#130 Obstáculos Não Resolvidos para me Tornar um Cristão
September 25, 2014Olá Dr. Craig
Eu não sou cristão, mas ainda assim sou um grande fã seu. Eu amo seu estilo claro e conciso de debater.
Durante os últimos meses tenho escutado seus debates e, apesar de você já ter abordado a maioria das questões, ainda existem algumas perguntas que eu acho que não foram respondidas (por ninguém) e pensei que poderia tentar a sorte perguntando diretamente para você.
Prefácio
Um pouco de contexto: apesar de ser agnóstico, eu desesperadamente quero que Deus exista, pois eu reconheço que a vida, de fato, não tem um significado objetivo sem Deus. Reconheço também que a moralidade não pode ser objetiva sem Deus. Este cenário, se verdadeiro, é bastante trágico para nós.
Inerrância Bíblica
Ok, minha primeira questão é a inerrância Bíblica. A maioria das igrejas e dos cristãos que eu conheço mantém como uma doutrina muito importante a crença de que a Bíblia é inerrante. Ao assistir seus debates tenho o sentimento de que você não acredita que a Bíblia é inerrante. Por favor, me corrija se eu estiver errado.
Você pode argumentar que as doutrinas principais não dependem disso, mas para mim pessoalmente (e para muitos outros), esta foi uma grande decepção e fonte de dúvida já que foi me dito para esperar inerrância; porém, o que descobri foi o contrário. Tenho certeza de que você poderia me dar um bom argumento do porque Deus deixaria que erros entrassem na Bíblia, mas também entenda que os erros e contradições na Bíblia também são consistentes com o naturalismo e tais problemas seriam previstos. Agentes humanos tendem a errar quando um Deus perfeito não os guia.
A primeira pergunta é: existe algo especial ou divino nos próprios documentos bíblicos (excluindo, por ora, as afirmações que eles fazem) que pode ser visto como evidência de que eles são algo especial/de autoria divina e não somente um produto humano? Por exemplo, a inerrância bíblica seria uma evidência desse tipo se ela fosse verdade.
A ressurreição de Jesus
O sucesso ou falha deste argumento depende de nossas pressuposições. Se eu acredito em Deus seria sensato presumir que ele poderia agir no mundo e poderia facilmente ressuscitar Jesus dos mortos. Se não, eu irei recorrer a argumentos naturalistas porque eu não acredito que milagres são possíveis.
Assumindo que Deus existe, esta é, de fato, a melhor explicação para os fatos, mas constitui uma explicação muito pobre se você não está certo de que Deus ou os milagres existem.
Assim, basicamente, a razão pela qual eu sou cético com relação a uma explicação sobrenatural aqui é porque eu simplesmente não encontrei qualquer evidência direta/positiva de Deus ou de milagres. Eu não posso dizer que é uma boa explicação porque eu não sei se coisas sobrenaturais podem acontecer, ponto final.
Eu não acho que esse é um bom argumento em defesa da existência de Deus; é mais um argumento de suporte para algo que já foi assumido como verdade.
Em conclusão, eu acho que sem uma experiência espiritual direta de Deus ou de milagres (uma experiência que eu aceitaria) eu não poderia dizer confortavelmente que eu sei o que pode ou não pode ter acontecido com Jesus naquele momento.
Cosmologia
Nós observamos algumas coisas que parecem apontar na direção do design inteligente:
• O universo teve um começo.
• O universo parece ter constantes necessárias para o nosso tipo de vida baseada em carbono existir.
Nós também observamos algumas coisas que parecem apontar na direção de aleatoriedade:
- O universo tem desperdício. É IMENSO e a maior parte dele é espaço vazio desprovido de vida.
- Mesmo na terra o processo da vida incorreu em muito desperdício. A maioria das espécies foi extinta.
No que concerne ao início, eu concedo que a causa do nosso universo teria que ter sido algo que não é limitado pelas leis físicas normais e que, de alguma forma, tivesse propriedades que permitissem que ele escapasse à necessidade de ser causado. Isso poderia implicar em um Criador ou, talvez, esta seja uma lacuna que a ciência futura será capaz de preencher; não sei, isso eu não posso explicar.
Em segundo lugar, você poderia argumentar que as propriedades físicas deste universo são necessárias para a vida, mas elas são necessárias apenas para o tipo de vida que nós conhecemos. É possível que outros tipos de vida (ou outras entidades que pensam) poderiam surgir dadas diferentes propriedades físicas.
Quanto ao desperdício massivo no universo e na biologia, ouvi você dar o argumento de que porque Deus não é limitado pelo tempo, então ele não se importaria em ser eficiente. Eu acho isso muito pouco convincente. Apesar de você ser logicamente consistente eu não acho que é um argumento muito bom.
Eu sou um engenheiro de software e, da minha perspectiva, a eficiência de um programa está mais relacionada à proficiência do programador do que relacionada ao tempo gasto para criá-lo. Em quase qualquer programa existem códigos redundantes e bugs, mas estes são erros e eles ocorrem porque nós somos humanos e imperfeitos, não porque queremos que eles estejam lá. Independentemente do tempo colocado em um projeto, eu tentarei programá-lo o mais eficientemente possível. Na verdade, quanto mais tempo eu tenho para executar um projeto, mais eficiente meu programa será, pois tenho mais tempo para retirar os bugs e otimizar o código. Um programador perfeito faria programas perfeitos e eficientes, independentemente do tempo gasto.
Assim, o que poderia explicar esse desperdício? Eu vejo três possibilidades, todas metafísicas, eu sei.
1) A hipótese do multiverso.
2) Existe um Criador, mas este projetista não é onipotente, não é perfeito e não é muito eficiente.
3) Deus existe e é perfeito. Mas por alguma razão inexplicável Ele escolheu a rota ineficiente.
1 e 2 parecem ter melhor poder explicativo quando se trata de explicar os detalhes e também o desperdício. No mínimo, 2 é a opção mais plausível dada a evidência? Gostaria de ouvir seus comentários.
Mike
United States
Dr. Craig responde
A
Fico tão feliz que seu desejo seja por Deus, Mike, porque um coração aberto é o pré-requisito mais importante para encontrar a fé. Deixe-me responder as suas perguntas na ordem lógica delas em vez de seguir a ordem na qual você as colocou, já que fazer isso irá lançar luz sobre o motivo pelo qual eu as respondi da forma como fiz.
A primeira e mais importante pergunta é: Deus existe? Você lida com isso sob o título “Cosmologia”. Em meu trabalho eu defendo vários argumentos diferentes em favor da existência de Deus, incluindo o argumento da contingência (ou argumento cosmológico Leibniziano), o argumento cosmológico kalam, o argumento teleológico, o argumento moral e o argumento ontológico. Juntos eles constituem um caso cumulativo poderoso em defesa da existência de Deus.
Seus comentários sobre o argumento cosmológico kalam baseados no começo do universo me levam a pensar que você acha esse argumento muito bom. O argumento kalam nos dá um criador do universo que é pessoal, não tem começo, não tem causa, é atemporal, está fora espaço, é sem mudança, imaterial e extremamente poderoso. Sua única reserva é que como o universo começou “é uma lacuna que a ciência futura pode ser capaz de preencher”. Note, porém, Mike, que a sua reserva é apropriada apenas com respeito à confirmação científica da premissa de que o universo começou a existir. Ela não tem qualquer aplicabilidade aos argumentos filosóficos que eu dou para dar suporte àquela premissa. Mesmo que a confirmação científica desaparecesse inesperadamente, isso não afetaria os argumentos filosóficos em defesa da finitude do passado. E você também precisa estar atento para não cair na tentação de presumir um tipo de “naturalismo das lacunas”, no qual se apela sem justificativa para explicações naturalistas futuras desconhecidas apenas para salvar o dia para o naturalismo. O apelo para teorias futuras desconhecidas como base para duvidar de uma teoria atual poderia ser feito contra qualquer teoria científica. Este tipo de apelo, se permitido, iria, portanto, destruir a ciência. A premissa é sustentada pela melhor evidência científica que nós temos, de forma que aqueles que a negam é que estão resistindo à evidência.
Quanto ao argumento teleológico baseado no ajuste fino (preciso) do universo, sua única reserva parece ser que “É possível que outros tipos de vida (ou outras entidades que pensam) poderiam surgir dadas outras propriedades físicas”. Novamente, seja cuidadoso: o que está em questão aqui não é o que é logicamente possível, mas o que é biologicamente razoável. Quando cientistas falam sobre um universo ser propício a vida, eles não estão falando apenas de formas presentes de vida. Por “vida” os cientistas querem dizer a propriedade de organismos de ingerir alimento, extrair energia dele, crescer, adaptar-se ao ambiente e se reproduzir. Qualquer coisa que pode cumprir estas funções conta como vida. E o ponto é, a fim de que a vida assim definida exista, qualquer que seja a forma que ela tome, as constantes e quantidades do universo tem que ser incrivelmente finamente ajustadas. Caso contrário o resultado é desastre absoluto. Na ausência de ajuste fino nem mesmo matéria, nem mesmo química existiria, muito menos planetas onde a vida poderia evoluir. Portanto, na ausência de ajuste fino é razoável pensar que a vida não poderia existir.
Desta forma, apenas esses argumentos já nos dão bons motivos para pensar que um Criador e Projetista do universo existe. Contra essa conclusão você faz duas considerações. Primeiro, “O universo tem desperdício. É IMENSO e a maior parte dele é espaço vazio desprovido de vida”. Ah, mas Mike, lembre-se de que é um dos insights do argumento do ajuste fino que o universo deve, de fato, ser muito grande, já que os elementos pesados como carbono, do qual nosso corpo é feito, são sintetizados no interior das estrelas e então distribuídos pelo cosmos por explosões de supernovas. Mas leva bilhões de anos para as estrelas passarem por tal processo e em todo o tempo o universo está expandindo. Então o tamanho do universo é função de sua idade e esta é uma pré-condição da nossa própria existência. Assim, todo esse espaço vazio não é, de forma alguma, um desperdício! Além disso, como você sabe que esse espaço é desprovido de vida? Talvez existam seres inteligentes que existem em algum outro lugar no cosmos e que também são criaturas de Deus. Por que estar fechado a esta ideia?
Segundo, você contesta que “Mesmo na terra o processo da vida incorreu em muito desperdício. A maioria das espécies foi extinta”. Mas é verdade que a vida foi desperdiçada? As florestas primitivas foram a base para os depósitos de óleo e carvão que tornam a civilização moderna possível. (Tente pensar no quão longe a cultura humana iria na ausência de combustíveis fósseis!). As criaturas extintas que existiram durante aqueles tempos eram parte de um ecossistema que fez o planeta florescer. E você não acha que Deus, se Ele existe, se deleitou com os dinossauros e com as outras criaturas maravilhosas que agora estão extintas? Eu acho que sim!
Isso nos leva ao real problema, em minha opinião. A presunção implícita aqui parece ser que Deus não criaria um desperdício tão extravagante. Deus é como um engenheiro super eficiente que não se envolveria em tal desperdício.
Mike, eu amo os engenheiros porque vocês respondem tão bem a minha abordagem apologética! Mas você precisa ter cuidado quando cria um Deus à sua imagem e projeta seus valores nEle. Como eu disse para Quentin Smith, que foi quem levantou originalmente a objeção da eficiência, Deus pode ser mais parecido com um artista do que com um engenheiro, alguém que se deleita na extravagância da Sua criação, nas vastas galáxias não descobertas, nas flores que desabrocham sem serem vistas em uma montanha remota, em conchas lindas depositadas nas profundezas do oceano. Eu não vejo razão nenhuma para pensar que Deus deveria ser como um engenheiro ao invés de ser como um artista. Eficiência, como eu disse, é um valor somente para alguém com recursos limitados ou tempo limitado, ou ambos. Mas Deus tem tempo e recursos ilimitados, então por que Ele não deveria ser extravagante? Seu engenheiro iria utilizar o tempo e os recursos dele cuidadosamente, é claro; mas suponha que Deus não é (apenas) um engenheiro?
Portanto, eu acho que a sua terceira alternativa “Deus existe e é perfeito” é a melhor alternativa, com a advertência de que nós podemos dar razões do motivo pelo qual Ele criaria um universo tão grande ou um planeta caracterizado por um tempo tão longo até o surgimento do homem. Mas note também, Mike, que mesmo as suas duas outras alternativas não são ateístas! Os argumentos que eu dei até agora não provam nem a onipotência de Deus nem a perfeição Dele e, portanto, são consistentes com a segunda alternativa, e não há razão pela qual Deus não poderia ter criado um multiverso, que é a primeira alternativa. Então por que resistir às conclusões implícitas nos argumentos cosmológico e teleológico?
Além desses argumentos nós temos o argumento da contingência, o argumento moral e o argumento ontológico. Portanto, o teísmo parece estar muito bem!
Agora chegamos à ressurreição de Jesus, seu segundo tópico! Eu concordo com você que, dado o teísmo, conforme estabelecido pelos argumentos anteriores, a ressurreição é “de fato, a melhor explicação para os fatos.” Assim, em meus trabalhos que foram publicados eu considero a evidência para a ressurreição apenas depois de apresentar um caso em favor do teísmo. Eu acho que a evidência para a ressurreição de Jesus pode ser parte de um caso cumulativo em defesa do teísmo; mas esse não é, realmente, o seu lugar apropriado. A evidência para a ressurreição faz parte das evidências cristãs, não da teologia natural. (Sobre esse assunto veja minha discussão do artigo de Dale Allison sobre a evidência para a ressurreição.)
Mas note: até mesmo o agnóstico tem que estar aberto para a possibilidade da ressurreição ser a melhor explicação da evidência. Somente se você tem argumentos sólidos a favor do ateísmo é que você pode justificadamente dispensar uma explicação miraculosa, e mesmo nesse caso, se a evidência para um milagre como a ressurreição de Jesus é poderosa o suficiente, você pode descobrir que ela se sobrepõe aos argumentos ateístas. Em todo o caso, tudo isso é acadêmico, já que você não oferece argumentos ateístas e acha alguns dos argumentos teístas um tanto quanto convincentes. Portanto, você deveria seguir a evidência concernente a Jesus para onde ela aponta.
Finalmente, seu terceiro ponto: inerrância bíblica. A essa altura, se você seguiu meu argumento, você deveria acreditar que Deus existe e que Ele ressuscitou Jesus dos mortos, vindicando assim suas declarações pessoais radicais de ser o Filho de Deus e o Messias Judeu. Então, você se torna Seu seguidor.
O que você faz com respeito às cartas e biografias escritas por aqueles que eram seus primeiros seguidores e que foram colecionadas no Novo Testamento? Eles foram autores humanos direcionados por Deus para compor aqueles trabalhos? Esses escritos são inspirados? Quais são as implicações da inspiração? Inerrância? Inerrância em questões de fé e moralidade? Inerrância em tudo o que o autor ensina? Eu acho que você pode perceber que estas são perguntas para os de casa a serem discutidas e decididas entre os cristãos. Elas certamente não precisam ser resolvidas por alguém que está contemplando tornar-se um seguidor de Cristo!
Ao responder estas perguntas, você precisa ter muito cuidado para não impor o que você pensa que é uma doutrina adequada da inspiração sobre esses documentos em vez de permitir que eles ensinem a você o que a inspiração implica. Eu percebo que muitas pessoas têm, essencialmente, uma compreensão Muçulmana da inspiração, que equivale a uma teoria do ditado. Mas, diferente da visão muçulmana do Corão (ou Alcorão), os cristãos não acreditam em uma teoria do ditado na questão da inspiração. Nós acreditamos que a humanidade dos autores bíblicos é muito evidente, assim como acreditamos, ao mesmo tempo, que o Espírito Santo os guiava. (Veja o meu artigo sobre a Inspiração Bíblica na Perspectiva do Conhecimento Médio).
Eu acho que você demonstra presunções parecidas quando você pergunta sobre algo “especial ou divino nos próprios documentos Bíblicos (excluindo, por ora, as afirmações que eles fazem) que pode ser visto como evidência de que eles são algo especial/de autoria divina e não somente um produto humano?”. A Bíblia não é um livro mágico desse tipo. O Novo Testamento é, basicamente, uma coleção de cartas ocasionais, juntamente com algumas biografias de Jesus e uma história da igreja primitiva. Deixe que ela seja o que ela mesma declara ser. Sua decepção é somente o resultado da imposição de falsas expectativas.
Não estou dizendo que a Bíblia não é inerrante. Eu afirmo que ela é inerrante (ver Perguntas da Semana 10 e 11). O que estou dizendo é que essa é uma questão que você não precisa resolver antes de se tornar um cristão. Mike, agora você já possui todas as razões para dar esse passo; você pode estudar a doutrina da inspiração e suas implicações depois, sempre que quiser.
- William Lane Craig