#217 Os Mandamentos de Deus Poderiam Ser Melhorados?
August 03, 2013Eu recentemente assisti ao seu debate com o Sam Harris, e tenho algumas perguntas para você.
Em primeiro lugar, se os valores morais são determinados por decretos de Deus, isso parece sugerir que eles não são negociáveis. Digo isso porque um ser que é definido como completamente bom não nos daria uma posição moral defeituosa e esperaria que nós a seguíssemos. Então, como é que vamos melhorar moralmente se seria uma óbvia melhoria não seguir o bíblia? Eu faço referência ao antigo testamento onde crimes frívolos acarretam a punição de morte por apedrejamento. Não seria mais moral não apedrejar os homosexuais até a morte e, ao invés disso, permitir que eles contribuam para a sociedade?
Em segundo lugar, na seção de perguntas e respostas, você faz a afirmação de que a Bíblia é uma boa base moral, pois você não consegue pensar em outra alternativa do ponto de vista ateu. Essa não é uma falácia de apelo à ignorância?
Por fim, tentando juntar essas duas perguntas, você não concorda que é moralmente repreensível se recusar a adotar uma visão de mundo mais moral? Parece que o fundamento moral do cristianismo bíblico pode ser melhorado ao se ignorar passagens da Bíblia (como o apedrejamento até a morte por homossexualidade), e os ateus são igualmente capazes de obter tal base moral (que, aliás, é uma melhoria em relação à bíblia).
William
United States
Dr. Craig responde
A
Eu acho que há alguns mal-entendidos fundamentais por trás das suas perguntas, William, o que vicia a força delas. No entanto, acredito que questões desse tipo deixam muitos perplexos. Então, vamos tratar delas em ordem.
1. Na teoria ética do Mandamento Divino que eu defendo, os mandamentos de Deus para nós não são negociáveis na medida em que nós temos uma obrigação moral de obedecer os mandamentos de Deus. A desobediência aos Seus mandamentos é uma falha em cumprir os nossos deveres morais.
Não resulta disso que a melhoria moral é impossível, pois os mandamentos de Deus podem ser contingentes à realidade da condição humana em relação ao tempo e o local dos destinatários desses mandamentos. Pessoas reais, dadas as circunstâncias nas quais elas existem, podem não ser capazes de receber ou realizar o ideal moral de Deus para elas e, por isso, recebem os mandamentos que, embora possam estar muito aquém do ideal, são adequados à realidade de sua situação.
Essa não é apenas uma possibilidade hipotética. Isso é o que a Bíblia ensina sobre os mandamentos de Deus. Um dos exemplos mais claros disso é o ensinamento de Jesus a respeito do divórcio na lei Mosaica. "Moisés lhes permitiu divorciar-se de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio." (Mt 19,8) Aqui Jesus diz que a lei de Moisés não representava o ideal de Deus para o casamento estabelecido na criação, mas que ela estava condicionada historicamente devido à dureza moral das pessoas a quem ela foi dada.
Uma das características positivas do livro de Paul Copan Is God a Moral Monster?, ao qual eu me referi no debate, é a sua ênfase no fato de que as leis do Antigo Testamento foram condicionadas historicamente a um povo específico, num momento específico, e num lugar específico, e nunca foram destinadas a ser princípios éticos atemporais que iriam governar todos os povos em todos os momentos e sob todas as circunstâncias. Deus deu ao povo de Israel Antigo leis que foram adequadas às suas circunstâncias históricas, ainda que elas não expressassem o Seu ideal moral.
Além disso, outro fator importante que você negligencia, William, é a distinção entre a lei moral e a lei civil. Israel Antigo sob Moisés era uma teocracia: Deus era o governante. Nós não vivemos numa teocracia, de modo que muitos atos que são profundamente imorais (como o adultério) não são ilegais. Essa distinção não existia em Israel Antigo. Então, o adultério era um crime capital. (Você está enganado, a propósito, em pensar que a homossexualidade, como tal, era um crime capital; o que era criminoso era a atividade sexual fora do casamento, quer seja heterossexual ou homossexual.) Em nossa sociedade sexualmente promíscua essa avaliação de imoralidade do adultério parece simplesmente inconcebível. Mas eu entendo isso como uma medida do quão longe estamos do ideal moral de Deus para o casamento e quão seriamente Ele vê a castidade e a fidelidade conjugal. Embora o adultério não seja ilegal numa sociedade não-teocrática, ele continua a ser um pecado que é profundamente imoral aos olhos de Deus. Como nós vivemos numa sociedade não-teocrática, nós não devemos tentar tornar tudo o que é imoral também ilegal.
2. Tenho certeza de que eu não proferi nenhuma das afirmações que você atribui a mim. Em primeiro lugar, essa alegação parece negligenciar a distinção que eu estava assinalando durante toda a noite entre epistemologia moral e ontologia moral. A questão da fundamentação dos valores e deveres morais é uma questão de ontologia moral. Assim, a Bíblia é simplesmente irrelevante para essa questão. A Bíblia se tornaria relevante somente se nós estivéssemos fazendo a pergunta epistemológica quanto ao conteúdo de nossos deveres morais. Eu acho que a Bíblia é um guia útil sobre essa questão, contanto que seja utilizada corretamente (por exemplo, que os mandamentos emitidos no âmbito de um Estado teocrático não sejam tomados fora de seu contexto histórico e interpretados como princípios éticos atemporais). Em segundo lugar, eu certamente não adoto a Bíblia como um guia para o comportamento moral apenas porque eu não consigo pensar em nenhuma alternativa do ponto de vista ateu. Eu tenho apresentado evidências para a conclusão de que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus e a revelação pessoal de Deus, de modo que devemos acreditar no que ele ensinou, incluindo os seus ensinamentos éticos. Finalmente, em terceiro lugar, eu posso pensar em muitas alternativas ateístas (como a visão de Sam Harris), eu só não acho que elas sejam sustentáveis.
3. Eu concordo que se uma pessoa é informada a respeito da adequação moral de pontos de vista concorrentes e escolhe uma visão que é menos moral do que outra que ela sabe ser superior, então essa pessoa agiu imoralmente. Mas a comparação adequada aqui não é entre o cristianismo e o ateísmo. Porque, como eu argumentei no debate, a alternativa ateísta é incapaz de fornecer uma fundação adequada para valores e deveres morais objetivos. É por isso que, em resposta à afirmação de Sam Harris de que “eu não conheço uma teoria ética menos moral do aquela que o Dr. Craig está propondo”, eu exclamei: “o ateísmo é que possui o arcabouço ético menos moral! No ateísmo não existe um fundamento para valores ou deveres morais objetivos." Enquanto você não responder ao Problema do Valor, ao problema do “é/deveria”, e ao problema do “ser implica poder", William, você não tem motivo para pensar que o ateísmo é capaz de assegurar tal fundamento. Agora isso coloca você numa situação moral difícil, pois, na ausência de respostas a essas objeções, você está, nos seus próprios termos, rejeitando uma visão de mundo mais moral e, portanto, agindo de uma forma moralmente repreensível.
Então, se há uma comparação a ser feita aqui, ela será entre formas concorrentes de teísmo. O cristianismo, por exemplo, constitui um avanço moral em relação ao judaísmo Mosaico? Sim; eu já afirmei que o sistema moral de Israel Antigo era inferior em relação à revelação por Jesus da vontade moral mais perfeita de Deus.
- William Lane Craig