#234 Soberania e Salvação
October 28, 2014Caro Dr. Craig,
Agradeço muito gentilmente pelo maravilhoso trabalho. Tem sido realmente inspirador para mim. Minha pergunta diz respeito a conhecimento médio e se ele realmente evita a predestinação.
Em seu debate com Bradley sobre inferno, você faz alusão a possibilidade de um indivíduo 'S' sendo salvo em um mundo viável, mas não em outro—e que você mesmo poderia não ser salvo se Deus colocasse você na Alemanha nazista, ou em algum outro conjunto de circunstâncias. Em última análise, dado o conhecimento médio, parece se tornar um tanto arbitrário (ou pré-determinado) que Deus me proporcionou as circunstâncias apropriadas para estar sob a graça salvadora, mas não meu amigo 'S', sabendo o tempo todo que 'S' teria sido salvo se tivesse nascido em outro lugar, ou em um momento diferente na história, enquanto eu, ou você, não teríamos sido salvo se Deus variasse as circunstâncias, em qualquer número de maneiras.
Note que apesar da noção de compossibilidade onde a influência variável de rearranjar os indivíduos em mundos possíveis muda as coisas de alguma forma, ficamos com nada mais do que Deus decidindo sobre algum chamado mundo ideal viável, com o melhor equilíbrio entre salvos e condenados. Claro, isso é apenas um jogo de números. Há ainda a possibilidade de um mundo viável de 10 pessoas, onde todos possam ser salvos, mas tão poucos no total, ou um mundo com apenas um pouco mais de salvos do que o mundo real, mesmo se essa quantidade a mais fosse condenada? Deus teve que fazer um corte em algum nível de relativamente mais bem e mal, salvos e condenados.
Eu sempre senti que Deus desejava igualmente para todos os indivíduos, a noção de deixar até mesmo os 99 para o um. O conhecimento médio resolveu o problema de alguém que receberia menos informação, assumindo que Deus sabia que ele não teria respondido se tivesse ouvido. Mas, se eu fosse condenado no mundo viável #2 para Deus (que ele não criou e que tinha 10 pessoas a mais do que no real), mas meu amigo 'S' não fosse, então não há nada de especial sobre mim, que proporciona a verdadeira liberdade libertariana para desfrutar da graça salvífica.
Isso me leva à pergunta final. O que há, então, de diferente ou único sobre cada alma colocada em um corpo, em um tempo, e um conjunto de circunstâncias? São todas as almas equivalentes e, então, as circunstâncias assumem ou é Deus quem cria (você favorece a criação da alma ex nihilo, como eu, não Oregonismo ou Traducianismo) almas com propriedades únicas e intrínsecas ou outra alternativa? Isso equivale a Deus colocando certas qualidades da alma a mais ou a menos acoplado a um certo corpo, tempo, e conjunto de circunstâncias, sendo iguais independentemente de se, naquela situação, qualquer indivíduo seria salvo. Se eu tivesse nascido mais bonito ou mais atlético, dada a mesma alma intrínseca, talvez eu teria me desviado. Basicamente, eu me sinto com sorte, e como muitas vezes dizemos em cirurgia, “melhortersortedoque serbom", embora eu nunca gostasse dessa afirmação. Quaisquer pensamentos sobre como conciliar essas coisas seriam apreciados.
Sinceramente,
Kevin
United States
Dr. Craig responde
A
A pergunta que você está levantando, Kevin, diz respeito a soberania de Deus em relação à eleição dos salvos. O Molinismo, como o Calvinismo, tem uma forte doutrina da soberania divina, mas difere na medida em que também afirma a liberdade libertariana. O Calvinista acredita que Deus elege unilateralmente e causalmente determina quem será salvo. O Molinista também afirma a eleição soberana de Deus dos salvos, mas nega que as pessoas estão causalmente determinadas por Deus para responder a Sua graça. Ao invés disso, a graça salvadora de Deus é estendida a todo o ser humano com o desejo de que ele responda livremente a ela e seja salvo, mas com o conhecimento de que certas pessoas vão rejeitar livremente a graça de Deus e assim condenar-se, ao contrário da perfeita vontade de Deus. Pessoas em qualquer mundo possível determinam livremente seu próprio destino pela forma como elas respondem a graça salvadora de Deus, mas é Deus quem decide qual mundo possível materializar ou realizar. Ele não se limita a "rolar os dados" para ver qual mundo se realiza (um jogo que pode ser desastroso). Ao contrário, Ele soberanamente escolhe um mundo. Como um molinista francês muito bem colocou, "Cabe a Deus se eu me encontro em um mundo no qual eu sou predestinado; mas cabe a mim se estou predestinado no mundo em que me encontro."
É razoável pensar que se Deus tivesse escolhido um outro mundo, eu poderia ter nascido na Alemanha nazista, e me tornar um membro da Juventude Hitlerista ou nascido no Afeganistão e me juntado ao Taliban. Não que eu teria sido determinado a fazer essas coisas; mas eu teria, talvez, livremente escolhido fazer essas coisas sob aquelas circunstâncias. Se você é um teísta ou um ateu, todos nós enfrentamos a percepção de que se as circunstâncias tivessem sido diferentes, poderíamos ter sido culpados de todos os tipos de horrores. Os filósofos às vezes se referem a isso como "sorte moral." Calvinistas e Molinistas atribuem sorte moral, em última análise, a escolha livre e soberana de Deus. Sorte para você, Deus escolheu um mundo em que você nasceu nos EUA; Heinrich não teve tanta sorte.
O que é ótimo no Molinismo é que Deus ama Heinrich tanto quanto Ele ama você, e por isso atribui-lhe a graça suficiente para a salvação e procura atraí-lo para si mesmo. De fato, Deus poderia saber que através da culpa e da vergonha do que Heinrich fez sob o Terceiro Reich, ele acabaria por vir a arrepender-se e encontrar a salvação e a vida eterna. Paradoxalmente, ser um nazista pode ter sido a melhor coisa que aconteceu com Heinrich, uma vez que levou a sua salvação. Claro, pode-se perguntar sobre aquelas pobres pessoas que sofreram nos campos de extermínio por causa de Heinrich. Mas Deus tem um plano para suas vidas, também, que inclui a sua salvação e Ele lhes concede, como a Heinrich, graça suficiente para a salvação. Além disso, Ele sabe o impacto que esses eventos terão sobre a vida de seus filhos e as vidas dos filhos de seus filhos e as vidas daqueles com quem entram em contato. Você pode ver que em nenhum momento nós espiralamos em uma complexidade que só uma mente infinita poderia abranger.
Eu tenho sugerido, com base na minha leitura do Novo Testamento, que Deus escolheria um mundo que tem um ótimo equilíbrio global entre salvos e perdidos. Isto está longe de ser apenas um jogo de números. Deus quer que tantas pessoas quanto possível sejam livremente salvas e o menor número possível seja livremente condenado. É possível que o mundo real seja um mundo assim. Deus quer a salvação de cada pessoa que Ele cria e atribui a cada um a graça suficiente para a salvação. Se eles são salvos ou condenados é com eles.
Claro, há o pensamento sério mais uma vez de que se eu tivesse sido criado em circunstâncias diferentes, então talvez eu tivesse livremente rejeitado a graça de Deus e seria condenado. Mas eu não vejo nenhum problema em dizer que se Deus tivesse materializado um mundo diferente, então eu, ou qualquer outra pessoa salva, teria livremente rejeitado Sua graça e seria condenado. Pois já que Deus escolheu concretizar este mundo, em que somos salvos livremente, esta verdade contrafactual é de nenhuma consequência. A questão mais difícil é saber se existem pessoas que rejeitaram livremente a graça de Deus e foram condenadas, mas que teriam sido livremente salvas se Deus tivesse escolhido realizar algum outro mundo. Por um lado, isso pode parecer apenas ser sorte moral inevitável; o ponto é que Deus se esforça para salvá-las, e elas rejeitam livremente a Ele. Elas, e somente elas, são responsáveis por sua condenação.
Mas eu tenho sugerido que existe outra possibilidade. Talvez Deus tenha tão providencialmente ordenado o mundo que todos aqueles que rejeitam livremente a Sua graça, e se perdem, são pessoas que teriam rejeitado livremente Sua graça em qualquer circunstância, e, por isso, seriam perdidas em qualquer mundo possível para Deus. Poderíamos dizer que essas pessoas estão transmundialmente condenadas. Essas seriam pessoas incrivelmente réprobas. Se elas não parecem tão ruins neste mundo, isso pode ser porque o mundo real é um dos mundos em que elas mais se aproximam da salvação, embora, no final, elas livremente afastam-se dela. Assim, é possível que simplesmente não existam pessoas como "S", como você imaginou.
Eu não entendo, Kevin, por que você acha que essa visão nega a sua singularidade ou a sua liberdade libertariana. Muito pelo contrário, a visão não faria sentido sem esses elementos. A ideia é que Deus escolheu um mundo que contém exatamente aquelas pessoas e exatamente nessas circunstâncias, de modo a maximizar o número de pessoas que iria responder livremente à Sua graça e seriam salvas, minimizando o número de pessoas que rejeitariam livremente Sua graça e condenarem-se-iam a si mesmos e que, além disso, Ele garantiu que, qualquer um no mundo, que sob qualquer circunstâncias iria livremente ser salvo, é salvo livremente. Você não pode fazer melhor do que isso!
- William Lane Craig