#808 Perguntas de um descrente
December 09, 2022Meu esposo e eu participamos da sua apresentação na igreja The Story este fim de semana. Obrigado por vir até nós e partilhar seus conhecimentos! Aguardava ansiosa por esse dia e orava por isso há bastante tempo. O meu esposo é indiferente à religião, embora não se alinhe, necessariamente, com o ateísmo. Ele se concentra na ciência, e compartilhamos dos mesmos valores.
Como cristã, tomo muito cuidado para buscar emular o amor de Jesus no modo em que amo meu marido, sem esperar que ele mude e sem julgamento. Afinal, creio estar correta em relação a Deus, mas não tenho certeza, de modo que minha fé serve para compensar. Ele frequenta a igreja comigo, por amor e respeito ao que acredito. Quero honrá-lo, e às perguntas dele, ao enviar as seguintes questões ligadas à sua apresentação.
Quando se mencionou que o ateísmo está em declínio, quais são as referências para tal conclusão? Seria uma sondagem feita com os americanos? Quem está no subconjunto de dados, e como é que se chegou a eles? Qual é a definição da pesquisa, se é que deram, para o termo ateu? Igualmente, qual é a definição de “feliz”? Penso que ele diria que, embora não creia em Deus, é feliz. Talvez seja presunçoso ou, simplesmente, uma narrativa pessoal dizer que APENAS os cristãos têm alegria e, sem Cristo, estamos em trevas; isto deveria ser rotulado de esperança pessoal, e não fato. É, definitivamente, a minha experiência pessoal que Jesus me traz paz e alegria, mas não quero impor que o mesmo seja, absolutamente, fato para os demais.
Em seguida, mencionou-se que TODOS os ateus podem concordar com 5 princípios. Um deles é que Jesus apareceu após a sua morte. Penso que, para o meu esposo, isso ficou um pouco confuso. Ele sente que os ateus (e ele) não creem nisso. Ele sentiu que poderia ser confuso aos nossos filhos que estavam presentes, por exemplo, ouvir alguém dizer que ele concorda, absolutamente, com 5 princípios e, ainda assim, decide questionar o sobrenatural e Deus. Penso que lhe pareceu um tanto presunçoso simplificar uma interpretação que opõe como ALGUNS membros de outro grupo realmente pensam ou se sentem.
Por fim, as provas de que Deus criou o universo: poderia, por favor, indicar-nos a direção do amparo científico para isto? Sempre dependi mais da fé do que do entendimento científico, neste caso. Suponho que as provas se baseiam em alguns pressupostos sobre algo que começa e não pode vir do nada, mas, se a pessoa não crê no pressuposto básico de que Deus existe, o argumento não se sustenta.
Acho que o recorte do vídeo e algumas observações jocosas sobre ateus decorrem, provavelmente, da sua autorreflexão de uma versão passada de si mesmo, o que é respeitável. No entanto, para o meu marido, caiu-lhe como um ataque e “zombaria”. Sinto-me culpada de estar num grupo de cristãos e ter pensamento grupal, mesmo o mínimo que ponha os outros em silêncio. Fico chateada que ele tenha se sentido assim e, ao mesmo tempo, sei que o senhor tem tempo muito limitado para transmitir algo tão complexo. Agradeço por sua disposição de ler isto aqui e por sua paciência ao permitir que eu aprenda e crença no meu papel como cristã e parceira por toda vida de alguém que é diferente de mim, mas que eu amo e respeito imensamente. Obrigada!
Julie
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Obrigado por sua pergunta tão sincera, Julie! Quem dera todos os maridos tivessem uma esposa tão amorosa e atenciosa! Tivemos um tempo maravilhoso na nossa visita a The Story, que, para quem não a conhece, é uma igreja dinâmica em Houston, Texas.
Fico estupefato que o seu marido tenha pensado que o recorte do vídeo do meu debate com Lewis Wolpert e algumas das minhas observações tenham sido “jocosas”. Você vai se lembrar que a resposta de Wolpert ao argumento cosmológico kalam foi que a causa da origem do universo é um computador. O meu pensamento foi que, no debate, tive de me desdobrar para tratar esta hipótese absurda (que nenhum cosmólogo ou filósofo aceitaria) de modo respeitoso e, em resposta às minhas objeções, você vai se lembrar que Wolpert simplesmente continuou a explicar o que quis dizer com computador, até a afirmação dele se perder em uma multidão de explicações. Realmente, foi um dos momentos mais engraçados que já tive em debates, e é uma pena que o seu marido não consiga achar graça nisso. Não sei quais observações minhas seriam ofensivas, mas sempre busco interagir com os meus oponentes de maneira generosa, tratando as suas objeções com seriedade.
Agora, em relação às suas perguntas, penso que não entendeu direito a minha afirmação sobre a revitalização da filosofia cristã na última geração. Não fiz uma afirmação demográfica sobre a porcentagem da população adepta do ateísmo (que é, todavia, bem pequena). Antes, estava descrevendo a incrível renascença da filosofia cristã nos nossos dias, e o número crescente de filósofos de ponta que são cristãos. Para artigos a este respeito, ver ““Modernizing the Case for God” [A modernização da defesa de Deus], revista Time (7 de abril de 1980), pp. 65-66, e “The Metaphilosophy of Naturalism” [A metafilosofia do ateísmo], Philo 4/2 (2001), do filósofo ateu Quentin Smith. Publiquei um artigo sobre o assunto na revista da Universidade Cristã de Houston, “The Resurrection of Theism” [A ressurreição do teísmo] The City (inverno de 2015), pp. 80-89.
Mais uma vez, a sua observação revela um sério mal-entendido: “Talvez seja presunçoso ou, simplesmente, uma narrativa pessoal dizer que APENAS os cristãos têm alegria e, sem Cristo, estamos em trevas; isto deveria ser rotulado de esperança pessoal, e não fato”. Seria não apenas presunçoso, como patentemente falso, fazer tal afirmação. Por isso, eu me esforcei, na minha entrevista, para formular a minha fala com cuidado, a saber: é praticamente impossível viver com coerência e alegria, segundo a cosmovisão ateísta. Se o ateu vivo de modo coerente com a sua cosmovisão, ele será profundamente infeliz; por outro lado, se ele viver feliz, é só porque não vive de modo coerente com a sua cosmovisão. A base para esta afirmação é que, se Deus não existe (ou seja, o se o ateísmo é verdade), não existe nenhum sentido, valor ou propósito de vida decisivos e objetivos. Não se trata de uma afirmação peculiar de cristãos, mas algo que muitos ateus mesmo afirmaram. Porém, ninguém consegue viver como se a vida, em última instância, não tivesse sentido. Não pretendo negar que o seu marido viva feliz; contudo, não penso que ele viva de modo coerente com as implicações da cosmovisão ateísta. Penso que ele não encarou seriamente o que o ateísmo verdadeiramente acarreta.
Mais uma vez, houve um sério mal-entendido em relação à suposta afirmação de que “TODOS os ateus podem concordar com 5 princípios”. Tenho certeza, Julie, que, se você assistir ao vídeo da entrevista, descobrirá que jamais fiz tal afirmação. Antes, o que você está pensando são os cinco fatos que mencionei sobre o destino de Jesus de Nazaré, com os quais a ampla maioria de historiadores do Novo Testamento concordam hoje, sejam eles cristãos ou não: (1) a morte de Jesus por crucificação romana; (2) o seu enterro num sepulcro; (3) a descoberta de que o seu sepulcro estava vazio; (4) as aparições pós-morte de Jesus a vários indivíduos e grupos; e (5) a transformação das vidas dos primeiros discípulos após a morte de Jesus. Ora, obviamente, não estou afirmando nada a respeito do que a maioria dos ateus acredita. A maioria dos ateus, assim como a maior parte das pessoas, sabe muito pouco acerca da historicidade de Jesus de Nazaré. Mais uma vez, não seria apenas presunçoso, como também palpavelmente falso, afirmar que a maioria dos ateus acredita nas aparições pós-morte de Jesus. Antes, a afirmação diz respeito ao que pensa a maioria dos especialistas, historiadores neotestamentários de profissão que publicaram sobre o assunto. O surpreendente é que a porcentagem que crê que, após a morte de Jesus, diversos indivíduos e grupos viram aparições de Jesus vivo é praticamente de 100%. Quem nega que Jesus ressuscitou dentre os mortos buscará explicar tais aparições como alucinações ou, então, admitirá que não têm nenhuma boa explicação para elas.
Com relação às provas para um Criador e Arquiteto do universo, sugiro que comece a assistir aos rápidos vídeos animados na nossa página, em especial os números 3, 5 e 6. Então, para mais detalhes, pode consultar os meus livros Em guarda ou, em nível mais avançado, Apologética contemporânea. Este último tem muitas notas de rodapé com referências à literatura científica relevante. Você está bastante correta de que uma das premissas é que Tudo que começa a existir tem uma causa. No entanto, a credibilidade desta premissa não depende do “pressuposto básico de que Deus existe”. Antes, tal premissa, em conjunto com as outras premissas do argumento, implica que Deus existe.
Peço desculpas se a minha resposta à sua pergunta tão tenra parece defensiva demais, mas, para ser sincero, acho que você não me entendeu direito e que o seu marido está, consequentemente, batendo num espantalho. O que tiro disto é a percepção renovada de que as pessoas podem ter mal-entendidos graves daquilo que alguém está dizendo e a importância de ser o mais claro possível.
- William Lane Craig