#191 Pode Ser Culpada a Descrença?
October 28, 2014Caro Dr. Craig,
Eu sou um cristão brasileiro. Seu trabalho para o Reino tem sido uma grande ajuda para mim em minha vida espiritual.
Eu acredito que Deus existe, mas estou incomodado com uma pergunta.
Cristãos supostamente devem pensar que Deus punirá os ateus por escolher não acreditar. Mas como um ateu sincero poderia ser responsabilizado ou culpado por não acreditar? Eu não acho que a crença é uma escolha.
Suponha que seus amigos o forçam a acreditar no Papai Noel. Você poderia forçar-se a acreditar no Papai Noel? No máximo, você poderia agir como um crente, mas você nunca vai ser um crente sincero. Portanto, você vai ser um hipócrita!
Agora, suponha que Papai Noel "pede" que você sofra por ele. Se você não acredita no Noel, você terá motivação suficiente para aguentar sofrimento por ele? Você pode ser culpado por desistir de sofrer pelo Papai Noel?
Jesus pede ao crente a fazer mais do que sofrer por ele. Cristo pede ao crente a odiar a própria vida neste mundo (João 12:25). Agora como pode um ateu ter motivação suficiente para obedecer a Cristo, se ele mesmo não acredita em Jesus?
Se um ateu sincero pensa que Deus é um conto de fadas, como ele pode ser culpado? Se a crença não é uma escolha, ninguém pode ser culpado por não acreditar. Parece absurdo punir um ateu por ser ateu assim como é absurdo punir um cachorro por ser um cachorro.
Como devemos responder a essa objeção?
Obrigado!
Wagner
Brazil
Dr. Craig responde
A
Eu acho que os ateus contemporâneos têm um grande ressentimento quanto à afirmação bíblica de que Deus tem ou considera as pessoas moralmente culpáveis por sua incredulidade. Eles querem manter sua descrença em Deus sem aceitar a responsabilidade por isso. Essa atitude permite que eles rejeitam a Deus com impunidade.
Agora, nós podemos concordar que uma pessoa não pode ser considerada moralmente responsável por não cumprir um dever do qual ele não está informado. Assim, toda a pergunta é: as pessoas estão suficientemente informadas para ser consideradas moralmente responsáveis por não acreditar em Deus? A resposta bíblica a essa pergunta é inequívoca. Em primeiro lugar, Deus providenciou uma revelação de Si mesmo na natureza que é suficientemente clara para todas as pessoas cognitivamente normais saberem que Deus existe. Paulo escreve à igreja de Roma:
Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se (Rom. 1:18-21).
Na visão de Paulo das propriedades de Deus, Seu eterno poder e divindade, estão claramente revelados na criação, para que as pessoas que não conseguem acreditar em um Criador eterno e poderoso do mundo não têm desculpa. De fato, Paulo diz que essas pessoas realmente sabem que Deus existe, mas suprimem essa verdade por causa de sua iniquidade. Como resultado, eles se tornam tão nublados em seu pensamento que eles podem, verdadeiramente, enganar a si mesmo pensando que eles são “buscadores de mente aberta” honestamente procurando a verdade. A capacidade humana para a racionalização e auto-engano, tenho certeza que todos nós já observamos, é muito grande de fato e em uma visão bíblica, os ateus estão presos a isso.
Em segundo lugar, totalmente à parte da revelação de Deus na natureza está o testemunho interior que o Espírito Santo dá às grandes verdades do Evangelho, incluindo, devo dizer, ao fato de que Deus existe. Qualquer um que não acredite em Deus até o fim de sua vida o faz somente por uma teimosa resistência ao trabalho do Espírito Santo em levar aquela pessoa a um conhecimento de Deus. Na visão bíblica, as pessoas não são como inocentes cordeiros perdidos vagando impotentes sem um guia. Ao contrário, elas são rebeldes determinados cujas vontades estão contra Deus e que devem ser subjugadas pelo Espírito de Deus.
A diferença, então, entre Deus e Papai Noel, é que (i) há boas evidências em apoio a existência de Deus que são evidentes para todos, e (ii) há um testemunho objetivo do Espírito de Deus que justifica a crença nas verdades cristãs. É claro que o descrente vai negar que há tal evidência e tal testemunho do Espírito. Tudo bem; nós cristãos não concordamos com eles sobre isso. Achamos que eles estão errados. É por isso que dialogamos com eles para mostrar-lhes que a evidência é suficiente e que suas objeções são fracas.
Ao contrário do que você diz, Wagner, na visão bíblica, a descrença é uma escolha. É uma escolha resistir à força das evidências e das influência do Espírito Santo de Deus. O descrente é como alguém morrendo de uma doença fatal que se recusa a acreditar na evidência médica a respeito da eficácia da cura oferecida e que rejeita o testemunho de seu médico para ele e que, como resultado, sofre as consequências de sua própria teimosia. Ele não tem ninguém para culpar além de si mesmo.
Ateus e agnósticos não são como cachorros. Eles são pessoas criadas à imagem de Deus, dotadas de livre-arbítrio, e procuradas por um Pai Celestial amoroso que anseia para se reconciliá-los com Ele. Sua descrença é culpável porque é mantida diante das evidências e da rebeldia como o Espírito Santo.
- William Lane Craig