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#628 Peter Atterton e a coerência do teísmo

July 30, 2019
Q

Peter Atterton, da Universidade Estadual de San Diego, escreveu um artigo de opinião para The New York Times alegando que o Deus da civilização ocidental é incoerente, mas acho que boa parte de seus argumentos é profundamente falha. O título do artigo é “A God Problem” [Um problema de Deus].

Um argumento seu é até que interessante. Ele parafraseia outro filósofo e escreve: “Há algumas coisas que conhecemos que, se também fossem conhecidas por Deus, fariam dele automaticamente um pecador, o que está, obviamente, em contradição com o conceito de Deus”.

Como já indicou o filósofo americano Michael Martin, já falecido, se Deus conhece tudo que é cognoscível, Deus deve conhecer coisas que nós conhecemos, como lascívia e inveja. No entanto, não se pode conhecer a lascívia e a inveja, a não ser experimentando-as. Porém, ter sentimentos de lascívia e inveja implica ter pecado, de modo que Deus não pode ser moralmente perfeito. Acho que é possível responder dizendo que alguém pode conhecer o que é experimentar um sentimento, sem tê-lo pessoalmente experimentado. Seria possível ao conhecer o que é a experiência oposta. Por exemplo, eu poderia conhecer qual é a sensação de sentir-se triste simplesmente ao experimentar a alegria, porque posso logicamente deduzir que a tristeza é a ausência de alegria.

Poderíamos também dizer que Peter Atterton está forçando a questão ao dizer que “conhecer” o que é a lascívia deve ser o mesmo que “experimentar” a lascívia? Será que eu não saberia o que implica a morte, mesmo sem tê-la experimentado? Portanto, a implicação é que Deus pode conhecer o que são certos sentimentos, mesmo sem jamais tê-los experimentado. Gostaria de saber sua opinião a respeito do assunto.

Cornell

United States

Dr. Craig responde


A

Fico feliz que tenha feito esta pergunta, Cornell, porque, na verdade, eu escrevi uma breve resposta a NYT que, suponho eu, não foi aceita para publicação. Aqui vai ela:

“Como filósofo de profissão cujo principal interesse de pesquisa é a coerência do teísmo, fiquei decepcionado ao ver um colega adotar em NYT objeções tão batidas à coerência do teísmo. Considere-as em ordem:

1. O problema da onipotência. Acontece que o problema real identificado por Atterton não é a coerência da onipotência (deve-se admitir que a visão de Tomás de Aquino é coerente), mas, sim, o problema do mal: um mundo sem mal é logicamente possível; portanto, por que Deus não o criou? Resposta: é claro que um mundo sem mal é possível: Deus poderia ter criado um universo sem nenhuma forma de vida e, assim, sem mal. Tal possibilidade de nada serve para provar que é logicamente possível a Deus realizar um mundo de agentes morais livres com o mesmo bem moral deste mundo, mas com menos mal moral.

Ah, mas e o mal natural? Aqui o ateu precisa provar que é impossível ou muitíssimo improvável que Deus tenha razões moralmente suficientes para permitir o mal natural no mundo. Atterton nem sequer tenta — o que não é nenhuma surpresa, pois tais juízos ficam além de nossa capacidade cognitiva. Por tudo que sabemos, apenas num mundo repleto de mal natural e moral os bens justificadores de Deus seriam realizados por agentes livres. O problema do mal sobrecarrega o ateu com um ônus da prova tão pesado que se torna insustentável.

2. O problema da onisciência. O problema que Atterton alega aqui é haver certas coisas que Deus não pode conhecer plausivelmente, como o que significa ser humano. Resposta: Atterton ignorou a distinção entre conhecimento proposicional e conhecimento não-proposicional. Define-se onisciência a partir do conhecimento proposicional: qualquer pessoa S é onisciente se, e somente se, para qualquer proposição p, se p é verdadeiro, S conhece p e não crê em não-p. Em outras palavras, onisciência é conhecimento somente de todas as verdades. Um ser onisciente pode ou não pode ter determinado conhecimento não-proposicional também. Deus conhece proposições como ‘Seres humanos se sentem falíveis’, ‘Seres humanos se sentem pecadores’ etc. Atterton não dá nenhum exemplo de nenhuma verdade de modo que não possamos realmente dizer: ‘Deus conhece que ______’, onde a lacuna é preenchida por uma proposição verdadeira.”

Assim, minha solução ao suposto problema da onisciência se encaixa naquilo que você propôs em seu último parágrafo. Saber o que a morte implica, por exemplo, é conhecimento proposicional: “Um morto não é consciente”, “Um morto não sente dor” etc. Deus conhece todas estas verdades.

- William Lane Craig