos e ver se não podemos chegar a alguma concordância ao menos nas questões preliminares, antes de discutirmos os argumentos contra e a favor da existência de Deus. (Sugiro que os leitores deem primeiro uma olhada na minha resposta à pergunta de Anissa, “O ateu tem de ser onisciente?”, no arquivo de perguntas, como contexto para esse intercâmbio.)
Agora, começando já pelo começo, precisamos refletir sobre a distinção que você quer traçar entre ateísmo forte e fraco. Permita-se sugerir que, embora haja uma distinção a ser feita aqui, você traçou a linha diferenciadora no lugar errado. Considerado como visão, não existe essa diferença de ateísmo forte ou fraco. O ateísmo é simplesmente a visão segundo a qual
1. Deus não existe.
Essa reivindicação ou é verdadeira, ou é falsa. Não há meio-termo. Se não achar que (1) é verdadeira, então, por definição, você não é ateu.
A distinção que você pretende estabelecer entra em ação quando consideramos a justificação para a proposição (1). Alguns ateus dizem ter fundamentos poderosíssimos para concluírem que (1) é verdadeira. Podemos dizer que o ateísmo deles é forte. Outros ateus diriam que têm bases adequadas, mas não decisivas, para considerarem que (1) é verdadeira. Alguns diriam que quase não têm, ou de fato não têm, base para (1), mas, seja como for, acreditam que a proposição é verdadeira, talvez por razões emocionais. Poderíamos classificar todos esses como adeptos de um ateísmo fraco.
Agora, observe que o que é forte ou fraco aqui não é (1) em si mesma, pois todo ateu considera essa declaração como verdadeira; antes, o que é forte ou fraco é a defesa que apresentam para sustentar (1): alguns alegam que as evidência para (1) são esmagadoras, ao passo que outros apresentam avaliações mais modestas na defesa dela. O importante é vermos aqui que força ou fraqueza têm a ver, não com a reivindicação em si, mas com a justificativa apresentada em seu favor.
Acredito que podemos concordar até aqui, e o que eu disse até este momento não deveria ser controverso.
Portanto, a pergunta agora é: na sua opinião, qual é a força da defesa a favor do ateísmo? Em minha resposta a Anissa, expressei minha perplexidade diante da estratégia argumentativa adotada hoje por muitos ateus conhecidos — você não encontra filósofos ateus profissionais argumentando assim, o que deveria lhe dizer alguma coisa — os quais afirmam que, visto que (1) é uma declaração negativa universal, em primeiro lugar, não pode ser provada, e, em segundo, o ateu, portanto, não está obrigado a apresentar nenhuma justificativa para a sua crença em (1)! Como mostrei na minha resposta a Anissa, a primeira alegação é comprovadamente falsa. Há muitas maneiras de se provar uma declaração negativa quantificada universalmente. Por exemplo, mostrar que o conceito que está em discussão envolve uma contradição lógica. No passado, muitos ateus tentaram mostrar que o conceito de Deus é incoerente do ponto de vista lógico (“Deus pode fazer uma pedra tão pesada que ele não consegue levantar?”), do qual se concluiria que Deus não existe.
Entendo que grande parte de suas ressalvas à minha resposta deve-se a você considerar a palavra “prova” com o sentido de prova matemática. Esse sentido de “prova” não é muito interessante, uma vez que, nesse sentido forte, podemos provar realmente muito pouco. Apesar disso, podemos provar coisas no sentido de “prova” tendo em mente o modo como a palavra é usada em ciências ou no tribunal. Alguns de meus exemplos, para justificar uma declaração negativa universal, eram provas com esse sentido mais modesto (mas se fosse o caso de demonstrar uma incoerência lógica, haveria uma prova de tipo matemático).
Agora, a segunda alegação do ateu, a de que não está obrigado a apresentar nenhuma justificativa para a sua crença em (1), obviamente não é deduzida da falta de comprovação de (1). Se o ateu, sem nenhuma justificativa, continua a crer em (1), então, ele simplesmente “assume a proposição pela fé”, sendo tão irracional quanto os que creem no teísmo só pela fé. Já imaginou em alguma outra área de investigação alguém tentar se safar alegando que, pelo fato de sua posição não ser justificável, está desobrigado de apresentar qualquer evidência a favor dela? Se o indivíduo não tem uma justificação para (1), deveria ser, na pior das hipóteses, agnóstico, alguém que diz: “Não sei se (1) é ou não verdadeira”.
Portanto, quando você diz: “Na qualidade de ateu fraco, digo que o ônus da prova cabe a você, já que não posso provar uma negativa”, está esquivando-se da sua parte do ônus da prova. A proposição (1) é uma alegação de conhecimento e, por isso, exige justificação. Assim, acho que você, como um ateu fraco, deveria estar pronto para fazer algum tipo de defesa a título de justificação de (1). Você, com certeza, tem algumas boas razões, mas não tão decisivas, para (1). Isso é muito bom; gostaria de ouvi-las. Eu particularmente defendo o que você chamaria de teísmo fraco: não posso apresentar uma prova matemática da existência de Deus, mas entendo que a evidência a favor da existência de Deus torna bem ainda mais provável a negação de (1).
Todavia, quando você afirma (como Richard Dawkins) que “quase com certeza não existe nenhum deus”, considero que essa seja uma declaração fortíssima! Você está dizendo que (1) é “quase com certeza”. Você deve ter uma defesa muito forte para justificar tal afirmativa. Isso é, de fato, um ateísmo muito forte, e eu gostaria de ouvir a defesa dele. (Para que você não pense que Dawkins a apresenta, veja meu texto “Richard Dawkins’ Argument for Atheism” [O argumento de Richard Dawkins a favor do ateísmo] no arquivo de perguntas.)
Você está certo de que eu tenho apenas de mostrar que Deus existe para provar que sua alegação é falsa. Mas se eu não conseguir apresentar tal defesa, isso comprova que a sua alegação é verdadeira? É claro que não! Enquanto você não fizer sua defesa, nosso amigo agnóstico será deixado ainda suspenso em dúvida, sem saber se (1) é verdadeira ou falsa. Pensadores ateus esclarecidos admitem esse fato. Por exemplo, Austin Dacey e Lewis Vaughan escreveram:
O que ocorrerá se esses argumentos que pretendem estabelecer que Deus existe forem falhos? [...] Devemos, então, concluir que Deus não existe? A falta de razões ou de evidência que sustentem uma proposição não mostram que tal proposição seja falsa (The Case for Humanism [A defesa do humanismo], 2003, p. 162).
Como digo, não existe nada de controverso quanto a isso. Deveríamos poder concordar que qualquer um que faz uma alegação de conhecimento precisa ter alguma justificação adequada para ela. Ateus amadores não podem, em boa consciência, sair por aí esquivando-se da sua parte do ônus da prova, especialmente quando fazem alegações extraordinariamente fortes, como a de que Deus quase certamente não existe.
Quanto às suas objeções específicas às “provas de Deus nas escrituras”, eu mesmo não apresentaria esse tipo de provas. Visto que não tenho a preocupação de mostrar que a Bíblia é divinamente inspirada, a minha defesa não é afetada pela “crueldade, contradições e erros descarados” que você encontra nela. Minha defesa se mantém firme, mesmo se tratarmos os documentos bíblicos como registros meramente humanos e falíveis e reflexões sobre várias questões, como, por exemplo, a vida de Jesus. Mas se você for ler os Quatro Evangelhos da vida de Jesus contidos no Novo Testamento como documentos históricos ordinários, penso que achará, assim como eu quando incrédulo os li pela primeira vez, que Jesus de Nazaré é um dos personagens mais atraentes que já encontrou — brilhante, compassivo, autêntico até a medula. Como não cristão, tive também problemas com certas partes da Bíblia (como o Nascimento Virginal), mas quando chegou em Jesus, eu sabia que não poderia jogar fora a criança com a água do banho. Decidi, por fim, somente classificar os problemas como não essenciais à verdade das reivindicações cristãs centrais e pôr minha confiança nele, como meu Mestre e Salvador.
Você destaca que “muitos ateus, e especialmente a maior parte do novo grupo de ateus, simplesmente não veem nenhuma razão para acreditar em Deus”. Certíssimo! E por isso eles trivializam o ateísmo: ou redefinindo-o para que signifique a mera ausência da crença em Deus (tornando-o apenas num estado psicológico indistinto do agnosticismo); ou afirmando que a ausência de evidência favorável a Deus é, de alguma maneira, evidência de que Deus não existe (o que é, como notam Dacey e Vaughn, raciocínio falacioso). O que eles não apresentam é um argumento criterioso e fundamentado que dê sustentação à visão que defendem.
Falo a verdade, Oliver: na primeira parte do século 20, os livres-pensadores poderiam alegar, justificadamente, superioridade intelectual com relação aos teístas. Mas desde 1960 não é mais assim. Houve uma revolução na filosofia anglo-americana que transformou a face da nossa Disciplina. Hoje, muitos dos mais excelentes filósofos nas mais prestigiosas universidades da Inglaterra e Estados Unidos são cristãos declarados. Sempre que leio os trabalhos dos ditos “neoateus” acho-os de uma ingenuidade pueril e desesperadamente ignorantes das discussões de vanguarda hoje.
A alegação pendente dos lábios dos neoateus de hoje de que “fomos dotados de ferramentas para raciocinar, mentes inquisitivas e boa educação escolar e julgamos a religião da mesma maneira que julgamos tudo o mais” expressa agora um exibicionismo vazio. Se essa asserção for verdadeira de fato, então, quando você disser, “Como ateu, declaro que deus, e o seu deus em particular, não existe”, é melhor que esteja preparado para responder quando eu perguntar: “Mesmo? Que prova, evidência ou argumento você pode apresentar para me convencer?”.
Finalmente, chegando à sua questão sobre que defesa eu poderia apresentar a favor do teísmo, você a achará neste site em meus artigos sobre a existência de Deus e nas transcrições de alguns debates. Uma leitura excelente seria meu livro com Walter Sinnott-Armstrong, pela Oxford University Press, cujo título é: God?: A Debate between a Christian and an Atheist [Deus?: O debate entre um cristão e um ateu] (2003). Ele lhe permitirá ver ambos os lados apresentados e decidir por si mesmo que caminho a evidência aponta.
- William Lane Craig