#189 O Debate com Dawkins
October 28, 2014Prezado Dr. Craig,
Parabéns por você ter passado por aquele show horrendo no México e permanecer com uma atitude profissional! Você deve ter se agoniado com toda aquela tecnologia e efeitos desnecessários -- para não mencionar todo aquele tema "boxe"! Apesar de tudo, você manteve seu foco e integridade e, por isso, eu lhe aplaudo.
E você finalmente teve a oportunidade de interagir (um pouco) com Dawkins! Que pessoa superficial e não filosófica! Todo o discurso de abertura dele foi, literalmente, uma gigantesca falácia genética (exceto no momento em que ele estava insultando diretamente o seu lado). Na verdade, todo o lado ateu parecia completamente não disposto a sequer questionar qual era o fundamento último deles para o "progresso" e "propósito" - mas perfeitamente feliz em abusar dos pequenos intervalos que tinham para falar para fazer piadas e soltar frases de efeito.
Assim, tenho duas perguntas, sendo que ambas estão relacionadas:
1) Por que Steven Pinker está errado em calcular a paz mundial com base na porcentagem da população? Eu tenho um amigo que leu o seu boletim e ele acha que Pinker está fazendo exatamente a coisa certa. Ele diz: "quando Pinker está trabalhando com porcentagens, isso é exatamente o que ele deveria estar fazendo. Se menos pessoas, por pessoa, estão sendo mortas, então o mundo está mais pacífico".
2) De modo mais geral, porque você acha que tantos ateus/naturalistas/humanistas estão comprometidos com a visão de que o mundo e a humanidade estão ficando melhor? Esta é uma tendência recente em comparação com, talvez, os "grandes" ateus de um século atrás, que reconheceram o niilismo e o desespero que o ateísmo implicava?
Como você explica essa fé elevada na natureza humana e a utopia que é frequentemente associada com o rosto do ateísmo contemporâneo? Você acha que existe pelo menos uma correlação entre o otimismo ateu e a arrogância (cujos exemplos nós vimos nesse debate)?
Como devemos lidar com isso sem nos envolver em nossa própria luta de "boxe"?
Novamente, parabéns pelo seu brilhante trabalho nesse evento, Dr. Craig.
muchas gracias!
Peter, Reino Unido
United Kingdom
Dr. Craig responde
A
Por nossa interação no passado, eu sei que você é um observador objetivo, Peter, e, por isso, estou grato por suas palavras de incentivo. Aquele foi, sem dúvida, um evento selvagem!
Acredite ou não, o formato que nos foi dado inicialmente era ainda pior: declarações de abertura de quatro minutos, réplicas de dois minutos, e declarações finais de um minuto! Você pode imaginar quão difícil é preparar algo com substância para apresentar em apenas quatro minutos. Como se viu, os dois minutos que o Prof. Roemer, o organizador, acrescentou às declarações de abertura pouco antes do debate realmente me ajudaram tremendamente. Fui capaz de adicionar o resumo que Doug Geivett havia preparado sobre o problema do mal, que foi citado por Riddley em seu discurso de abertura, e de, pelo menos, listar os meus cinco argumentos para o teísmo, coisas que eu não teria sido capaz de fazer em um período de abertura de quatro minutos. Isso me permitiu definir claramente os fundamentos do debate. Embora eu tivesse minhas dúvidas de que qualquer coisa pudesse ser feita em discursos tão curtos, eu fiquei muito feliz com o resultado final. Como resultado, o debate foi conciso, rápido e focado.
Perguntei ao Prof. Roemer onde ele havia conseguido aquele ringue de boxe e ele disse: "eu comprei!". Aparentemente, ele foi usado na conferência do ano passado e é um acessório para os debates. Roemer deixou claro que ele queria uma interação educada e acadêmica, não uma pancadaria, apesar dos apetrechos. O engraçado é que o ringue até que se mostrou adequado, uma vez que nosso debate foi transmitido na televisão nacional mexicana naquela noite após a célebre luta Pacquiao/Margarito!
Fico feliz que você tenha visto além da atuação e retórica ateísta. Acho que a coisa mais terrível que Dawkins disse foi que essas perguntas relacionadas a "porquês" são "perguntas tolas". Tais perguntas filosóficas não são apenas interessantes e importantes em si mesmas, mas elas podem também ser vitais. Apenas suponha que o ateu está errado. Suponha que Deus existe. Nesse caso, o propósito da vida, planejado por Deus, terá sido perdido; essa é a maior de todas as tragédias; e tudo porque, como Sean Stephenson destacou, essa pessoa foi tão arrogante a ponto de considerar a possibilidade de que o universo tem um propósito como uma "pergunta tola", a qual não vale nem mesmo a pena explorar.
Suas duas questões estão relacionadas com a utopia que, conforme descrito em nossa newsletter [informativo], caracterizou grande parte da conferência. A afirmação de Pinker de que o mundo está se tornando cada vez menos violento prova o velho ditado de que você pode usar as estatísticas para provar qualquer coisa. Eu só estou pedindo um pouco de equilíbrio aqui. Se você fosse traçar uma curva do número de pessoas mortas ou feridas em guerras e conflitos civis por século, ficaríamos horrorizados com a acentuada acumulação dos números. É só porque a população mundial está explodindo ainda mais rápido que o percentual diminui em relação à população do mundo. Que esta não é a melhor maneira de avaliar o progresso da humanidade fica evidente quando você se faz a seguinte pergunta: Você consideraria progresso se o século 21 também fosse caracterizado por uma guerra mundial entre 2014-18, que tirasse mais vidas do que a Primeira Guerra Mundial, e que, entre 2039-2045, fosse ocorrer outra guerra, ainda mais ampla, que tirasse mais vidas do que a Segunda Guerra Mundial e terminasse em uma batalha nuclear que destruísse, digamos, Nova York e Los Angeles, mesmo que essas perdas populacionais fossem mais do que superadas pela explosão contínua das populações da Cidade do México, Calcutá e Deli, e que estas conflagrações fossem seguidas por mais guerras ainda piores do que a da Coréia, Vietnã e a guerra do Iraque/Irã, somadas às contínuas perdas de milhões por conflitos no Terceiro Mundo, ainda que, devido às crescentes populações de países como Índia, China e Bangladesh, a percentagem da população do mundo morta fosse, na realidade, menor do que a porcentagem da população morta no século 20? Será que realmente consideraríamos isso progresso?
Quanto à sua segunda pergunta, eu nunca havia encontrado essa utopia otimista. Eu pensei que o otimismo ingênuo sobre a inevitabilidade do progresso humano havia terminado com o século XIX. Fico chocado com essa atitude. Você sente uma tendência nesse sentido? Certamente na cultura popular a visão do futuro é muito mais sombria: filmes de Hollywood sempre retratam o futuro como um mundo sombrio tomado por máquinas ou devastado pela guerra nuclear e sob o controle de um poder maligno. Os acadêmicos não-teístas estão enganando a si mesmos?
Ou será que há uma antropologia falha atuando aqui? Os cristãos levam a sério a depravação e o estado caído do homem. Os ateus têm uma visão ingênua da perfectibilidade do homem? Tendo lido, quando criança, livros como O Senhor das Moscas, de William Golding, eu tenho uma visão um pouco mais sinistra da natureza humana.
Em todo caso, eu acho que é melhor evitar discutir sobre essas questões periféricas com um incrédulo e, ao invés disso, concentrar-se em sua necessidade pessoal de reabilitação moral e perdão. É fácil e agradável discutir sobre um tema tão neutro como o progresso humano em geral, mas muito mais difícil negar as próprias falhas morais e culpa.
- William Lane Craig