#163 Passado e Futuro no Argumento Cosmológico Kalam
October 28, 2014Dr. Craig,
Quando você veio para a nossa escola em março passado para debater Richard Carrier, nosso professor de filosofia, Richard Field, queria falar com você sobre o argumento cosmológico kalam. Ele nunca teve a oportunidade de ter essa discussão com você, mas recentemente ele repassou suas ideias para mim, e eu lhe disse que iria enviá-los para você e deixá-lo responder. Vou citar seus longos comentários abaixo:
"Mais uma vez, a minha resposta ao argumento é que eventos passados não são reais, então a questão de saber se um infinito real é possível ou não simplesmente não se aplica ao passado. Num nível intuitivo, isso certamente parece certo. Eu comer meu café da manhã não é um evento real. Nem a travessia de César do Rubicão. Estes são eventos do passado, e como tais, não são reais. Uma expressão comum, é claro, poderia sugerir de maneira diferente. Eu posso dizer com todo o sentido que "realmente eu comi o meu café da manhã." Mas nós podemos rapidamente colocar isso de lado, observando que a palavra "realmente" só é usada para dar ênfase. Eu posso igualmente dizer que "Eu realmente irei comer o café da manhã amanhã de manhã", onde claramente não sou falando de um evento real, com o que Craig / Sinclair concordariam.
A seção relevante do artigo que você me enviou é 2.12. Primeiro, eu estou surpreso que eles tenham escrito "A questão é bastante óbvia..." (que uma regressão infinita de eventos seria um infinito real). Se alguém apela para o que parece óbvio, como já referido anteriormente, acho que a situação é completamente o oposto. Eu acho que é bastante óbvio que não estou realmente comendo meu café da manhã, quando o termo "realmente" é usado em um sentido ontológico e não enfático. Mas vamos seguir em frente. Eles curiosamente apelam para as séries-B, de McTaggart, para alegar que "não pode haver nenhuma dúvida" de que uma regressão infinita de eventos seria real, quando na seção anterior eles argumentaram contra a ideia de que a teoria da relatividade estabelece as séries-B como fundamentais. Acho que isso foi simplesmente destinado a completude.
Mas então eles levantam a questão "se a distribuição de eventos temporais durante o passado em uma ontologia presentista (séries-A) impede que digamos que o número de eventos em uma série de eventos sem começo é realmente infinito." Então, aqui parece que é o início do núcleo da resposta deles. Em primeiro lugar, eles destacam que nesta perspectiva os acontecimentos passados ainda são contáveis. Eu não consigo ver a relevância deste ponto, uma vez que não consigo ver a rota inferencial através da qual se parte de "x é contável" para "x é real." Na verdade, NOAA cada ano conta o número de furacões prováveis que irão ocorrer durante a próxima estação. Pode-se objetar que estas são apenas estimativas. Mas note que a resposta Craig / Sinclair à inexistência de eventos passados é bastante apropriada aqui também: "qualquer obstáculo aqui é meramente epistêmico, pois além de considerações de imprecisão deve haver certo número de coisas." Sim, isso é verdade se você está falando sobre o passado ou furacões futuros. Eles, então, trazem o exemplo de Tomás de Aquino, de um ferreiro que desde a eternidade tem usado e quebrado martelos sucessivos. Bem, isto desloca a questão para se esse tal ferreiro tem à sua disposição uma quantidade infinita de material para criar um número infinito de martelos. Craig e Sinclair teriam que dizer "não". Isso implicaria um infinito real, de modo que o ferreiro teria necessariamente de reciclar. Eles parecem tentar se esquivar disso dizendo que a existência presente dos martelos é irrelevante. Mesmo se todos os martelos fossem destruídos "o número de martelos quebrados pelo ferreiro é o mesmo." Na verdade, este seria um número infinito. Mas a questão aqui não é o número de martelos envolvidos, mas se eles são reais ou não. Isso tudo é simplesmente uma falácia.
No parágrafo seguinte eles respondem a uma objeção que é, basicamente, se é preciso considerar o passado um infinito real, não temos que considerar o futuro como tal também. Uma vez que este não é um argumento positivo, mas simplesmente uma resposta, não há necessidade de eu responder, e eu não encontro muita coisa para objetar na discussão em qualquer caso. Mas há uma frase curiosa que eu poderia destacar: "a série de eventos anteriores a um evento futuro, arbitrariamente selecionado, não pode ser adequadamente considerada como potencialmente infinito." Sim, de fato! Mas quem disse que se o passado não é um infinito real deve ser um infinito potencial? Por que não um infinito não-potencial e irreal?
Aqui é onde eu acho que está a raiz do problema. Em um pano de fundo Aristotélico, temos a distinção realidade/potencialidade. Os leitores de Aristóteles podem ter a impressão de que esta se destina a ser uma distinção exclusiva: se algo é real, não é potencial, e vice-versa. Não me lembro de Aristóteles dizer uma coisa dessas. Os autores atribuem tal visão a Aristóteles. Vou ter que procurar a referência, mas eu duvido que ele tenha dito tal coisa. Para Aristóteles, potencialidade tinha a ver com as possibilidades que podem ser realizadas em uma coisa, se elas são eventualmente ou não. Em tal visão, nada no passado é potencial, porque não há nada para realizar tais potencialidades. César há muito tempo abandonou suas potencialidades simplesmente pelo fato de que ele morreu. Então não há nada que exija que se uma coisa não é real, deve ser potencial. Acho essa noção um tanto absurda, e o absurdo é claramente demonstrado sugerindo que eventos passados são potencialidades. Mas, da mesma forma, isso não nos obriga a dizer que o passado é real. Não é nem real nem potencial. Simplesmente não é.
Lembre-se que, para Aristóteles, as potencialidades que algo tem são determinadas por aquilo que ele realmente é. Eu sou potencialmente musical, porque eu sou humano, e os seres humanos têm essa potencialidade. Meu cachorro, Fetch, não tem essa potencialidade, porque ele é um cão. Conclui-se que, se os seres humanos (e impedindo quaisquer alienígenas inteligentes) não existissem, então a potencialidade da musicalidade não existiria. "Ser musical" seria irreal e não-potencial. Pode-se objetar com base aristotélica que os seres humanos ainda seriam uma possibilidade, e uma vez que são feitos de compostos de água e carbono, então estes teriam o potencial de ser musicais. Mas, mesmo assim, não haveria coisas que teriam esta potencialidade específica, e, portanto, esta potencialidade específica não existiria. O fato de que poderia vir a existir não tem objeção. A possibilidade de uma potencialidade não é a existência dessa potencialidade.
Voltando ao estado do passado, não obstante os argumentos de Craig e Sinclair, não vejo nenhuma barreira conceitual para um passado infinito. Considere esta pergunta: existe alguma coisa sobre qualquer momento do tempo que impede que haja um momento anterior de tempo? Aristóteles argumentou que na verdade qualquer momento do tempo requer um momento anterior. Eu não tenho certeza se posso aceitar isso, mas tenho a certeza de que os momentos do tempo não impedem antecessores. Bem, se isso é verdade, deve ser verdade a respeito de todos os momentos passados de tempo, o que permite um passado infinito. Ou nós podemos oferecer o mesmo argumento de forma mais concreta. Existe alguma coisa sobre um determinado evento que impede eventos anteriores? Mais uma vez eu diria que não, permitindo, assim, uma série infinita de eventos passados. Agora há uma visão teológica antiga, segundo a qual todos os estados do mundo, a qualquer momento, são independentes de qualquer outro estado do mundo em outros momentos, exigindo, portanto, Deus como um mantenedor do mundo. Isto sugeriria que sem Deus nenhum momento atual poderia ter um predecessor. Mesmo Descartes sentiu-se compelido a oferecer tal argumento. Mas, além de oferecer elogios a Deus, eu não vejo nenhuma razão para acreditar nisso, e de fato o nosso senso comum diz exatamente o contrário, e eu acho que o oposto é verdadeiro. Estados atuais dependem muito dos estados anteriores das coisas. Minha existência depende muito de meus pais se encontrando e fazendo todas as coisas certas, e assim é geralmente verdade das coisas do mundo."
Novamente desculpe-me pelo tamanho do comentário, mas espero que tenha lhe dado bastante alegria em respondê-lo.
Felicidades,
Landon
United States
Dr. Craig responde
A
É bom ouvir de você novamente, Landon! Eu confio que seus estudos doutorais estão indo bem.
A objeção do seu professor para o argumento contra a infinitude do passado tem sido dada por uma série de críticos contemporâneos, incluindo, mais proeminentemente, Graham Oppy e Wes Morriston, para quem eu tenho respostas no International Philosophical Quarterly e Faith and Philosophy, respectivamente.
Agora, em primeiro lugar, precisamos ter clareza sobre qual é o problema diante de nós realmente, especialmente porque eu acho que seu professor não está totalmente claro sobre isso. A questão é, simplesmente: se a série de eventos passados e distintos não tem começo, então quantos eventos ocorreram antes do presente evento? Parece-me que a resposta é, obviamente, "um número infinito real" de eventos.
Que esta resposta está correta parece perspícuo numa chamada teoria-B ou teoria atemporal do tempo, isto é, uma visão de tempo de acordo com o qual todos os eventos no tempo são igualmente reais, e tornar-se temporal é meramente uma característica subjetiva da consciência. O número de eventos passados em um universo sem começo em tal visão seria, obviamente, realmente infinito, uma vez que seria semelhante a uma matriz espacial de itens. Mas, agora, introduza o tornar-se temporal (temporal becoming). Por que o número de eventos passados não seria exatamente o mesmo? Afinal, eles são os mesmos eventos!
Aristóteles e seus discípulos medievais, como Tomás de Aquino, procuraram evitar essa conclusão, afirmando que o número de eventos passados é potencialmente infinito, uma vez que eventos passados não existem mais. Mas essa resposta me parece claramente equivocada: para o passado ser potencialmente infinito, a série de eventos passados teria que ser em cada ponto finito, mas crescente em direção ao infinito na direção antes de, o que é absurdo, contrariando a natureza do tornar-se temporal. Enquanto a série de eventos futuros, a partir de qualquer ponto passado/presente, pode ser considerada potencialmente infinita se o tempo vai durar para sempre, essa descrição não pode aplicar-se à série de eventos passados.
Nem poderíamos dizer que o número de eventos que ocorreram antes do presente evento é finito, pois isso implicaria que a série de eventos passados teve um começo, Q.E.D.
Mas, "realmente infinito", "potencialmente infinito," e "finito" parecem esgotar as alternativas de resposta para a pergunta diante de nós. Que alternativa existe? Eu nem sei o que o seu professor quer dizer com "infinito não-potencial e irreal." Uma vez que os únicos tipos de infinito que existem são o infinito real e o infinito potencial, sua afirmação soa logicamente incoerente.
Agora, o tipo de absurdos que eu menciono em relação a um número infinito real de coisas não depende, como seu professor parece pensar, das coisas existindo todas ao mesmo tempo. Para utilizar o exemplo mais simples, em uma série infinita de eventos passados, o número de eventos ímpares é o mesmo que o número de todos os eventos, mesmo que esta última coleção inclua todos os eventos de numeração ímpar, mais um número infinito de eventos de números pares também. Você concordando comigo, ou não, que isso é um absurdo, o suposto absurdo não tem nada a ver com todos os itens existentes simultaneamente.
Agora, aqui é onde as coisas ficam realmente interessantes. O crítico (embora não seu professor) geralmente responde: "Tudo bem, se o número de eventos passados em uma série de eventos sem começo é realmente infinito, então o mesmo é verdade sobre o número de eventos em uma série interminável! Então, se o argumento contra a infinitude do passado é sólido, então nem o futuro pode ser infinito."
Agora eu concordo que em uma teoria-B do tempo a diferença entre o passado e o futuro é irrelevante, de modo que o argumento se aplicaria a ambas as séries. Mas note que essa consequência do argumento não faz nada para refutar o argumento; meramente resulta em problemas teológicos para a pessoa que acredita, como os cristãos, que o futuro é infinito devido a, digamos, imortalidade pessoal.
Por outro lado, em uma teoria-A, ou visão temporal do tempo, segundo a qual tornar-se temporal é uma característica objetiva da realidade, a assimetria do tempo trabalhado por tornar-se temporal, torna-se metafisicamente significativa. Em uma teoria temporal de tempo, faz sentido dizer que a série de eventos depois do que, qualquer evento no passado/presente é apenas potencialmente infinita, isto é, em cada ponto é finita, mas crescente em direção ao infinito como limite. Está longe de ser claro que um teórico-A é incapaz de estabelecer uma distinção significativa entre a realidade do passado e a potencialidade do futuro. Eventos futuros ainda não foram concretizados, enquanto que os eventos passados e presentes foram realizados. Pode-se dizer que, se o futuro é sem fim, então haverá um número infinito de eventos. Mas em uma teoria temporal de tempo isso é falso: nunca haverá um número infinito de eventos. O número de eventos será sempre finito, mas crescente em direção ao infinito como limite.
A propósito, este raciocínio puramente filosófico para o infinito potencial do futuro começou a penetrar a cosmologia física também. Dê uma olhada no fascinante artigo "A Note on Infinities in Eternal Inflation" [Uma nota sobre Infinidades em Eterna inflação], de George Ellis e William Stoeger (disponível online em http://www.arxiv.org/abs/1001.4590v127 de janeiro de 2010), especialmente os parágrafos finais. Coisas realmente interessantes!
Finalmente, note que, em seu parágrafo final, seu professor parece cometer uma falácia lógica. Ele conclui que porque:
1. Para qualquer evento, é possível que esse evento tenha um antecedente [(x) à ($y) (y
isso resulta que:
2. É possível que para todo o evento exista um antecedente [à (x) ($y) (y
Mas isso é um erro; para qualquer evento que você escolher, é possível que haja um evento antes dele; mas isso não implica que é possível que todos os eventos tenham antecessores.
- William Lane Craig