#685 Os neandertais podiam falar?
July 17, 2020Caro Dr. Craig,
Acabei de assistir ao seu diálogo com Joshua Swamidass em “Capturing Christianity” onde o senhor adota a visão de que o Adão histórico é muitíssimo antigo, mais provavelmente membro da espécie Homo heidelbergensis, na sua estimativa. A principal dificuldade que vejo nessa perspectiva é o problema da linguagem humana. Os melhores indícios que temos sugere que a linguagem humana evoluiu em algum momento entre 50 mil e 150 mil anos atrás, bem depois do Homo heidelbergensis se extinguir. Ainda assim, o livro de Gênesis parece deixar claro que Adão e Eva, bem como sua descendência imediata, conseguem usar e entender linguagem falada complexa, isto é, palavras e sintaxe, em vez de meros grunhidos e gestos protolinguísticos. Isto parece ser uma séria incoerência, em especial se considerarmos como a língua é algo singularmente humano.
Atenciosamente,
Scott
Espanha
Spain
Dr. Craig responde
A
Você está bem certo, Scott, em ver a habilidade linguística como indicador da capacidade cognitiva humana moderna. Você também está certo ao dizer que Gênesis retrata Adão e Eva como possuidores desta mesma habilidade.
A dificuldade óbvia em descobrir quão antiga é a capacidade linguística é que a língua não deixa nenhum rastro no registro arqueológico (ao menos até a escrita ser inventada 3 mil anos atrás). Assim, paleoantropólogos têm de buscar pistas anatômicas e arqueológicas que sugeririam habilidade linguística.
Anatomicamente, um cérebro grande no hominídeo é pré-requisito para a capacidade linguística, e a presença dele aumenta a probabilidade da habilidade linguística. Por isso, Lewis e Foley pensam que, uma vez que os hominídeos atingiram o tamanho cerebral acima de 100 cm3, parece haver pouca dúvida de que as capacidades linguísticas existiam e que, portanto, a linguagem podia estar presentes ao menos nos neandertais.[1]
Dada a escassez de informações a serem ganhas de endocastos cranianos, pesquisadores se voltam para o estudo de outras características anatômicas necessárias para a fala. Muito se investigou sobre a importância das diferenças no trato vocal neandertal comparado com o do Homo sapiens. Observando estudos que parecem mostrar que um neandertal provido de um tratado vocal moderno teria uma laringe impossivelmente baixa no tórax, Daniel Lieberman pergunta: “Se for verdade, será que este resultado significa que neandertais, outras espécies do Homo arcaico e possivelmente até alguns humanos modernos primitivos não podiam falar? Claro que não. É difícil imaginar que carecessem de capacidade para a fala, em particular considerando os seus cérebros grandes. É possível, porém, que a articulação deles fosse menos precisa do que aquela de um humano moderno adulto, talvez a de crianças de 4-6 anos, desprovidas de iiis e uuus quantais”.[2] Deveras, Philip Liberman pensa que “a fala devia estar presente em hominídeos arcaicos ancestrais dos humanos e neandertais. Não deve ter havido nenhuma vantagem seletiva para reter mutações que produzissem a fala específica à espécie humana, produzindo anatomia à custa da morbidez aumentada pela sufocação, a menos que a fala já estivesse presente”.[3]
Uma sondagem dos indícios arqueológicos indica comportamentos entre neandertais e outros humanos arcaicos que, plausivelmente, exigiam habilidade linguística. Dediu e Levinson resumem:
A linguagem fornece a capacidade de levar adiante a cultura (p. ex., não há tecnologias avançadas sem linguagem), e esta ligação permite inferências razoáveis a partir do registro arqueológico. Portanto, achamos enormemente provável que neandertais eram seres articulados tanto quanto nós mesmos, ou seja, com vocabulários amplos e estruturas combinatórias que permitiam transmitir conteúdo proposicional e força ilocucionária. Somente tal sistema avançado de comunicação poderia ter levado adiante as adaptações culturais avançadas que os neandertais exibiam...
Caso se considerem todas as habilidades culturais necessárias para sobreviver em ecologias do Ártico até aos litorais mediterrâneos, pobres em animais de caça, é difícil argumentar que os neandertais carecessem de códigos linguísticos complexos, capazes de comunicar sobre localizações espaciais, caçada e colheita, fauna e flora, relações sociais, tecnologias e assim por diante. Conceder aos neandertais capacidades linguísticas avançadas nos parece inevitável.[4]
Permita-me dar quatro exemplos específicos, cada qual impressionante. Primeiro, as construções neandertais na caverna de Bruniquel, na França, datadas de 176 mil anos atrás. Jacques Jaubert, o arqueólogo principal no sítio, relata:
Este tipo de construção subentende os princípios de uma organização social: esta organização podia consistir de um projeto elaborado e discutido por um ou vários indivíduos, da distribuição das tarefas de escolher, coletar e calibrar os espeleofatos [estalagmites], seguidas de seu transporte (ou vice-versa) e alocação conforme plano predeterminado. Este trabalho também demandaria iluminação adequada. A complexidade da estrutura, combinada com o seu difícil acesso (335 m da entrada da caverna), são sinais de um projeto coletivo e, portanto, sugerem a existência de uma sociedade organizada que já estava no caminho para a “modernidade”.[5]
Não apenas a complexidade das estruturas, porém, é indicadora de projeto. As represas e cabanas de Beavers são, provavelmente, de igual complexidade, sendo, porém, o resultado de instinto cego, e não de concepção e planejamento, como fica evidente a partir da uniformidade e frequência delas. O que distingue as construções neandertais é a sua convencionalidade, evidente em sua raridade e alocação, a essência do pensamento simbólico. Ao refletir na importância da descoberta na caverna de Bruniquel, Chris Stringer nota: “esta descoberta dá claros indícios de que os neandertais tinham capacidades plenamente humanas no planejamento e construção de estruturas de ‘pedra’”.[6]
Em segundo lugar, a incrível descoberta recente de um pedaço de corda manufaturada por neandertais 40-50 mil anos atrás.[7] Uma fragmento de corda de tripla camada foi descoberto no sítio neandertal de Abri du Maras, França. A corda tem três filamentos de fibras obtidas da casca interna de uma conífera, cada um torcido no sentido horário e, depois, torcidos em conjunto no sentido anti-horário. Os escavadores enfatizam que a manufatura de cordas envolve uma sequência complexa de operações, incluindo o processamento de fibras de casca e o acompanhamento de múltiplas operações sequenciais, simultaneamente, para trançar uma corda. “De fato, a produção de cordas demanda a compreensão de conceitos matemáticos e aritmética geral na criação de conjuntos de elementos e pares de números para elaborar a estrutura”.[8] À medida que a estrutura se torna mais complexa (múltiplos cordões torcidos para formar uma corda, cordas entrelaçadas para formar nós), ela “exige uma complexidade cognitiva semelhante àquela exigida pela linguagem humana”.[9] Hardy et al. são da opinião de que, tendo em vista as contínuas revelações de arte e tecnologia neandertais, “é difícil ver como podemos considerar neandertais como se não fossem semelhantes cognitivos dos humanos modernos”.[10]
Em terceiro lugar, a arte rupestre neandertal. Você é da Espanha, Scott, então gostará de saber que as representações artísticas descobertas em sítios neandertais na Espanha dão indícios de pensamento simbólico. Estênceis manuais foram identificados na caverna de Maltravieso, além de outros exemplos de pinturas não-figurativas na caverna de la Pasiega e na caverna de Ardales. As pinturas datam, coletivamente, de 65 mil anos atrás, no mínimo. Ao refletir sobre a importância desse achado, Hoffman et al. afirmam:
Esta atividade de pintura rupestre constitui um comportamento simbólico por definição, profundamente enraizado. Em Ardales, episódios distintos ao longo de um período de mais de 25 AP corroboram que não estamos lidando com uma explosão singular, mas com uma longa tradição que pode se estender de volta até ao tempo da construção anular encontrada na caverna de Bruniquel, França, datada de 176.5 ± 2.1 AP atrás. A datação dos resultados do sítio da escavação em Cueva de los Aviones, Espanha, que situa o uso simbólico de conchas marinhas e pigmentos minerais por neandertais em >115 AP atrás, reforça ainda mais a antiguidade do simbolismo neandertal.[11]
A presença contemporânea de arte rupestre semelhante, tanto na Espanha quanto na Indonésia, a meio mundo de distância, e a idade do uso ornamental de conchas por neandertais subentendem a origem do comportamento simbólico, que é ainda mais antigo. Hoffman et al. concluem: “O corolário destes achados é que a capacidade para o simbolismo deve ter sido herdada de um ancestral comum. Como hipótese instrumental, sugerimos que as origens da linguagem e da cognição avançada características dos humanos vigentes pode preceder o período antes da divergência da linhagem neandertal, mais de meio milhão de anos atrás”.[12][TB1]
Por fim, em quarto lugar, os indícios de caça de animais de grande porte. As oito lanças de madeira descobertas em Schöningen, Alemanha, apontam para a cooperação e planejamento pré-neandertais que, plausivelmente, demandavam habilidade linguística.
As lanças datam do terceiro período interglacial, 400-300 mil anos atrás. Foram feitas reproduções das lanças de Schöningen, que calharam de estar no mesmo nível de dardos olímpicos![13] Hartmut Thieme, o principal escavador em Schöningen, defende que só a manufatura das lanças, sem contar a cooperação envolvida na caça de gado selvagem, é suficiente para o pensamento abstrato e conceptual.[14] As lanças foram encontradas com os restos de uma manada de cavalos selvagens, a presa dos caçadores. Os caçadores, aparentemente, encurralaram a manada de cavalos na encosta de um lago e podem tê-los forçado para dentro da água, onde a fuga teria sido desacelerada, relevando, assim, uma estratégia de caça. Thieme crê que, para o sucesso de tal empreitada, deve ter havido “planejamento, coordenação e discussão extremamente cuidadosos entre os caçadores”, até aos mínimos detalhes.[15] “Encontrados com as ferramentas de pedra e os restos esquartejados de mais de dez cavalos, as lanças dão forte indicação de que a caçada sistemática, envolvendo previdência, planejamento e o uso de tecnologia apropriada, era parte do repertório comportamental dos hominídeos pré-modernos”.[16] Thieme até mesmo acredita que já deve ter havido, entre os caçadores nesse tempo antigo, “comunicação verbal altamente desenvolvida e ricamente diversa”.[17]
Infelizmente, nenhum resto humano foi encontrado com as lanças de Schöningen, restando-nos a tarefa de adivinhar a identidade dos caçadores. A incrível antiguidade desses artefatos e a semelhança deles com os achados em Clacton e Boxgrove, Inglaterra, onde restos humanos foram encontrados, sugere que foram o projeto e manufatura do Homo heidelbergensis, o aparente progenitor do Homo neanderthalensis e Homo sapiens.
Por isso, acho que você consegue ver, Scott, que a habilidade linguística entre neandertais e os seus progenitores não pode, de forma alguma, ser descartada.
[1] Roger Lewin and Robert A. Foley, Principles of Human Evolution, 2.ed. (Oxford: Blackwell, 2004), p. 474.
[2] Daniel E. Lieberman, The Evolution of the Human Head (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2011), pp. 330-31. Uma cavidade oral mais comprida “não exclui a possibilidade de que o Homo arcaico pudesse falar ou tivesse linguagem sofisticada, mas sugere, sim, fala um pouco menos articulada (quantal), talvez comparável à de humanos modernos com 4 a 6 anos de idade” (Ibid., p. 589). Permita-me acrescentar, por anedota, que, quando meu neto de dois anos e meio fala seus As, Bs, Cs, os seus sons são perfeitamente claros.
[3] Philip Lieberman, “Current views on Neanderthal speech capabilities: A reply to Boe et al. (2002)”, Journal of Phonetics 35/4 (2007): 559 [grifo meu].
[4] Dan Dediu and Stephen C. Levinson, “Neanderthal language revisited: not only us”, Current Opinion in Behavioral Sciences 21 (2018): 52-53.
[5] Jacques Jaubert et al., “Early Neanderthal constructions deep in Bruniquel Cave in southwestern France”, Nature 534 (2016), Extended Data, Fig. 8.
[6] Chris Stringer, "A comment on the 'Early Neanderthal constructions deep in Bruniquel Cave in southwestern France' paper published in Nature", Natural History Museum, London (25 de maio de 2016), https://www.nhm.ac.uk/press-office/press-releases/comment-on-early-neanderthal-constructions-in-brunique-cave.html. “Pedra” está entre aspas porque os espeleofatos eram estalagmites.
[7] B. L. Hardy et al., “Direct evidence of Neanderthal fibre technology and its cognitive and behavioral implications”, Science Reports 10 (2020): 4889 https://doi.org/10.1038/s41598-020-61839-w.
[8] Ibid.
[9] Ibid.
[10] Ibid.
[11] D. L. Hoffmann, et al., “U-Th dating of carbonate crusts reveals Neandertal origin of Iberian cave art,” Science 359, no. 6378 (23 Feb 2018), p. 915, DOI: 10.1126/science.aap7778. Ver também Dirk L. Hoffmann et al., “Symbolic Use of Marine Shells and Mineral Pigments by Iberian Neandertals 115,000 Years Ago”, Science Advances 4, no. 2 (fevereiro de 2018): eaar5255, https://doi.org/10.1126/sciadv.aar5255.
[12] Hoffmann et al., “Symbolic use.”
[13] As lanças de Schöningen têm, em média, 2,2 m de comprimento e 500 g de peso, sendo só um pouco mais pesadas (em 100 g) do que dardos lançados por atletas do sexo feminino. Três réplicas de madeira das lanças foram testadas para distância, precisão e penetração. Sem terem treinado com as lanças, atletas conseguiram atingir resultados comparáveis aos de dardos modernos.
[14] Hartmut Thieme, “Der grosse Wurf von Schöningen: Das neue Bild zur Kultur des frühen Menschen”, in Die Schöninger Speere: Mensch und Jagd vor 400 000 Jahren, ed. Hartmut Thieme (Stuttgart: Konrad Thiess Verlag, 2007), p. 227.
[15] Hartmut Thieme, “Überlegungen zum Gesamtbefund des Wild-Pferd-Jagdlagers”, in Die Schöninger Speere, p. 178.
[16] Hartmut Thieme, “Lower Paleolithic Hunting Spears from Germany”, Nature 385 (27 de fevereiro de 1997), p. 807.
[17] Hartmut Thieme, “Der grosse Wurf von Schöningen”, p. 227.
- William Lane Craig