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#789 O mundo é um contingente bruto?

July 17, 2022
Q

Em seu diálogo com o Dr. Graham Oppy, ele trouxe uma questão interessante para a qual o senhor não teve tempo de responder direito. Reproduzirei a questão aqui.

Dr. Oppy: “Será que Deus poderia ter livremente escolhido criar um mundo físico em que não seria o caso de que teorias matemáticas se apliquem ao mundo físico, pois a estrutura do mundo físico é instanciação de estruturas matemáticas descritas por tais teorias matemáticas? ... Há duas opções; se não, parece que o que você vai acabar dizendo é que é necessário haver um mundo físico em que teorias matemáticas se apliquem, o que quer dizer que você justamente acaba por concordar com o que o naturalista disse. Esta seria a explicação. Por outro lado, se for verdade, parece que agora é uma contingência bruta que as teorias matemáticas se apliquem ao mundo físico pela razão dada, pois é brutalmente contingente que Deus escolhesse criar este mundo, em vez de outros mundos que ele poderia criar no lugar deste. Não temos uma explicação, não é? Quando se tem livre escolha e se pensa: por que isto, e não aquilo?, não existe agora nenhuma explicação a ser dada de por que você acabou com uma, em vez de outra. Por isso, parece que você vai aceitar a necessidade ou você vai acabar com ‘em última instância, é contingência bruta’, o que foi o problema daquilo que era objetável”.

Dr. Craig: “Não tenho nenhum problema em dizer que Deus tem livres escolhas que são, em última instância, inexplicáveis. Não penso que isto seja problemático. Essa teoria ainda tem maior profundidade explanatória do que simplesmente postular a necessidade das estruturas matemáticas no mundo”.

Ouvindo a sua resposta, ainda não entendo como o senhor consegue sair do dilema da contingência/necessidade de simetria bruta que confronta o teísmo. O senhor parece, na verdade, aceitar um dos lados, fiando-se na alegação de que o teísmo tem profundidade explanatória maior do que o ateísmo.

Se essa é a sua manobra aqui, não funcionaria também com os argumentos moral, da contingência e kalam? Ou seja, será que o ateu não pode aceitar o realismo moral, em virtude de ser ele necessário, o começo do universo como se fosse necessário, e o estado inicial do universo como vácuo eterno que, talvez, adentre no tempo no primeiro momento da causação (por meio da causação indeterminista), e atemporal sem o restante do universo?

A conversa agora se volta para força e simplicidade explanatórias (conforme escreve Oppy alhures), em vez da possibilidade que tem o ateu de responder a alguns problemas e premissas específicos.

Agradeço de antemão, Dr. Craig, e espero que o projeto de teologia sistemática seja divertido!

Samiullah

Dr. Craig responde


A

É divertido, Samiullah!

Em resposta à sua pergunta, permita-me fazer-lhe uma pergunta: suponha que você entre numa cozinha e veja que todas as colheres, facas, garfos e outros utensílios tenham sido organizados e dispostos com cuidado em pilhas separadas na mesa. Curioso, você pede à sua esposa uma explicação. Ela diz: “Escolhi organizá-las dessa maneira”. Ora, você diria que, se ela agiu livremente, e não deterministicamente, não foi dada nenhuma explicação melhor da organização dos utensílios do que se foi apenas uma contingência bruta? É claro que não! A livre escolha libertária dela, embora, em última instância, seja inexplicável por tudo que não seja a própria agência pessoal dela, é evidentemente explicação melhor do que apenas a contingência bruta e muito mais adequada à verdade.

Da mesma forma, postular um Criador pessoal que livremente escolhe criar o universo, dotá-lo de certa estrutura matemática, ajustá-lo finamente para a existência de agentes conscientes corpóreos e dar a tais agentes a capacidade de fazer escolhas morais é explicação enormemente superior a dizer: “As coisas simplesmente são assim”. O fato de que as escolhas de Deus são livres em sentido libertário nada fazem para evitar o grande avanço em profundidade explanatória na explicação que o teísta faz desses fenômenos, em comparação com o ateu que afirma serem as coisas apenas contingências brutas, sem qualquer explicação (ou o ateu que afirma com ousadia, a despeito de toda indicação contrária, que a organização dos utensílios, por assim dizer, é logicamente necessária, em linhas gerais!). Toda explicação tem de parar em algum lugar; porém, o que você precisa entender é que uma teoria com maior profundidade explanatória é enormemente preferível a uma teoria que não oferece absolutamente nenhuma explicação.

Será que o ateu não pode aceitar o realismo moral, em virtude de ser ele necessário?” Claro (deixando de lado os problemas com o platonismo moral ateu); porém, conforme explico em minhas respostas a Huemer e Morrison no meu debate com Erik Wielenberg,[1] a descrição que o teísta faz de valores e deveres morais tem maior profundidade explanatória do que a necessidade bruta do ateu. “Será que o ateu não pode aceitar... o começo do universo como se fosse necessário?” Não vejo como, uma vez que o começo do universo revela não existir ele necessariamente, sendo, portanto, contingente. Pelo contrário, devo dizer que é metafisicamente impossível que algo venha a existir a partir do nada. “Será que o ateu não pode aceitar... o estado inicial do universo como vácuo eterno que, talvez, adentre no tempo no primeiro momento da causação (por meio da causação indeterminista), e atemporal sem o restante do universo?” Nas minhas publicações sobre o argumento cosmológico kalam, mostrei que tais modelos não são viáveis.[2] Em todo caso, esta questão não tem nada a ver com necessidades brutas, sendo, portanto, manobra diversionista.

No fim das contas, o teísta não deseja evitar, mas está ávido em afirmar que a melhor explicação para todos esses fenômenos é um Criador pessoal transcendente, dotado de liberdade da vontade, não sendo, portanto, determinado a fazer o que escolhe. Tal explicação é incomensuravelmente melhor do que absolutamente nenhuma explicação.


[1] A Debate on God and Morality: What Is the Best Account of Objective Moral Values and Duties?, ed. Adam Johnson, com respostas de D. Baggett, M. Huemer, M. Linville, J. Moreland e W. Morriston (Londres: Routledge, 2020).

[2] E.g., “The Kalam Cosmological Argument”, com James Sinclair, in The Blackwell Companion to Natural Theology, ed. Wm. L. Craig e J. P. Moreland (Oxford: Wiley-Blackwell, 2009), pp. 101-201.

- William Lane Craig