#296 Deus Pode Fundamentar Verdades Morais Necessárias?
August 04, 2013Caro Dr. Craig,
Tem havido muitas perguntas recentemente a respeito da fundamentação em Deus da existência da moralidade, e eu também tenho uma. O filósofo cristão Richard Swinburne rejeita o argumento moral de Deus, porque, segundo ele, as verdades morais são necessariamente verdadeiras, e, assim, a existência de Deus não pode ter um efeito sobre a verdade delas.
Ele chega à conclusão de que as verdades morais são necessárias porque certos eventos são vistos como sendo moralmente bons ou maus; mais do que isso, a bondade ou maldade moral de um evento é inseparável da situação em si. Então, Swinburne afirma, não existe um mundo possível em que as mesmas coisas ocorrem como ocorreram durante o holocausto e em que o holocausto não seja moralmente abominável. O mesmo ocorre com outros eventos que são considerados moralmente bons ou maus. Não há nenhum mundo possível em que o acontecimento seja o mesmo que no mundo atual e no qual o julgamento moral do evento seja diferente daquele no mundo atual. Assim, Swinburne conclui que o julgamento moral de um evento é necessário para o próprio evento. E isso leva naturalmente à sua conclusão de que a existência ou não-existência de Deus é irrelevante para a existência de juízo moral, uma vez que o juízo moral é necessário, dado o evento.
O argumento de Swinburne minaria, portanto, uma das premissas do seu argumento moral. Eu sou estudante de filosofia cristã numa universidade secular onde muitos dos meus professores têm uma visão semelhante à de Swinburne, sustentando que a objetividade dos valores morais não depende da existência de Deus. Tenho lido e ouvido os seus argumentos sobre o absurdo da vida sem Deus, e estou atualmente indeciso. Qual seria a sua resposta ao argumento de Swinburne?
Robert
United States
Dr. Craig responde
A
Tenho recebido um grande número de perguntas a respeito de Deus e a moralidade recentemente, Robert, e estou contente por receber a sua. Richard Swinburne foi uma das sete pessoas que escreveram respostas para a versão publicada do meu debate com o falecido filósofo humanista Paul Kurtz, intitulado Is Goodness without God Good Enough? Na minha resposta final aos comentadores, respondo à objeção de Swinburne, que você resume.
Concordo plenamente com Swinburne que algumas verdades morais são verdades necessárias. (Algumas podem ser contingente em virtude de uma ordem divina emitida contingentemente por Deus, por exemplo, o mandamento de guardar o sábado.) Aqueles que já ouviram eu defender o argumento moral para a existência de Deus em debate sabem que eu gosto de citar Michael Ruse: “O homem que diz que é moralmente aceitável estuprar crianças está tão equivocado como o homem que diz que 2+2=5”. Aqui Ruse atribui a uma verdade moral o mesmo tipo de necessidade lógica ampla que é tipicamente atribuída a verdades matemáticas. Assim, a necessidade de certos princípios morais não serve para separar a visão de Swinburne da de teóricos do mandamento divino como Robert Adams e eu.
Uma das coisas que estamos procurando em uma teoria moral é uma espécie de explicação para as verdades morais que existem. O teórico da ética Shelley Kagan tem enfatizado a necessidade de explicações sólidas em teoria moral. Ele insiste: “Essa necessidade de explicação na teoria moral não pode ser subestimada. . . . Em última instância, a menos que tenhamos uma explicação coerente dos nossos princípios morais, não temos um terreno satisfatório para acreditar que eles sejam verdadeiros.” Ele antecipa a objeção de que todas as explicações devem terminar em algum lugar. “Talvez isso seja verdadeiro”, ele responde, “mas isso não seria razão para se cortar a explicação em um nível superficial.” A menos que tenhamos uma explicação adequada, diz ele, os nossos princípios morais “não vão estar livres daquela mancha de arbitrariedade” que caracteriza as listas de compras de princípios morais ad hoc. Ele corretamente afirma que “uma das coisas que nós queremos que a nossa teoria moral nos ajude a compreender é como é possível haver um reino moral, e que tipo de estatuto objetivo ele tem.” A teoria ética do mandamento divino procura fornecer uma explicação para verdades morais necessárias.
O pomo da discórdia será, então, não a necessidade de certas verdades morais, mas a suposição tácita de Swinburne de que as verdades necessárias não podem estar em relações de prioridade explicativa umas com as outras. Por que devemos aceitar essa suposição? Não só não vejo nenhuma razão para pensar que essa suposição seja verdadeira, mas ela me parece obviamente falsa. Por exemplo, os axiomas da aritmética de Peano são, em termos explicativos, anteriores a “2+2=4”, do mesmo modo que os axiomas da teoria dos conjuntos de Zermelo-Fraenkel são anteriores aos teoremas subsequentes. Em metafísica, devo dizer que “nenhum evento precede a si mesmo” é necessariamente verdadeiro, porque é necessariamente verdadeiro que “a sucessão temporal é uma característica objetiva e essencial de tempo.” Para dar um exemplo teológico, eu diria que é necessariamente verdadeiro que “estados de consciência existem”, uma vez que “Deus existe” é necessariamente verdadeiro. Ou seja, o fato de que um ser pessoal, metafisicamente necessário como Deus existe explica por que é necessariamente verdadeiro que existem estados de consciência. Eu deveria considerar como totalmente implausível a sugestão de que a relação de prioridade explicativa nesses casos é simétrica. Seria inepto defender, por exemplo, que a razão pela qual é necessariamente verdadeiro que Deus existe é por que, necessariamente, existem estados de consciência.
Mas se as verdades necessárias podem estar em relações assimétricas de prioridade explicativa umas em relação às outras, então não há nenhuma objeção à constatação de que os valores morais existem porque Deus existe. No teísmo clássico, não existe um mundo possível em que Deus não existe e, uma vez que o Seu caráter Lhe é essencial, nenhum mundo no qual certos valores morais não existem. O problema para Swinburne é que ele acha que Deus existe contingente e, portanto, que Ele não pode fundamentar as verdades morais necessárias. Tal visão não está apenas fora de sintonia com o teísmo clássico, que afirma que a existência de Deus é metafisicamente necessária, mas é terrivelmente deficiente teologicamente. Deus um ser contingente? O insight central do argumento ontológico de Anselmo, independentemente de o considerarmos como uma tentativa de teologia natural bem-sucedida ou não, é que, se Deus, o maior ser concebível, existe, Ele existe necessariamente. A existência de Deus é, então, ou necessária ou impossível.
Teístas clássicos, ao contrário de Swinburne, portanto, não têm nenhum dificuldade em conceber a fundamentação de verdades necessárias em Deus.
- William Lane Craig