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#809 Justificação forense

December 09, 2022
Q

Caro Dr. Craig,

A minha pergunta diz respeito à eficácia do sangue de Cristo. Ouvi alguns grupos pentecostais dizerem que a “remissão” do pecado significa que Deus REMOVE o pecado. A minha pesquisa, porém, mostra que remissão significa perdão, e não remoção.

Sei de algumas passagens que parecem sugerir serem os pecados removidos, mas o grego e o hebraico destas passagens não sugerem remoção, mas, sim, perdão.

“Como o Oriente se distancia do Ocidente, assim ele afasta de nós nossas transgressões.” (Salmos 103.12)

“Tu lançarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar.” (Miqueias 7.19)

“Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões.” (Isaías 43.25)

Se os pecados são, de fato, removidos, por que os cristãos continuam a pecar? Não estou questionando o poder da fé e do sangue; só não tenho certeza do aspecto da “remoção” no arrependimento e remissão. Será que me poderia esclarecer a questão?

LaMonte

United States

Dr. Craig responde


A

As suas suspeitas de que a ideia de remissão de pecados envolve remoção, e não perdão, estão no lugar certo, LaMonte! A genialidade dos reformadores protestantes é que eles entenderam corretamente o ensino do Novo Testamento sobre justificação. Alister McGrath destaca três características singulares da doutrina protestante da justificação:

1. A justificação envolve uma declaração forense de justiça que efetua uma mudança na condição legal diante de Deus, e não num processo de transformação moral que, realmente, torna a pessoa virtuosa.

2. Há uma clara diferença conceitual entre justificação (“o ato pelo qual Deus declara o pecador como justo”) e regeneração ou santificação (o verdadeiro “processo interno de renovação pelo Espírito Santo”).

3. Entende-se a justiça justificadora da parte de Deus como justiça externa e “alheia”, imputada graciosamente ao cristão mediante o ato de fé.[1]

Não que os Reformadores negassem que Deus infunda a sua justiça em nós, isto é, que ele nos faça justos com a transformação moral do nosso caráter! Eles afirmavam tal justiça infusa, mas enxergavam-na pertencente, propriamente, à santificação, a transformação gradual do caráter em conformidade com a imagem de Cristo pelo poder do Espírito Santo internamente em nós (2 Coríntios 3.18), e não à justificação. A justificação, na visão de Paulo, é noção forense: a declaração legal, por parte de Deus, de que somos justos. No cerne da justificação forense, a declaração legal, por parte de Deus, encontra-se o perdão divino. Pelo perdão divino, estamos livres da nossa culpa que leva à pena, de modo que somos inocentes diante do tribunal da Sua justiça.

Como você disse, se a remissão de pecados envolvesse a remoção do pecado de nós, deveríamos todos ser perfeitamente santos e sem pecado. No entanto, o nosso perdão legal, por parte de Deus, não transforma o nosso caráter e nos torna virtuosos, tanto quanto não o faz o perdão humano a um criminoso condenado. Reiteradas vezes, as cortes insistiram que a pessoa pode sofrer diversas inibições de direitos, mesmo sendo perdoada, porque o seu caráter continua falho. Como escreveu Samuel Williston, “embora o perdão dispense a pena, ele não pode mudar o caráter; e, onde o caráter é qualificação para um ofício, uma ofensa perdoada, tanto quanto uma ofensa que não foi perdoada, são prova da ausência da qualificação necessária”.[2] Igualmente, embora o perdão divino nos torne legalmente inocentes diante de Deus, livres da culpa que leva à pena, ele é impotente em si mesmo para efetuar a transformação moral do caráter. Para tal fim, necessitamos da regeneração mediante o Espírito Santo e Sua influência santificadora para tornar-nos, com o tempo, os homens e as mulheres que Deus quer que sejamos. A santificação, neste sentido, não é transação forense, mas transformação moral de caráter, não sendo, portando, efetuada apenas pelo perdão divino. Ainda que a justificação ocorra instantaneamente e sem esforço da nossa parte, a santificação se constitui processo vitalício que pode ser doloroso e difícil.

 

[1] Alister McGrath, “Forerunners of the Reformation? A critical examination of the evidence for precursors of the Reformation doctrines of justification”, Harvard Theological Review 75 (1982): 223. 

[2] Samuel Williston, “Does a Pardon Blot Out Guilt?”, Harvard Law Review 28/7 (1915): 657.

- William Lane Craig