#23 Perguntas sobre o conhecimento médio
July 12, 2012Pergunta 1:
Caro Dr. Craig,
Uma das perguntas mais duras no âmbito da soteriologia é: “o que acontece às crianças/bebês que morrem sem ter a oportunidade de responder à revelação de Deus?”. Parece que uma ideia popular é a da teoria da “idade da responsabilidade”, a qual afirma que qualquer criança que morra antes de alcançar certa idade vai direto para o céu. Esse tipo de “anistia universal”, no entanto, parece-me inevitavelmente falho. Se assim fosse, almas que jamais aceitariam Jesus Cristo (objetos da “condenação eterna em todos os mundos possíveis”, por assim dizer) chegariam ao céu juntamente com as outras, simplesmente em virtude de terem morrido antes da idade da razão. Como seria possível um Deus santo e justo permitir que almas assim entrem no céu?
Não faria mais sentido que um Deus honesto, justo e onisciente levasse em consideração aquilo que essas crianças FARIAM se lhes fosse concedida a oportunidade, mediante mais tempo e revelação, e julgá-las devidamente com base nisso? Jesus afirma que Deus fará exatamente isso, no caso de alguns no contexto de Mateus 11.10-24, e eu não vejo por que ele não estenderia essa mesma consideração a todos quantos são “interrompidos” em razão de outras circunstâncias.
Desde já obrigado, caso se detenha para me responder.
Aloha, em Cristo,
Steve
Pergunta 2:
No seu artigo “Como é possível que Cristo seja o único caminho para Deus?”, o senhor tentou responder à difícil questão da exclusividade de salvação somente em Cristo. Procedente de um país como a Índia, com uma rica e profunda tradição religiosa desde os tempos antigos, a ideia de que todos os seus antepassados estavam errados é realmente exorbitante. Esse é o único obstáculo de máxima importância. Seria possível argumentar que o julgamento não é feito tanto na base daquilo que não se sabe, mas na base do que se sabe, todavia o indivíduo se recusa deliberadamente a escolher a verdade/moralidade melhor/mais elevada que ele conhece (ou se recusa deliberadamente a conhecer)? (“àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido”)? O senhor vê alguma base bíblica para alegar que o julgamento se baseia nas ações/escolhas do indivíduo, levando-se em consideração o nível melhor/mais alto da verdade moral/filosófica conhecida por ele?
Sunil
Pergunta 3:
Dr. Craig,
Seu trabalho acerca do molinismo tem sido muito proveitoso para mim. Nada obstante, ainda tenho algumas dificuldades para aceitar certas coisas a respeito dele. Acredito que somos livres no que diz respeito às escolhas moralmente importantes que fazemos, e creio realmente que Deus sabe todas as coisas (inclusive as ações livres futuras). Mas não sei como explicar isso e ainda não estou satisfeito pela definição molinista das coisas. Por isso, elaborei um argumento contra o molinismo. Não porque queira atacá-lo nem mostrar que é falso, mas simplesmente no interesse de organizar minha própria posição. Ei-lo:
1. Se a ação A de escolher x foi livre, então, antes do exato momento de A, A era não existente e, antes do exato momento de A, não havia nenhum conjunto especificável de circunstâncias pelo qual deduzir que A ocorreria.
2. A ação A de escolher x foi livre.
3. Logo, antes do exato momento de A, A era não existente, e, antes do exato momento de A, não havia nenhum conjunto especificável de circunstâncias pelo qual deduzir que A ocorreria. (MP, 1, 2)
4. Se antes do exato momento de A, A era não existente, e se, antes do exato momento de A, não havia nenhum conjunto especificável de circunstâncias pelo qual deduzir que A ocorreria, então, antes de A ocorrer, Deus não poderia conhecer A.
5. Logo, antes de A ocorrer, Deus não poderia conhecer A. (MP, 3, 4)
Nesse argumento, a premissa mais controversa é (1). A parte mais importante do que ela declara é que, se alguma ação for realmente livre, então não existe nenhum conjunto especificável de circunstâncias pela qual se deduza que escolha resultaria, antes de a escolha ser feita. A razão por que considero que seja esse o caso, deve-se ao que disse Thomas Flint no livro Divine Providence: The Molinist Account [Divina providência: a explicação molinista]. (O que me deixa perplexo é a página 39 desse livro. Por favor, seria possível o senhor responder ao que exatamente ele afirma sobre as iguanas de Cuthbert?) Embora Flint discordasse, parece-me, então, que se o conjunto de circunstâncias que levam Cuthbert a comprar ou não comprar a iguana são exatamente semelhantes, então, por essas circunstâncias Deus jamais saberia o que uma criatura livre faria nessas circunstâncias. A razão por que entendo que seja esse o caso é porque, tanto no mundo-B como no mundo-R, o conjunto prévio de circunstâncias até o momento exato em que Cuthbert toma a sua decisão eram semelhantes, com nada para distinguir entre os dois. O meu entendimento de Flint está certo? O senhor também pensa desse modo?
Finalmente, tenho uma pergunta e um comentário a fazer que talvez possam ajudar nesta discussão. Primeiro, o senhor aceita o Princípio das Possibilidades Alternativas [PPA] como necessário para que uma escolha seja livre no sentido libertário? O senhor é um libertário? Ouvi dizer que o senhor nega o PPA, é verdade? Segundo, tenho bastante certeza que meu argumento supõe algum tipo de perceptualismo (é essa a palavra certa? Esqueci…). Se assim for, sei realmente que o senhor rejeita essa maneira de conceber o conhecimento de Deus e, em vez disso, opta por um modelo conceptualista, mas não li ainda nada da sua autoria em defesa dessa alegação, embora soube que o senhor defende essa ideia no seu livro The Only Wise God [O único Deus sábio]. Seria possível tratar disso também? Obrigado por qualquer ajuda que puder dar!
John
United States
Dr. Craig responde
A
Agrupei essas perguntas porque todas estão relacionadas à doutrina do conhecimento médio.
Consideremos primeiro a pergunta de John porque ela é fundamental. Você está certo, John, ao afirmar que a premissa (1) é controversa, mas eu mesmo a aceito. Alguns podem negá-la, porque acham que a liberdade é compatível com o determinismo causal ou porque defendem uma teoria do tempo, chamada variavelmente de teoria do tempo estático ou de teoria-B do tempo, segundo a qual os eventos futuros são exatamente tão existentes quanto os eventos presentes.
Se os compatibilistas estiverem certos, então Deus poderia deduzir as livres escolhas futuras dos homens a partir das condições presentes que determinam causalmente como eles escolherão. Mas, como você percebe, sou um libertário que considera o determinismo causal incompatível com a liberdade. Isso não significa que adoto o Princípio das Possibilidades Alternativas (PAA), o qual afirma que um agente livre tem, num conjunto de circunstâncias, a capacidade de escolher A ou não A. Estou convencido que, até onde a escolha de um agente não é determinada causalmente, não importa se ele pode realmente fazer uma escolha contrária a como ele escolhe. Vamos supor que Deus decidiu criar você num conjunto de circunstâncias porque ele sabia que nessas circunstâncias você tomaria a decisão indeterminada de fazer A. Vamos supor ainda que, se Deus em vez de saber que, se você estivesse nessas circunstâncias, você teria tomado a decisão indeterminada de fazer não A, então Deus não lhe teria criado nessas circunstâncias (pode ser que ele tenha afrouxado o próprio plano providencial!). Nesse caso, você não tem a capacidade, nessas circunstâncias, de fazer a escolha de não A, mas, a despeito disso, a sua escolha de fazer A é, segundo penso, claramente livre, pois não está causalmente restrita — é você quem determina que A será feita. Portanto, a capacidade para tomar uma decisão contrária não é necessariamente condição de livre escolha.
Se os adeptos da teoria-B do tempo estiverem certos, então os eventos futuros como A são tão reais quanto os eventos presentes ou passados. Se Deus for atemporal, então, para ele todos os eventos no tempo são igualmente reais e podem ser conhecidos da mesma maneira. Não há nada sobre os eventos futuros para nós que os torne mais difíceis de serem conhecidos por Deus. Por isso, ele não tem nenhuma necessidade de deduzir tais eventos a partir das condições presentes. Agora, eu mesmo não sou adepto da teoria-B do tempo. Adoto a teoria do tempo dinâmico, ou teoria-A do tempo, segundo a qual o futuro não existe em nenhum sentido (veja no meu livro Time and Eternity [Tempo e eternidade] a discussão dessas perspectivas rivais). Também não penso que Deus exista de modo atemporal desde o momento da criação, já que entendo que a atemporalidade de Deus permanece de pé ou desmorona com a sua teoria do tempo. Assim, como você nota, rejeito o modelo perceptualista do conhecimento divino, de acordo com o qual Deus “olha” e “vê” o que está acontecendo no mundo (em qualquer hipótese, um horrível conceito antropomórfico do conhecimento de Deus!). Antes, aceito certo tipo de modelo conceptualista, de acordo com o qual o conhecimento de Deus não é obtido mediante alguma espécie de percepção, mas se relaciona mais de perto ao conhecimento inato. Deus tem exatamente a propriedade essencial de conhecer apenas e totalmente proposições verdadeiras.
Portanto, aceito as duas suposições subjacentes à sua premissa (1).
Para ser mais exato, eu e qualquer molinista rejeitaríamos a premissa (4) do seu argumento. Na verdade, qualquer incompatibilista adepto da teoria-A, que acredita na presciência divina dos futuros contingentes (como escolhas humanas livres) rejeitará (4), mesmo não sendo molinista, pois seu argumento não está direcionado contra o conhecimento médio em si, mas contra a presciência divina.
O problema com a premissa (4) é que ela pressupõe que a única maneira de Deus conhecer os futuros contingentes é deduzindo-os das condições presentes. Mas não vejo razão para pensar que isso seja verdade. Na realidade, a doutrina do conhecimento médio é apenas uma teoria acerca de como Deus pode conhecer os futuros contingentes absolutamente sem qualquer tipo de percepção do mundo. Acho que você supôs equivocadamente que, de acordo com a doutrina do conhecimento médio, Deus deduz das circunstâncias em que uma pessoa livre é colocada aquilo que ela faria em tais condições. Daí a sua perplexidade com a afirmação de Flint no livro Divine Providence [Providência divina] (p. 39). Contuso, a doutrina do conhecimento médio não é isso. Conforme diz Flint na frase imediatamente seguinte no topo da p. 40, “A resposta a essas perguntas é evidente: a providência pode ser exercitada [...] só se Deus souber como suas criaturas agiriam quando colocadas em circunstâncias não determinadoras diferentes” (ênfase minha). Se Deus tem conhecimento médio, então ele conhece realmente a verdade de tais declarações condicionais subjuntivas (quase sempre chamadas de contrafactuais), por exemplo: “Se Cuthbert estivesse em C, ele compraria uma iguana por livre vontade”. Portanto, não importa que diferentes mundos possíveis contenham C; o argumento permanece: já que Deus sabe o que Cuthbert faria espontaneamente em C, Deus pode saber — exclusivamente com base nesse conhecimento e no conhecimento do seu próprio decreto para criar Cuthbert em C — exatamente o que Cuthbert fará! Bastante escorregadio, hein?
Portanto, sua premissa (4) é uma petição de princípio contra os molinistas ao supor que Deus carece de conhecimento médio.
Em outro lugar, sugeri que Deus pode usar seu conhecimento médio para ordenar o mundo de maneira tão providencial que qualquer pessoa que rejeitar a revelação natural de Deus na natureza e na consciência e nunca tiver ouvido o evangelho não creria nele mesmo que o tivesse ouvido (veja Scholarly Articles: Christian Particularism [Artigos acadêmicos: Particularismo cristão]; Popular Articles: Christianity and Other Faiths: “How Can Christ Be the Only Way to God?” [Artigos populares: Cristianismo e outras crenças: “Como é possível que Cristo seja o único caminho para Deus?”]). As pessoas que nunca ouvem o evangelho serão julgadas com base na resposta que dão à revelação geral de Deus, e quem não responder a ela e é condenado não pode se queixar de que, se tão somente tivesse ouvido o evangelho, teria respondido a ele e sido salvo.
Essa solução parece de alguma maneira com a sugestão de Sunil na pergunta que faz. Gostaria de esclarecer a Sunil que “a verdade/moralidade melhor/mais elevada que essa pessoa conhece” é aquilo que lhe é transmitido pela revelação geral de Deus. Além disso, sejamos mais claros: isso não significa que essa pessoa pode ser salva pela sua vida reta nem pelas crenças corretas. Pelo contrário, essa pessoa ficará desesperada por não conseguir jamais viver à altura da lei moral escrita no coração dela e se lançará à misericórdia imerecida do Deus Criador revelado na natureza. Como no caso de pessoas no Antigo Testamento, Deus lhes aplicará os benefícios da morte expiatória de Cristo sem que tenham conhecimento consciente de Cristo. Então, a questão é se há muitas pessoas nessa situação. A leitura que faço de Romanos 1—2 não me deixa muito otimista. Mesmo assim, resta a questão de que os não evangelizados não serão julgados injustamente com base na informação que nunca tiveram. Serão julgados segundo o modo como respondem à revelação geral de Deus na natureza e na consciência. O conhecimento médio entra em cena apenas para descartar a queixa de que, se lhes tivessem dado a luz do evangelho, essas pessoas teriam então respondido positivamente.
Isso nos leva à pergunta de abertura do Steve. Eu a incluí porque muitos têm equivocadamente atribuído a mim a visão que ele defende. Não acho, Steve, que seja aceitável a sua solução para o problema das pessoas que morrem na infância (que é apenas um caso do problema geral do destino daqueles que nunca tiveram a oportunidade de responder positivamente ao evangelho). Porquanto seria imoral julgar uma pessoa, não por aquilo que tem feito, mas pelo que teria feito em circunstâncias diferentes. Caso tivesse nascido na Alemanha nazista, eu poderia ter sido membro fervoroso da Juventude Hitlerista e até ter participado de atrocidades. Sob outras circunstâncias, poderia ter sido ladrão ou terrorista. Seria eu, então, culpado desses atos? Bem, claro que não, pois jamais os cometi! A dificuldade com a sua solução torna-se especialmente notória quando você pondera que alguém que morreu na infância teria feito coisas diferentes sob circunstâncias diferentes. Não estou sugerindo que todos quantos morrem na infância sofrerão a condenação eterna em todos os mundos possíveis. Sob certas circunstâncias, aqueles que morreram na infância teriam crescido talvez para serem cristãos maravilhosos; em outras circunstâncias, teriam se associado à organização Internet Infidels [infiéis da Internet]. Logo, como poderia Deus julgá-los pelas coisas diferentes que poderiam ter feito sob circunstâncias diferentes?
Portanto, Deus julgará as pessoas com base naquilo que elas realmente fizeram. Leia novamente Mateus 11.20-24, pois acho que você verá que a referência não contradiz esse princípio.
Aceito, então, a solução da “idade da responsabilidade”. Deus julga as pessoas com base em suas respostas à luz que elas têm. Até onde sabemos, as crianças não têm acesso a nenhuma revelação divina e, por isso, não são consideradas como responsáveis por nenhuma resposta.
- William Lane Craig