#828 Por que um Deus justo me permite experimentar o bem?
April 02, 2023Bom dia, Dr. Craig.
Na minha busca infindável pela verdade sobre Deus (se ele existe) e nas inúmeras discussões que tive sobre a natureza dele, a preocupação mais desconcertante e ainda a mais reiterada que as pessoas parecem ter com a existência de tal criador divino é quase sempre algo assim: “Por que, se um Deus bom existe, ele me permitiria experimentar mal e sofrimento tão horrendos?”. Quem experimenta traumas, sofrimentos, mal, negligência, racismo e assim por diante parece manter nível fervoroso de desconfiança em tal criador, e isto me parece (na minha experiência limitada) ser a força motora primária por trás da indisposição da maioria dos indivíduos descrentes de colocarem a sua fé em tal ser e dedicar todas as suas vidas a ele. (Acho interessante, pois pressupõe muito acerca do modo em que Deus DEVE ser, com pouca consideração dada à possibilidade de ter ele motivos para permitir tais coisas.)
Conforme disse, isto me desconcerta, e me pego no que parece ser situação singular, por ser a única pessoa que conheço que pensa estarem estes indivíduos a encarar a questão em sentido inverso.
Quando eu, na minha frequente introspecção, avalio o estado do meu ser, causa-me tanta dor admitir que, apesar dos meus anos de esforço para aperfeiçoar-me, os desejos internos do meu coração ainda são repugnantes, manchados por perversidade e malevolência que não podem ser superados. Alcoolismo, conduta sexual imprópria, avareza, desonestidade e muitos outros vícios permeiam totalmente o meu espírito, prendendo-me numa teia de autodesprezo.
À luz deste autoconhecimento, acho que a questão, então, não deveria ser por que um Deus bom me permitiria experimentar o mal e o sofrimento, mas sim: por que é que um Deus JUSTO me permite sequer experimentar algo bom? Sabendo do que fiz, parece perfeitamente racional aceitar que toda provação, tragédia, sofrimento e aflição que me sobrevêm deveriam ser exatamente o tipo de coisa que eu devo esperar receber de um Deus bom; ainda assim, cá estou eu, vivendo, respirando, experimentando a bondade que há na vida, sem absolutamente nenhum merecimento. Por que é que Deus me permitiria experimentar qualquer bem nesta vida ou na próxima (caso exista outra vida após esta), à luz disto tudo?
Joseph
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Realmente simpatizo com a sua pergunta, Joseph! Enquanto não-cristão, quando olhava para o meu próprio coração, eu também via o mal e as trevas a se ancorarem ali, embora, externamente, eu vivesse uma vida moral razoável. Por isso, quando ouvi a mensagem do evangelho, ainda que estivesse perplexo com a perspectiva de que meus amigos do colegial fossem para o inferno, a ideia de que eu ia para o inferno não me ocasionou absolutamente nenhuma dificuldade, porque senti que era o que eu merecia. Que direito tinha eu, que tanto ofendera a santidade de Deus e violara a Sua lei moral, ao perdão de Deus?
Mais adiante, depois que virei cristão, uma questão semelhante à sua me ocorreu. Mesmo que as pessoas costumem perguntar: “Como é que um Deus amoroso manda as pessoas para o inverno?”, parece haver a mesma dificuldade intelectual para responder à pergunta: “Como é que um Deus justo pode mandar as pessoas para o céu?”. Ainda assim, quantas pessoas fazem esta última pergunta? Quantas rejeitam o cristianismo, por justamente não conseguiram entender como um Deus santo e justo poderia mandar as pessoas para o céu? Ninguém, não é mesmo? Isto mostra, a meu ver, que a questão é realmente emotiva, e não intelectual. As pessoas, simplesmente, não gostam da ideia de um Deus que as mande para o inferno e, portanto, escolhem não crer nEle. É como colocar-se em frente a um carro em alta velocidade, fechar os olhos com bastante força e dizer: “Quem quer que me atropele não pode ser uma pessoa tão boa assim! Simplesmente, não creio nela! Se escolho não crer nela, nada vai me afetar!”. E aí já é tarde demais.
Conforme você indicou, Deus não nos deve nada. Não temos nenhum direito a uma vida que seja um mar de rosas, livre de sofrimento. Se há algo que mereçamos, é exatamente o oposto. Que as nossas vidas sejam, frequentemente, repletas de bem que não merecemos é expressão do que os teólogos denominam de graça comum da parte de Deus, dada livremente a toda a humanidade. Disse Jesus: “ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos” (Mateus 5.45). A graça especial da parte de Deus encontra-se em Jesus, que Deus enviou como expiação pelos nossos pecados. É maravilha da condescendência e graça de Deus que Ele nos ame tanto que enviou o seu Filho para carregar o sofrimento que nós merecíamos como punição por nossos pecados, a fim de que fôssemos redimidos, restaurados e perdoados. Que você possa encontrar nova vida nEle!
- William Lane Craig