English Site
back
5 / 06

#131 Deus como a Causa do Universo

September 25, 2014
Q

Dr. Craig,

Eu queria lhe agradecer novamente pelo seu tempo em responder minhas perguntas sobre seu Argumento Cosmológico Kalam no ETS do anos passado e antes do seu debate com o Dr. Carrier no início desse ano. Eu tenho mais duas questões a respeito da sua prova e apreciaria sua opinião!

No passado, a objeção “o que causou Deus?” nunca me pareceu mais do que um insignificante “te peguei!” da parte do descrente em resposta ao Kalam. Porém, lendo este comentário (em resposta a Daniel Dennett ter feito a mesma pergunta) no Reasonable Faith (página 114), fiquei com um sentimento preocupante:

"Dennett corretamente vê que um ser que existe eternamente, já que nunca surge, não tem necessidade de uma causa como tem as coisas que tem origem.”

Apesar dessa declaração ser verdade, ela não responde a objeção feita. Tudo que começa a existir tem uma causa, mas dizer que algo que não começa a existir não precisa de uma causa comete a falácia formal de negação do antecedente. Eu entendo que sua linguagem aqui afirma que tal Ser não tem necessidade de uma causa, significando que você tecnicamente não cometeu essa falácia em seu livro, mas note que isso ainda deixa a pergunta sem resposta como se você tivesse presumido que este é o caso!

Em outro lugar, você provê um exemplo de uma bola de boliche descansando eternamente em uma cama como sendo a causa de um rasgo na cama. Assim, o rasgo não começa a existir, mas ainda tem uma causa no sentido lógico anterior. Com esse mesmo raciocínio, por que uma Mente que criou o universo não pode ele mesmo ter um causa anterior lógica?

A única forma de escapar desse problema seria demonstrando que a Mente que causou o universo é necessária, se não você abre a porta para a possibilidade que o Criador é contingente, que Politeísmo pode ser verdade e assim que o Deus cristão pode não existir mesmo se o Kalam defende isso. Os quatro argumentos que normalmente seguem em sua defesa para o Deus cristão portanto se baseiam na suposição que o Kalam é bem sucedido necessariamente, depender daqueles argumentos a mais para estabelecer a necessidade do Criador que você coloca com o Kalam iriam então incorrer a petição de princípio!

Além disso, apelar para o argumento ontológico modal iria no máximo estabelecer que o número de causas logicamente anteriores ao Criador do universo é finito, a menos que você consiga justificar que o Ser necessário supostamente provado pelo argumento ontológico modal deve Ele mesmo ser a causa direta do universo. Mas pareceria mais conducente a grandeza máxima para ser a causa do criador do universo se isso fosse de qualquer forma possível! Envolver o argumento ontológico modal em uma tentativa de estabelecer necessidade da parte de um Criador na verdade estabelece que a objeção que eu fiz não é arbitrária, já que um “criador do Criador” poderia ser o ser de grandeza máxima.

Para minha próxima pergunta, por que a causa do universo não pode ser uma causa impessoal dentro da própria natureza do universo? Tecnicamente, o próprio espaço-tempo é o que começou a existir, e não necessariamente o universo; talvez antes do espaço-tempo o universo era uma singularidade cujas propriedades internas causaram (em um sentido anterior lógico) o próprio espaço-tempo a começar a existir. Dele, um universo poderia desenrolar-se como um tipo de carro de palhaço.

Quentin Smith mencionou tal singularidade em seu debate com ele de 2003, mas sua objeção confundiu “singularidade” no sentido de primeiro estado com “singularidade nua,” que de fato não é necessária na física nem era o caso que o Dr. Smith colocou. Além disso, você apontou o problema da contingência da própria singularidade, mas note nesse caso que mesmo se uma Mente causa a singularidade no sentido anterior lógico, a singularidade e a Mente coexistem naquele estado não-temporal anterior ao espaço-tempo começar a existir, significando que a causa do universo como conhecemos não pode ser o Deus cristão, pois Ele cria ex nihilo!

Finalmente, pode ser estabelecido que a singularidade que eu proponho é em si necessária; as alternativas, que o universo surgiu do nada mesmo que pela vontade da onipotência, parecem tão insustentáveis quanto um solteiro casado. Uma singularidade necessária não-espacial e não-temporal que desdobra o espaço e o tempo por seu próprio mecanismo interno evita o problema ex nihilo. E como o modelo de Quentin Smith mostra, um estado simultâneo de arranjos causais internos a essa singularidade está em harmonia com atemporalidade e é suficiente para causar separação causal espacial e temporal para começar a existir como o efeito desse primeiro estado simultâneo.

Eu aprecio sua atenção a minhas perguntas e estou ansioso para ir além em minha investigação para dentro desta pergunta extremamente importante através dos seus trabalhos acadêmicos!

Felicidades,

Darrin

United States

Dr. Craig responde


A

Estas são perguntas excelentes e profundas, Darrin, que eu farei o meu melhor para responder. Quando eu escrevi o Argumento Cosmológico Kalam, tentei deduzir o maior número de propriedades da causa do universo teologicamente significativos que eu conseguisse. Apesar de existir um número grande de atributos divinos tradicionais que poderiam ser encontrados por uma análise conceitual da conclusão do argumento, ficou claro que muitos atributos importantes não podiam, mais notavelmente as propriedades morais da primeira causa, mas também sua necessidade e unidade metafísica. Eu achei, porém, e ainda acho, a modéstia da conclusão do argumento atraente. Ela não tenta provar demais, mas justifica a crença em um Criador Pessoal do universo.

Então considere a pergunta “o que causou Deus?”. Lembre-se que o próprio Dennett afirma que apenas as coisas que tem uma origem temporal tem causas. Segue que já que o Criador do universo não tem uma origem temporal ele não tem causa. Agora, você está certo que essa conclusão não segue das premissas do argumento kalam apenas, mas da suposição adicional de Dennett. O que podemos dizer sob a base do argumento kalam apenas é que apesar de o universo precisar de uma causa, nenhuma razão tem sido dada para pensar que o Criador precisa ter uma causa. A Navalha de Ockham que nos sugere não postular causas além da necessidade, irá portanto raspar quaisquer causas adicionais. Dada a Navalha de Ockham, somos justificados em postular apenas as causas que são necessárias para explicar o efeito. Portanto não existiria justificativa para postular uma pluralidade de causas. A bola então está na quadra do oponente: ele precisa dar boas razões para pensar que mesmo entidades atemporais necessitam de causas - uma proposta que é, como Dennett discerne, altamente inverossímil e largamente rejeitado por metafísicos, cujas ontologias frequentemente incluem entidades sem causa e eternas como objetos abstratos.

Não somente isso, mas devido ao sucesso dos argumentos filosóficos contra um regresso infinito, nós sabemos que deve haver uma primeira causa no tempo, que é portanto sem causa no sentido de não ter uma causa temporalmente anterior. Se ele é causado, poderia ter no máximo um tipo de causa sustentadora, que você chama de “causa logicamente anterior.” Mas mais uma vez, o argumento contra um infinito atual (real) irá fazer com que tal regresso causal não possa ser infinito e que deve-se chegar a uma primeira causa absolutamente sem causa. Ao mesmo tempo que causas intermediárias não são excluídas pelo argumento kalam, a postulação delas ainda é sem fundamento, e portanto é mais simples concluir que a primeira causa sem causa que é provido pelo argumento é a causa imediata do universo.

Então eu acho que você está enganado que existe um problema aqui que precisa de uma resposta (escape), muito menos que o escape disso requer demonstrar que a primeira causa é um ser necessário. O argumento kalam, como eu tenho dito, deixa uma pergunta aberta se o Criador é necessário ou contingente em um sentido amplamente lógico (isto é, se Ele existe em todos os mundos possíveis). Além do mais, a mera possibilidade ou mesmo realidade de causas intermediárias (o que você chama de politeísmo) não é problemática. Deus poderia ter usado intermediários (anjos?) para criar o mundo. Mas a Navalha de Ockham coloca o ônus da prova perfeitamente nos ombros do oponente para provar que existem tais causas intermediárias. Finalmente, os outros argumentos teístas que eu defendo não dependem de qualquer forma no sucesso do argumento kalam, muito menos em demonstrar a necessidade do Criador. Pelo contrário, são esses argumentos - notavelmente o argumento cosmológico Leibniziano, o argumento moral e o argumento ontológico - que nos dão o que o argumento kalam sozinho não poderia nos dar, isto é, a necessidade metafísica da última explicação. Eu descordo que um ser de grandeza máxima deve ser o criador do Criador do universo, já que onipotência é uma propriedade modal que concerne o que alguém é capaz de fazer, e simplesmente não há razão para pensar que a habilidade de criar um criador do universo resulta em de fato fazê-lo. Eu acho que você pode ver, Darrin, que é o oponente do argumento, não seu defensor, que está engajado em especulações metafísicas sem fundamento.

Quanto a sua segunda pergunta, “por que a causa do universo não pode ser uma causa impessoal dentro da própria natureza do universo?,” eu diria que, ao contrário da sua afirmação, não foi meramente o espaço-tempo que começou a existir, mas o espaço-tempo juntamente com quaisquer pontos de limite que ele possa ter. Na verdade, como você deve saber do meu trabalho sobre a natureza do tempo, eu sou um anti-realista quando o assunto é espaço-tempo. Espaço-tempo é, eu acho, apenas um dispositivo heurístico, um jeito geométrico de mostrar a relação das coisas no espaço e no tempo. Eu rejeito a visão das quatro dimensões, a visão de que as coisas estão extendidas no tempo assim como estão no espaço, e sua teoria do tempo concomitantemente atemporal ou estático, que vê a distinção entre passado, presente e futuro como uma ilusão da consciência humana e o tornar-se temporal como irreal. Eu portanto penso que o tempo da forma como cumpre seu papael na física é na melhor das hipóteses uma medida do tempo em vez de o tempo em si. Eu defendo todas estas afirmações mais demoradamente em meus livros The Tensed Theory of Time: A Critical Examination [A Teoria Temporal do Tempo: Um Exame Crítico] (2000) e The Tenseless Theory of Time: A Critical Examination [A Teoria Atemporal do Tempo: Um Exame Crítico] (2000), ambos disponíveis através de Springer Verlag.

Dadas meus comprometimentos metafísicos a respeito do tempo, eu não acho que a singularidade cosmológica inicial, se ela existe, existe atemporalmente ou nunca começou a existir. Ela existe fora do tempo físico (tempo como definido pela Teoria Geral da Relatividade) porque é um ponto limite do espaço-tempo em vez de um ponto dentro ou do espaço-tempo. Não obstante, é claramente dentro do tempo metafísico, uma vez que é evanescente, existindo e deixando de existir. De acordo com isso, requer uma causa para sua origem.

Note que se Deus coexistisse atemporalmente com a singularidade, como você sugere, e é a causa sustentadora da singularidade, isso não faz nada para enfraquecer a doutrina que a criação não tem uma causa material. Pelo contrário, em tal visão Deus é a causa de toda a realidade material assim como Ele seria a causa de qualquer objeto abstrato que Ele atemporalmente sustenta a existência. Eu ainda concordo com a visão bíblica que o mundo real contém um estado de existência que consiste de Deus existindo sozinho sem quaisquer entidades co-existentes e atemporais.

Finalmente, seus comentários sobre a necessidade da singularidade inicial me levam a pensar que você não acertou muito bem a noção de necessidade metafísica. Pois mesmo se a singularidade existe atemporalmente e não-espacialmente, como você imagina, isso não faz nada para mostrar que ela existe em todos os mundos possíveis. Esta mesma confusão parecia estar na base da sua suposição que o argumento kalam aspira provar a necessidade da primeira causa sem causa. De qualquer forma, eu já expliquei porque eu não acho que a singularidade cosmológica inicial, se existe, existe atemporalmente e não-espacialmente. Finalmente, Darrin, eu acho que você é muito rápido em sua afirmação que a proposta que o universo tem uma causa eficiente mas não tem uma causa material é logicamente impossível. Diferentemente do caso do solteiro casado, o conceito de um universo com uma causa eficiente mas imaterial não é obviamente incoerente. Se você tem uma prova que é, eu sei de muitos periódicos que estariam prontos para publicá-la!

"Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração.” (Jeremias 29.13).

- William Lane Craig