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#783 Jesus, o unigênito do Pai

July 21, 2022
Q

Saúde e bênção, Dr. Craig.

Recentemente, vi pela primeira vez um vídeo de Reasonable Faith que explica o que significa ser Jesus “unigênito do Pai”, que a tradição cristã se refere à divindade dele, além de afirmar que a referência bíblica é à humanidade dele.

Para ser honesto, acho difícil entender de um ponto de vista lógico que Jesus seja gerado na eternidade sem contradição com o que normalmente entendemos por “gerar”, levando em conta uma eternidade imaterial.

Penso que seja mais coerente com a lógica que as afirmações bíblicas neste sentido aludam à natureza humana dele, como o senhor indica; no entanto, há passagens como João 3.16, em que se diz que Deus enviou o seu Filho unigênito, o que parece indicar que Jesus já existia como filho antes da criação.

Por outro lado, fico atônico com o que pode acarretar de que Jesus seja gerado do Pai em relação à sua humanidade, especialmente do ponto de vista genético, uma vez que, se, de alguma maneira, Deus arranjou “esperma” para fertilizar o óvulo de Maria, conforme indicado por alguns Pais da Igreja, isto se constituiria, de alguma maneira, reprodução sexual, algo crítico, pois a mitologia grega e pagã também cria nisto, sem contar que Maria também tinha natureza pecaminosa.

Nessa mesma esfera de ideias, li também a respeito da concepção de que Deus gerou todo o material genético por meio de um zigoto implantado em Maria e, desta maneira, certos problemas ligados à natureza de Maria e à reprodução sexual entre Deus e um ser humano seriam resolvidos, uma vez que, desta perspectiva, não haveria nenhum material genético, mas, sim, troca biológica através do cordão umbilical.

Gostaria de ler o que tem a dizer sobre estes dois pontos, por que acha difícil justificar a geração eterna e, também, o que pensa da concepção de Jesus a partir da perspectiva genética.

Eleazar

Venezuela

Dr. Craig responde


A

Antes de dizer algo a respeito das suas perguntas relacionadas à geração eterna do Filho a partir do Pai, Eleazar, permita-me descartar as suas questões biológicas/genéticas sobre a concepção de Cristo como conjecturais e, portanto, não muito proveitosas. Simplesmente, não tenho muito interesse em especular sobre questões acerca das quais não temos muitos dados. A concepção de Jesus foi milagrosa, mas como ela foi feita por Deus simplesmente não nos foi revelado. De todo modo, não devemos associar a doutrina do pecado original com a genética ou a biologia.

Assim como você, mantenho muitas reservas quanto à doutrina de que o Filho é eternamente gerado pelo Pai (e também de que o Espírito Santo procede do Pai e/ou do Filho). Porém, não partilho a sua preocupação sobre o fato de Jesus ser “gerado na eternidade sem contradição com o que normalmente entendemos por ‘gerar’, levando em conta uma eternidade imaterial”. Entenda que o termo “gerar” é, neste contexto, uma metáfora, e não algo literal. Não se deve subentender que gerar seja um começo, neste caso, mas apenas dependência ontológica. Pense nos velhos exemplos do raio de sol procedente do sol. Se o sol existisse desde a eternidade passada, os seus raios brilhariam desde a eternidade passada. (Obviamente, os Pais da Igreja entenderiam a “eternidade”, no caso, como se significasse um estado de atemporalidade, e não a duração onitemporal regressiva.) Não vejo absolutamente nenhuma razão para pensar que tal relação de dependência entre o Pai e o Filho não pudesse existir desde a eternidade passada, sem contradição.

A ênfase da metáfora é marcar o contraste entre criar e gerar. Em casos de geração, os descendentes partilham da mesma natureza do genitor: gatos geram gatinhos, cães geram cãezinhos, vacas geram bezerros etc. Em contraste, nos casos de criação, o criador tem natureza diferente do artefato que produz. O carpinteiro tem natureza diferente da cadeira ou mesa que faz. Assim, ao caracterizar a geração de Cristo pelo pai desta forma, os Pais da Igreja pretendiam enfatizar a igualdade da natureza dos dois (homoousios): Deus de Deus. Cristo não é criado pelo Pai. Pelo contrário, Cristo é gerado, mas incriado, ao passo que somente o Pai não é nem gerado nem criado.

Antes, a minha preocupação é que a doutrina da geração eterna do Filho introduza um subordinacionismo na Trindade ontológica que, apropriadamente, pertence apenas à Trindade econômica e, assim, ameaça diminuir a pessoa de Cristo. Obviamente, em favor do plano de salvação, a segunda pessoa da Trindade subordinou-se à primeira e, igualmente, a terceira pessoa à primeira e segunda. Cada uma tem o seu papel a desempenhar na economia da salvação. Em virtude da presciência de Deus, podemos até mesmo projetar essa Trindade econômica na eternidade passada anterior à criação, se o quisermos. (Embora, para ser franco, seja notável que, no Novo Testamento, fala-se de Cristo como o Filho, quase exclusivamente no contexto da encarnação. Casos que parecem indicar o contrário poderiam envolver uma espécie de referência posterior. Por exemplo, posso dizer: “A minha esposa estudou no Colégio de Hudson”, sem a intenção de comunicar que ela já estava casada quando estudava no colegial! Lucas, pelo menos, parece associar o fato de Jesus ser o Filho de Deus com a sua concepção virginal [Lucas 1.35]).

Porém, se projetarmos essa subordinação na própria Trindade ontológica, será que, de alguma maneira, não diminuiremos a Cristo? Isto porque, no caso, ele ficará ontologicamente dependente do Pai, assim como o são as criaturas. Como é que ele pode possuir a plena natureza divina, se uma propriedade essencial é a asseidade (autoexistência, independência)? Será que Cristo poderia possuir plenamente a natureza divina, se carecesse de onipotência? Por que pensar que ele poderia carecer de asseidade e, ainda assim, ser plenamente divino? Será que Cristo não seria engrandecido e glorificado mais plenamente, se pensássemos nele, assim como o Pai, como se existisse a se? Assim, dada a ausência de aval exegético para pensar que Cristo é gerado na sua natureza divina, em oposição à sua natureza humana, por que deveríamos pensar que Cristo é gerado eternamente do Pai, segundo a sua divindade?

- William Lane Craig