#22 O ateu tem de ser onisciente?
July 12, 2012Ouvi alguns filósofos cristãos explicarem que o ateísmo é indefensável, porque filosoficamente/logicamente ninguém é capaz de postular um negativo absoluto. Ademais, a certeza absoluta de que Deus não existe significa que é indispensável ser onisciente. Como podemos responder quando alguém diz a mesma coisa a respeito dos teístas? O teísta não teria de ser onisciente para ter a certeza de que Deus existe? Obrigada!
Annissa
United States
Dr. Craig responde
A
Eu também já ouvi essas duas alegações desgastadas serem usadas em discussões apologéticas populares, Annissa, e não acho convincente nenhuma delas.
A primeira é, ironicamente, encontrada com frequência nos lábios de ateus, que tentam assim se desincumbirem do ônus da prova na discussão. Usualmente, alega-se que não é possível provar um negativo universal e, portanto, a alegação de que “Deus não existe” não pode ser provada. A segunda alegação é apresentada tipicamente como a razão por que não se pode provar um negativo universal: a despeito de todo conhecimento adquirido, sempre haverá fatos ainda não conhecidos e, talvez, a exceção esteja entre eles. Logo, ninguém pode provar jamais que Deus não existe. Contrariamente ao que deveria ser, essas alegações, de alguma maneira, são interpretadas não como a admissão de que o ateísmo é indefensável, mas como uma demonstração de que ele não necessita de defesa!
Infelizmente, o argumento é compreendido incorretamente em várias alegações.
Em primeiro lugar, é possível provar declarações negativas quantificadas universalmente. Fazemos isso o tempo todo. Quando produzimos declarações sobre “todos” ou “nenhum”, referimo-nos a algo com respeito a um domínio específico. Estamos dizendo que todos ou nenhum dos membros desse domínio têm ou tem, respectivamente, uma certa propriedade. Se o domínio não for grande demais, posso produzir com certeza declarações afirmativas e negativas quantificadas universalmente. Por exemplo, estou bem certo que “nenhum senador dos eua é muçulmano”. Ou, de outra forma, se tenho uma amostra típica do domínio posso fazer inferências indutivas do todo com base na evidência da amostra, mesmo quando o domínio inteiro é grande demais para poder ser investigado. Por exemplo, considerando como meu domínio todos os micróbios da Terra, posso afirmar com certeza que “nenhum micróbio tem cérebro”.
Ora, pode-se dizer que, embora se admita como verdade que às vezes seja possível provar declarações negativas universais, ainda permanece a questão de que, no caso de Deus, o domínio é grande demais, e nossa amostra é pequena demais para se chegar a alguma conclusão negativa. No entanto, aqueles que propõem esse argumento parecem pensar que a maneira de determinar se Deus existe ou não é realizando uma espécie de exame universal para verificar se lá fora existe alguma coisa que corresponda à descrição de Deus. Todavia, há outras maneiras de se chegar ao conhecimento de declarações negativas quantificadas universalmente sem se recorrer à investigação indutiva.
Por exemplo, podemos ter o conhecimento de declarações negativas quantificadas universalmente com base nas propriedades essenciais das coisas; por exemplo, “não existe nenhuma molécula de água composta de CO2”. (Mesmo que algo se parecesse e se comportasse exatamente como a água, mas fosse composto de CO2, ainda assim não seria água, mas apenas uma substância semelhante.) Ou se pudéssemos mostrar que certa ideia é logicamente impossível, saberíamos que ela não existe. Por exemplo, “não existem solteirões casados”. É bem significativo que muitos ateus têm tentado precisamente essa via para provar que Deus não existe, defendendo que a ideia de um ser todo-poderoso ou onisciente é incompatível com a lógica.
Caracteristicamente, os ateus apresentarão também argumentos dedutivos contra a existência de Deus, os quais descartarão a existência de Deus sem nenhuma investigação indutiva. Por exemplo, o ateu poderia argumentar assim:
1. Se Deus existe, o mal injustificado (desnecessário, sem razão) não existe.
2. O mal injustificado existe.
3. Logo, Deus não existe.
Se as premissas desse argumento forem verdadeiras, então se conclui que Deus não existe.
A questão é que não é de modo nenhum impossível provar declarações negativas quantificadas universalmente; e historicamente os ateus têm tentado apresentar argumentos não indutivos para mostrar que Deus não existe.
Em segundo lugar, a declaração de que “Deus não existe” não é uma declaração quantificada universalmente. Quando o teísta afirma que “Deus existe”, a palavra “Deus” está sendo usada como nome próprio, não como um substantivo comum. Não é uma declaração do tipo “cães existem”, mas do tipo “Lassie existe”. Para que seja possível provar que Deus não existe, é indispensável provar que não existem deuses de espécie alguma. Temos interesse em um ser específico, não em todos os outros seres que podem ter sido imaginados e adorados no mundo inteiro. Portanto, a alegação de que “Deus não existe” é realmente uma alegação singular, como “Sherlock Holmes não existe” ou “Harry Potter não existe”. Ninguém considera que alegações negativas singulares não possam ser provadas.
Assim, entendo que — caso essa alegação seja usada pelo ateu, tentando esquivar-se do ônus da prova, ou pelo apologista cristão, pretendendo mostrar que o ateísmo é inerentemente improvável — a alegação é falsa. Obviamente, não há certeza absoluta ao alcance, mas isso é de fato uma pista falsa, já que não temos certeza absoluta de quase nada. Exigir certeza absoluta levará com certeza a um ceticismo incapaz de ser vivido.
Agora, quanto à sua pergunta se esse argumento é um tiro no pé do teísta, parece-me que é. A princípio, parece haver uma assimetria entre o teísta e o ateu. Se alguém sabe que Deus existe, então não importa que fatos estão fora do domínio do seu conhecimento: você ainda sabe do fato de que Deus existe. Contudo, se alguém, porventura, desconhece totalmente o fato de que Deus existe, talvez esse fato esteja fora do domínio do seu conhecimento. Para ilustrar, se você não tiver achado uma bola de gude de ouro, não há razão para pensar que bolas de gude de ouro não existem, porque talvez a evidência da existência delas esteja fora do seu campo limitado de conhecimento.
A fraqueza desse raciocínio é que o ateu poderia ter, não meramente o não conhecimento da existência de Deus, mas o conhecimento positivo de que Deus não existe, e, portanto, teria também o conhecimento desse fato a despeito de quaisquer outros fora do âmbito do seu conhecimento. Logo, nem o teísta nem o ateu precisam ser oniscientes para saber o que alegam saber.
Entretanto, essa resposta parece fugir à questão. A questão, alguém poderia dizer, é que o teísta poderia ser justificado com base no seu conhecimento limitado em acreditar que Deus existe, ao passo que o ateu jamais pode ser justificado por acreditar com base na evidência limitada de que Deus não existe.
Todavia, como temos visto, não há nenhuma boa razão para se pensar que seja esse o caso. O argumento supõe que o modo de alguém chegar ao conhecimento de Deus é fazendo um tipo de pesquisa indutiva e olhando para ver se Deus aparece na sua rede de arrasto. Na verdade, as situações evidenciais do teísta e do ateu parecem simétricas. É possível que a evidência de que Deus existe esteja fora do campo de conhecimento do ateu, mas, da mesma maneira, é possível que a refutação decisiva de que Deus existe esteja fora do campo de conhecimento do teísta.
A conclusão é que não temos outra opção, exceto seguir adiante com base no conhecimento e na evidência que temos de fato — do modo exato como fazemos em todos os outros casos da vida.
- William Lane Craig