#34 Por que Deus permite que o sofrimento continue?
July 12, 2012Olá, Dr. Craig.
Antes de tudo, obrigado por ser alguém que, além de ter um extraordinário cabedal de conhecimento, tem disposição para ser usado com tanto fervor no serviço do Senhor. Seu exemplo é, de fato, encorajador para muitas pessoas.
Atualmente, tenho ouvido uma de suas palestras, proferida em Cambridge, em que o senhor fala sobre o mal e o sofrimento. (A palestra ocorreu em Cambridge, embora não necessariamente tenha sido sobre o mal e o sofrimento.) Há duas passagens bíblicas que foram pessoalmente um tremendo auxílio para mim no embate com o problema do mal, mas nunca vi nenhuma discussão sobre elas em nenhum fórum sobre o tema. Estou curioso para ouvir o que o senhor pensa sobre cada uma delas.
Uma delas, assim me parece, aborda a questão: “Por que Deus permite que o mal e o sofrimento continuem?”. A outra trata da questão crítica “Como se deve reagir quando experimentamos o mal e o sofrimento?” (Mesmo quando se está convencido de que Deus é a causa direta!)
A primeira é a Parábola do Joio em Mateus 13.24-30/36-43:
Jesus apresentou-lhes outra parábola, dizendo: O reino do céu é semelhante ao homem que semeou boa semente em seu campo. Mas, enquanto os homens dormiam, seu inimigo veio, semeou joio no meio do trigo e retirou-se. Assim, quando o trigo cresceu e começou a dar espigas, apareceu também o joio. Então os servos do proprietário chegaram e lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente em teu campo? De onde vem o joio? Ele lhes respondeu: Algum inimigo fez isso. E os servos lhe disseram: Queres, então, que o arranquemos? Mas ele disse: Não, para que, ao tirar o joio, não arranqueis com ele também o trigo. Deixai ambos crescerem juntos até a colheita. Na época da colheita, direi aos que fazem a colheita: Ajuntai primeiro o joio e atai-o em feixes para queimá-lo; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro.
[Depois Jesus explicou mais detalhadamente… ]
Então, deixando as multidões, Jesus entrou em casa. E aproximaram-se dele os seus discípulos, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo. E ele, respondendo, disse: O que semeia a boa semente é o Filho do homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do Maligno; o inimigo que o semeou é o Diabo; a colheita é o fim do mundo, e os que fazem a colheita são os anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo. O Filho do homem enviará seus anjos, e eles ajuntarão do seu reino tudo que serve de tropeço, e os que praticam o mal, e os lançarão na fornalha de fogo; ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.
Portanto, a resposta objetiva, para mim, parece ser que Deus ainda não extinguiu o mal e o sofrimento porque ele ainda continua a edificar o seu reino, e esse processo não é mutuamente excludente em relação ao mal e ao sofrimento que experimentamos.
A passagem que se refere à segunda pergunta é a de Amós 4.6-11:
Por isso também vos deixei de dentes limpos em todas as vossas cidades, e falta pão em toda parte; vós, porém, não vos convertestes a mim, diz o Senhor. Além disso, retive a vossa chuva quando ainda faltavam três meses para a colheita; e fiz com que chovesse sobre uma cidade e não chovesse sobre outra; choveu sobre um campo, mas o outro, sobre o qual não choveu, secou. O povo de duas ou três cidades vagava, indo a outra cidade para beber água, mas não se saciaram; vós, porém, não vos convertestes a mim, diz o Senhor. Castiguei as vossas muitas hortas e vinhas com pragas e ferrugem; vossas figueiras e oliveiras foram devoradas pelo gafanhoto; vós, porém, não vos convertestes a mim, diz o Senhor. Enviei a praga contra vós, como fiz no Egito; matei vossos jovens pela espada e deixei que vossos cavalos fossem levados; fiz com que sentísseis no nariz o mau cheiro do vosso acampamento; mas não vos convertestes a mim, diz o Senhor. Destruí alguns de vós, como Deus destruiu Sodoma e Gomorra, e ficastes como um tição tirado do fogo; mas não vos convertestes a mim, diz o Senhor.
Puxa vida! Que amor severo. Deus não perde tempo à toa. Eu sei que pessoas como Richard Dawkins podem apontar passagens semelhantes como exemplo para justificar a visão de que o Deus da Bíblia só pode ser um tipo de monstro que, mesmo sendo considerado real, não seria digno de adoração. Todavia, creio que essas pessoas cometeriam tragicamente do mesmo modo o erro que os israelitas cometeram no entendimento desse trecho. Acho que seja um exemplo incrivelmente cheio da esperança do amor de Deus expresso pela disciplina, e uma clara instrução do que todos deveriam fazer ao enfrentar dificuldades de qualquer tipo, mesmo que não possamos entendê-las ou tenhamos a certeza de que o próprio Deus é a sua causa: voltar para ele. Infelizmente, parece que tantas e tantas pessoas fazem exatamente o contrário.
Em todo caso, muito mais pode ser recolhido das duas passagens em termos de como elas tratam ou não do problema do mal e do sofrimento. Se o senhor tiver tempo e achar que essas passagens podem ser proveitosas para outros leitores, adoraria ouvir o que pensa sobre elas.
Atenciosamente, obrigado novamente por tudo quanto tem feito para defender e edificar o Reino.
Eric
United States
Dr. Craig responde
A
Essas passagens são provocadoras de fato, reproduzo-as aqui não tanto para comentá-las, mas para partilhá-las com nossos leitores, que podem considerá-las um estímulo para raciocinarem biblicamente a respeito das questões que você levantou.
Concordo de todo o coração com o modo como considerou a parábola de Jesus. Não podemos considerar o problema do mal e do sofrimento à parte dos propósitos do estabelecimento do reino de Deus. Martin Lloyd-Jones comentou corretamente:
A chave para a história do mundo é o reino de Deus [...] Desde exatamente o princípio [...] Deus tem trabalhado para estabelecer um novo reino no mundo. É o seu próprio reino e ele está chamando as pessoas para que saiam do mundo e entrem no seu reino: e tudo quanto ocorre no mundo tem relevância para o reino [...] A importância dos outros eventos depende do peso que eles têm nesse evento. Os problemas de hoje devem ser entendidos somente à sua luz [...]
Portanto, não fiquemos desorientados ao vermos coisas surpreendentes acontecerem no mundo. Em vez disso, perguntemos: “Qual é a relevância desse evento para o reino de Deus?”. Ou, se coisas estranhas estão acontecendo pessoalmente com você, não se queixe, mas diga: “O que Deus está me ensinando com isso?”. [...] Não precisamos ficar desconcertados nem duvidar do amor ou da justiça de Deus [...] Devemos julgar cada evento à luz do grande, eterno e glorioso propósito de Deus (From Fear to Faith [Do temor à fé], p. 23-24).
É bem possível os males naturais e morais fazerem parte dos meios usados por Deus para conduzir as pessoas livremente para o seu Reino. Dê uma olhada em algum manual missionário como o de Patrick Johnstone, Operation World [Operação mundo], e vai descobrir que é precisamente nos países que têm suportado graves sofrimentos que as taxas de crescimento do cristianismo evangélico são as maiores, ao passo que as curvas de crescimento no ocidente indulgente estão próximas de zero.
Pense, por exemplo, na China. Nas décadas recentes, o crescimento da igreja na China não tem paralelo na história. Johnstone crê que o comunismo na verdade preparou a China para a recepção do cristianismo quando despojou a sua cultura dos pressupostos budistas e confucionistas. Durante os dias negros de Mao, podemos imaginar as pessoas questionando-se por que Deus permitiu que a erva daninha do comunismo crescesse e devastasse o campo. Deus tinha em vista propósitos de alcance mais amplo.
Quando se pensa a respeito, a história da humanidade tem sido um relato de sofrimento e de guerras. Todavia, tem sido também uma história de avanço do Reino de Deus. Um mapa publicado em 1990 pelo U. S. Center for World Mission [Centro estadunidense para missões mundiais] documenta o crescimento do cristianismo evangélico ao longo dos séculos comparando o número de cristãos evangélicos com o número de não cristãos no mundo. (Esses números não incluem, em ambas as categorias, pessoas que são apenas cristãos nominais.) No ano 100, havia cerca de 360 não cristãos para cada cristão evangélico no mundo. Em torno do ano 1000, havia 220 não cristãos para cada evangélico no mundo. Por volta do ano 1900, havia apenas 27 não cristãos para cada cristão evangélico. Lá por 1950, esse número já havia sido reduzido para 21 não cristãos por cada cristão evangélico. E — segura esta — no ano 2000 havia apenas 7 não cristãos para cada cristão evangélico no mundo! Mesmo que se acrescentem todos os cristãos nominais como alvos legítimos de evangelização, ainda significa que há somente, para cada crente, cerca de 9 incrédulos para serem evangelizados.
De acordo com Johnstone, “Estamos vivendo no período de maior colheita de pessoas para o Reino de Deus que o mundo já presenciou” (p. 25). Não é nada improvável que esse crescimento extraordinário no Reino de Deus se deva em parte à presença de males naturais e morais no mundo.
Assim, quando as pessoas perguntam “Por que Deus simplesmente não remove todo o sofrimento do mundo?”, elas realmente não têm nenhuma ideia do que estão falando, nem de quais podem ser as consequências. O assassinato brutal de um inocente ou a morte de uma criança por leucemia poderia desencadear um efeito cascata através da história de tal modo que a razão para que Deus o permita só venha à luz séculos depois ou talvez em outro país. Só mesmo uma mente onisciente poderia apreender as complexidades de conduzir um mundo de pessoas livres rumo a objetivos antevistos. Para se avaliar a complexidade da questão, é suficiente pensar nas contingências inumeráveis e incalculáveis envolvidas para se chegar a um único evento histórico, por exemplo, a vitória dos Aliados no Dia-D. Não temos ideia dos males naturais e morais que podem estar envolvidos para que Deus coordene as circunstâncias e os agentes livres necessários a elas para a consecução de um propósito determinado, nem somos capazes de discernir que razões Deus poderia ter em mente para permitir a entrada de casos de sofrimento em nossa vida. Mas ele terá boas razões à luz dos propósitos do seu Reino.
A parábola lembra-nos também daqueles que questionam por que Deus apenas não deixaria de criar as pessoas que haveriam de rejeitá-lo, visto que sabia quem creria nele ou não. Jesus diz que, ao arrancar o joio, também se corre o risco de arrancar o trigo. Em outras palavras, se Deus deixasse de criar aqueles que ele sabia que não creriam nele, então, em algum lugar deste mundo, ele teria um mundo possível totalmente novo e os salvos no mundo real poderiam se tornar incrédulos no novo mundo! Não se pode simplesmente arrancar pessoas de um mundo possível para melhorar as coisas, pois quando isso é feito se passa a lidar com um mundo possível inteiramente diverso, no qual as pessoas podem agir de maneira totalmente diferente do que agiam no primeiro mundo. (Os iniciados em filosofia reconhecerão que estou falando aqui do conhecimento médio de Deus e que criar mundos é algo possível para ele.)
Como escreveu C. S. Lewis, a passagem de Amós lembra-nos vigorosamente que Aslan não é um leão domado. As pessoas quase sempre dizem que Deus não manda sofrimentos à nossa vida, mas que apenas os permite. A passagem citada por você detona o conto de fadas! Os israelitas da Antiguidade não entendiam que as calamidades que os acometiam eram de fato uma severa mercê enviada por Deus para o próprio bem-estar deles, mas a sua intransigência punha em curto-circuito o bom propósito que Deus tinha em mente (cf. Ap 16.9,11,21). No Novo Testamento, o autor de Hebreus lembra-nos que Deus disciplina a todo filho a quem ele recebe. Embora não seja agradável, mas doloroso, “Deus nos disciplina para o nosso bem, para sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.10).
Você está certo ao dizer que os não cristãos, acostumados a um Deus-Papai-Noel, não compreendem essa espécie de amor severo. Mas não é realmente difícil compreendê-lo, quando se reflete que vale à pena suportar qualquer dose de sofrimento finito para ganhar a vida eterna e evitar a ruína sem fim. Paulo diz: “Pois nossa tribulação leve e passageira produz para nós uma glória incomparável, de valor eterno, pois não fixamos o olhar nas coisas visíveis, mas naquelas que não se veem; pois as visíveis são temporárias, ao passo que as que não se veem são eternas” (2Co 4.16-18). Paulo entende que a duração desta vida, sendo finita, é literalmente infinitesimal comparada à vida eterna que desfrutaremos com Deus. Quanto mais nos demorarmos na eternidade, tanto mais os sofrimentos desta vida diminuirão comparativamente até se tornarem um momento infinitesimal. É por isso que Paulo pôde chamar os sofrimentos desta vida de “tribulação leve e passageira”. Ele não estava sendo insensível ao clamor dos que sofrem terrivelmente nesta vida — antes, pelo contrário, Paulo era um deles — mas ele viu que esses sofrimentos são simplesmente varridos pelo oceano de alegria e glória eternas que Deus dará àqueles que nele confiam.
Assim, nossa reação em tempos de sofrimento deveria ser, como diz você, voltar-nos para Deus com fé na dependência da sua força que nos ajuda a passar pela aflição. Quando Deus nos insta a suportar o sofrimento — que nos parece imerecido, sem sentido e desnecessário — a meditação na cruz de Cristo e em seu sofrimento como inocente por nossa causa pode ajudar a nos dar a força e a coragem necessárias para suportar a cruz que ele ordena que carreguemos.
- William Lane Craig