#543 Por que Deus não criou apenas aqueles que ele sabia creriam nele?
February 05, 2018Dr. Craig,
Obrigado por tirar seu tempo para ler minha pergunta e por seu esforço incansável lidando com tantas questões de cristãos, muçulmanos e céticos ao longo dos anos. Sei que seu tempo é precioso; por isso, vou tentar fazer uma pergunta breve e focada.
Minha pergunta diz respeito à providência divina e ao mal e sofrimento no mundo. Contento-me com a noção de que Deus providencialmente ordenou o mundo de modo a proporcionar o máximo número de pessoas que livremente escolheriam relacionar-se com ele. Da mesma forma, contento-me com a ideia de que o mal e o sofrimento sejam compatíveis com a existência de Deus, sendo produto de criaturas livres que escolhem praticar ações más. Minha dificuldade está no seguinte: dada a presciência de Deus de quem livremente escolheria aceitá-lo e rejeitá-lo, por que Deus não pulou para o fim e criou no céu aqueles que o aceitariam, assim evitando todo mal e sofrimento (e, talvez, por que simplesmente não deixou de criar quem o rejeitaria)? Ponderei que, embora Deus soubesse quem o aceitaria, a pessoa não o saberia e, portanto, simplesmente “acordar” no céu seria confuso e desprovido de qualquer relacionamento estabelecido ao longo da vida no mundo. No entanto, parece que Deus seria bem capaz de transmitir esse tipo de conhecimento à pessoa ao “inserir” a informação na mente dela; em certo sentido, ela teria “vivido” a vida no mundo e entendido seu relacionamento com Deus. Isto me levou a perguntar: qual é a diferença entre “viver” sua vida, com Deus “inserindo” tal conhecimento, e viver, de fato, sua vida no mundo. Parece que ambas experiências seriam idênticas; por isso, estamos vivendo no mundo. Ainda assim, anjos são seres criados que simplesmente “acordaram” no céu, o que torna perfeitamente razoável sugerir que o mesmo poderia ser feito com outros seres criados. A consequência, no entanto, é que isto tornaria gratuitos o mal e o sofrimento, uma vez que Deus é capaz de simplesmente pular tudo isso, mas escolhe não o fazer (a menos que digamos que este mundo, o mal e o sofrimento sejam, de algum modo, necessários). Fiquei tentado a dizer que, talvez, este mundo seja um mundo necessário e, portanto, devemos viver nele. Mas, obviamente, Deus poderia ter escolhido não criar o mundo. Então, minha pergunta é: será que Deus não poderia ter nos criado como os anjos, simplesmente trazendo à existência quem o aceitaria e evitando todo mal e sofrimento?
Obrigado pela atenção.
Zach
United States
Dr. Craig responde
A
Sua pergunta, na verdade, trata do conhecimento médio de Deus, que inclui seu conhecimento do que uma pessoa faria livremente em quaisquer circunstâncias em que Deus a criasse.[1] A resposta à sua pergunta: “por que Deus não pulou para o fim e criou no céu aqueles que o aceitariam, assim evitando todo mal e sofrimento?” é a seguinte: se Deus tivesse começado o mundo naquilo que, em nosso mundo, é o fim da história humana, teríamos um mundo diferente deste mundo e, portanto, diferentes circunstâncias nas quais as mesmas pessoas tomariam decisões muito diferentes. Por exemplo, talvez Sílvia livremente viesse a crer em Cristo e a ser salva, se ela estivesse na sua circunstância real de ter câncer de mama, mas, se Deus tivesse começado a história no fim dela, Sílvia não teria crido nem sido salva. Não é possível retirar a pessoa do mundo real e colocá-la em outro mundo, na expectativa de que faça as mesmas escolhas. Pode muito bem ser o caso de que um mundo que começa naquilo que é o fim de nosso mundo e que envolve somente as pessoas em nosso mundo que creriam seja um mundo muito pior do que este.
Você sugere que talvez Deus pudesse fazer parecer às pessoas naquele mundo que este tem um passado ao “inserir” a informação na mente dela; em certo sentido, ela teria “vivido” a vida no mundo e entendido seu relacionamento com Deus. Segundo esta proposta, Sílvia pensaria que teve câncer de mama, embora jamais o tenha tido de verdade. Ela pensaria que está nas mesmas circunstâncias nas quais ela realmente se encontra no fim da história, mas sua vida passada é uma ilusão completa, inserida na sua mente por Deus.
Este tipo de sugestão foi assunto de debate interessante entre mim e o filósofo David Hunt, que talvez o interesse. É importante entender como ela é radical. Segundo esta visão, toda sua vida passada é ilusão, seus amores, realizações, momento de culto — tudo é ilusório. Estou convencido de que algo assim seria incompatível com a bondade de Deus. É enganoso, e Deus é verdadeiro, e não enganador. Ele trata as pessoas respeitosamente, como agentes morais distintos de si mesmo, e lhes permite a liberdade para tomar decisões. Seria indizivelmente desamoroso da parte de Deus enganar Sílvia para que ela pensasse que houve um homem que a amou e ao qual ela se entregou em amor e que houve filhos que ela gerou e aos quais ela dedicou sua vida e que a acompanharam nos vales da angústia e no ápice da alegria, se não houve nada disto.
Quando se pensa nestes termos, a resposta à sua pergunta: “qual é a diferença entre ‘viver’ sua vida, com Deus ‘inserindo’ tal conhecimento e viver, de fato, sua vida no mundo?” é óbvia demais. Qual é a diferença entre meramente pensar que há alguém que o ama e, de fato, ser amado por essa pessoa? Qual é a diferença entre sentir orgulho de ter realizado certas façanhas e meramente pensar que as fez? Qual é a diferença entre meramente pensar que alguém fez muitos sacrifícios por você e a pessoa, de fato, ter agido assim? Isto faz toda a diferença do mundo! Uma coisa é real e a outra é um sonho enganoso. (Fico me perguntando se as pessoas assistiram a muitos filmes como Matrix e perderem seu senso de realidade!)
Não conheço nenhum teólogo que pense que “anjos são seres criados que simplesmente ‘acordaram’ no céu”. Acho que a maior parte dos que creem em anjos diria que são seres com passado real que, em dado momento, decidiram livremente seguir a Deus ou não. A posição do conhecimento médio afirma o livre-arbítrio libertário, em vez do determinismo divino.
Além disso, acho que também há de se questionar se sua sugestão realmente resolve o problema do mal e do sofrimento. Pois ainda haveria o mal de todas as memórias dolorosas de eventos que jamais ocorreram, como se tivessem ocorrido. Mais fundamental ainda, há o mal de um Deus enganoso que não trata suas criaturas com amor e respeito. Isso piora o problema, em vez de melhorá-lo.
[1] Ver o capítulo 13 de meu livro The Orly Wise God, ed. reimp. (Eugene, Or.: Wipf & Stock, 1999) [publicado em português com o título O único Deus sábio. Editora Sal Cultural].
- William Lane Craig