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#785 Por que dizem os deterministas que o ego é ilusão?

July 21, 2022
Q

Olá.

Por que os deterministas costumam argumentar que a consciência se trata de ilusão? A consciência é a percepção do próprio entorno e do próprio ser (eu sou). Mesmo que o livre-arbítrio seja ilusão, não vejo nenhuma razão para pensar que a consciência o seja igualmente, dado que temos ciência do nosso entorno e do nosso ser.

Parece até que a experiência pessoal é quase uma ilusão, segundo algumas escolas orientais de pensamento, mas como é que ela poderia ser considerada ilusão? Se estamos percebendo o mundo externo corretamente e cremos, com razão, que, de fato, existimos e possuímos consciência, como é que tudo isso seria ilusório, mesmo supondo que o determinismo seja verdade? Poderia, por favor, esclarecer-me isto?

Grato,

Casey

Dr. Craig responde


A

Não é o determinismo de algumas pessoas que as leva a negar a realidade da consciência, Casey, mas, sim, o pressuposto subjacente que têm do materialismo ou fisicalismo. Pensam que todo objeto concreto seja objeto físico; não haveria substâncias imateriais e, portanto, não haveria almas ou mentes. Logo, tudo que se faz é determinado por causas físicas. O determinismo é consequência do fisicalismo.

É importante entender, porém, que nem todos os fisicalistas sustentam que a consciência seja ilusão.

Há dois tipos de fisicalismo à disposição hoje. O primeiro é o fisicalismo redutor ou eliminador. Conforme sugere o nome, os proponentes desta visão tentam, sim, eliminar completamente a consciência. É incrível que neguem que tenhamos sequer estados mentais. As pessoas com as quais você topou são, evidentemente, fisicalistas redutores.

Em segundo lugar, existe o fisicalismo não-redutor — a visão de que o cérebro dá origem a estados de consciência supervenientes ou epifenomênicos, como o júbilo, a alegria ou a dor. No entanto, não existe nenhuma coisa — nenhuma alma ou mente — que tenha tais experiências. Antes, o cérebro é a única coisa que, realmente, existe, e esses estados mentais são apenas estados pertencentes ao cérebro.

O que você precisa entender é que o fisicalismo redutor está ficando cada vez menos popular hoje em dia, mesmo entre os fisicalistas. Isto porque o fisicalismo redutor não explica bem nossas vidas mentais, uma vez que o cérebro, enquanto substância física, tem apenas propriedades físicas, como determinado volume, determinada massa, determinada densidade, determinada localização, determinada forma. O cérebro, porém, segundo esta visão, não tem propriedades mentais. O cérebro não está jubilante, o cérebro não está triste, o cérebro não está com dor, ainda que ele esteja envolvido no circuito neural que nos dá tais experiências. Não se pode reduzir o medo, por exemplo, ao estado cerebral físico, mesmo que esteja correlacionado com o estado cerebral. Assim, o fisicalismo redutor parece, obviamente, insustentável. Ele não pode ser conciliado com a nossa experiência mental. Para o fisicalismo não replicar que tais experiências sejam apenas ilusórias, ele se acha numa posição contraditória. Isto porque a ilusão em si é estado mental! Porém, segundo essa visão, estados mentais não existem. Por isso, não existe ilusão ou consciência.

Assim, o debate real hoje se dá entre o fisicalismo não-redutor e alguma versão do dualismo-interacionismo. O filósofo da mente Angus Menuge menciona vários problemas que confrontam a filosofia da mente de vertente materialista ou fisicalista.

Formas redutoras e eliminadoras do fisicalismo não conseguem explicar nossas vidas mentais. Mas... as variedades do fisicalismo não-redutor­ tampouco conseguem explicar a causação mental. Se essas teorias [não-redutoras] forem fiéis ao fisicalismo, as propriedades mentais supervenientes ou emergentes não poderão acrescentar nada de novo que não venha a ocorrer de todo modo, em decorrência das propriedades básicas físicas delas. Se quisermos explicar a consciência, a causação mental e o raciocínio, precisaremos de alguma entidade acima do corpo. Tal entidade deve ser simples, ter pensamentos como partes inseparáveis, persistir como unidade ao longo do tempo e ter poder ativo. Parece-se com o que chamamos de alma.[1]

 


[1]  Angus Menuge, “Why Not Physicalism?”, texto apresentado no painel da Sociedade Filosófica Evangélica [EPS] para a Sociedade de Literatura Bíblica [SBL], em San Francisco, Califórnia, em novembro de 2011 [grifo meu].

- William Lane Craig