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#827 Um muçulmano confronta o argumento ontológico

April 02, 2023
Q

Olá, Dr. Craig. Sou muçulmano que vive na Inglaterra e tenho grande interesse em aprender sobre o islamismo, o cristianismo e teologia de modo mais geral. Como seguidor do seu trabalho, o senhor me introduziu ao argumento ontológico, em que vou concentrar a minha pergunta.

A lógica que usamos para saltar da premissa 2 para a premissa 3 do argumento é fazer a suposição de que ser maximamente grande acarreta, necessariamente, que este ente existe em todos os mundos possíveis. Mas e se a propriedade de existir em todos os mundos possíveis for análoga à propriedade de conseguir criar um círculo quadrado, ou seja, algo metafisicamente impossível? Segundo esta definição de grandeza máxima, parece que a premissa 3 não se seguiria da premissa 2.

Da mesma maneira, não seria possível fazer a objeção de que não é possível que um ente maximamente grande exista, precisamente porque isto envolve uma impossibilidade metafísica, ou seja, a impossibilidade de ter a propriedade de existir em todos os mundos possíveis? Assim, a minha pergunta inicial para você é esta: será que estou correto em chegar à conclusão de que, se (com o pressuposto de que) é metafisicamente impossível ter a propriedade de existir em todos os mundos possíveis, o argumento ontológico fracassa?

Se a resposta a esta pergunta for sim, entendo que isto não invalida em si o argumento ontológico, porque o pressuposto não foi provado.

No entanto, agora chegamos à minha pergunta principal: será que se pode provar o pressuposto com o seguinte exemplo, de que, em algum mundo possível, existam entes separados, cada um contendo um aspecto de grandeza máxima? Assim, por exemplo, neste mundo possível, um ente teria a propriedade de onipotência, outro teria de onisciência e assim por diante. Sem dúvida, será que o fato de tal mundo ser metafisicamente possível impossibilita por si só que um ente “monopolize” todos os mundos possíveis (ao ter a propriedade de existir em todos eles)?

Em outras palavras, a objeção pode ser resumida assim: é impossível que exista um ente que tenha a propriedade de existir em todos os mundos possíveis, precisamente porque há outros mundos possíveis nos quais entes separados ocupem os diferentes tipos/aspectos/vertentes de grandeza máxima.

Devo confessor que me sinto confuso com esta questão e gostaria de ouvir o que pensa a respeito dela.

Jafar

Reino Unido

Dr. Craig responde


A

Obrigado por sua pergunta, Jafar! O argumento ontológico deve ir ao encontro natural de muçulmanos, na minha opinião, dada a afirmação central que fazem da grandeza de Deus.

Você está, sem dúvida, absolutamente correto de que, “se propriedade de existir em todos os mundos possíveis for análoga à propriedade de conseguir criar um círculo quadrado, ou seja, algo metafisicamente impossível”, o argumento ontológico fracassa. Isto não se deve à falha da inferência da premissa (2) para a premissa (3), mas sim porque, neste caso, é falsa a premissa (1) de que é possível que exista um ente maximamente grande.

Você também reconhece, corretamente, que isto não tem nenhuma importância, já que permanece a questão sobre ser a premissa (1) verdadeira ou não. A premissa (1) não só entra de acordo com as nossas intuições modais, mas há até mesmo algumas razões para pensar que ela é verdadeira (ver abaixo). Em comparação, parece não haver nenhuma boa razão para pensar que a grandeza máxima seja metafisicamente impossível e que, portanto, a premissa (1) seja falsa.

Pois bem, você tem o grande mérito de propor algum argumento para pensar que a grandeza máxima seja metafisicamente impossível: “é impossível que exista um ente que tenha a propriedade de existir em todos os mundos possíveis, precisamente porque há outros mundos possíveis nos quais entes separados ocupam os diferentes tipos/aspectos/vertentes de grandeza máxima”. Não fico nem um pouco convencido com este argumento. O fato de que um ente maximamente grande teria as propriedades A-D não exclui a sua coexistência com outro ente que tenha apenas a propriedade A ou apenas a propriedade B ou apenas... O ente maximamente grande seria, claramente, superior a qualquer ente assim.

Ora, de fato, acho que certas propriedades de grandeza máxima excluem, sim, que outro ente possua tal propriedade, além do ente maximamente grande. Talvez possa haver dois entes oniscientes, mas é bem difícil ver como pode haver dois entes onipotentes. Isso porque um dos entes teria de ter a capacidade de criar e aniquilar o outro e, neste caso, um dos entes não é onipotente, já que ele está debaixo do poder do outro. Assim, não poderia haver nenhum mundo possível em que um ente maximamente grande exista ao lado de outro ente que possua apenas a propriedade da onipotência. Porém, parece-me que isto tem pouca importância, uma vez que não dá nenhuma razão para pensar que a grandeza máxima seja metafisicamente impossível. Mostra que é metafisicamente necessário que haja, no máximo, um ente onipotente, e isto é tudo.

Para encerrar, quero partilhar um argumento em apoio à premissa (1) que encontrei ao escrever meu Excurso sobre Teologia Natural para o meu projeto de teologia filosófica sistemática. Inúmeros teístas buscaram aguçar as nossas intuições modais relacionadas à possibilidade de um ente maximamente grande ao defenderem a possibilidade de um ente perfeito, a saber, um ente possuidor de todas as perfeições. Uma perfeição é definida como propriedade que, necessariamente, é melhor ter do que não ter. A onipotência é, obviamente, uma perfeição, já que, necessariamente, é melhor tê-la do que não a ter. Para evitar confusão, podemos falar de perfeições neste sentido especial como perfeições absolutas. Não precisamos pensar que perfeições absolutas acarretem apenas perfeições absolutas, pois perfeições poderiam também acarretar propriedades neutras, o que nem necessariamente aprimora nem necessariamente subtrai da grandeza de um ente.[1]

Parece claro que todas as perfeições absolutas sejam compossíveis, pois, se qualquer delas acarretasse o complemento (ou negação) de outra perfeição absoluta, o ente possuidor dessas perfeições não seria perfeito, mas, de algum modo, imperfeito. Porém, as perfeições, então, não seriam absolutas, no fim das contas. Portanto, para que qualquer perfeição seja absoluta, elas devem ser co-exemplificáveis. Assim o expressou C’Zar Bernstein:

Suponha que seja impossível que algo tenha todas as perfeições. Então, há alguma perfeição que acarreta o complemento de uma perfeição. Porém, uma propriedade acarreta o complemento de uma perfeição, somente se tal propriedade for suficiente para a imperfeição de algo em que ela é inerente. Porém, nenhuma perfeição é suficiente para a imperfeição de nada em que ela é inerente; trata-se de característica apenas de imperfeições. Contraditório! Assim, o pressuposto é falso: é possível que algo tenha todas as perfeições.[2]

Some a isto a verdade um tanto óbvia de que a existência necessária é perfeição absoluta, e segue-se daí que é possível que exista um ente maximamente grande. Bem bolado, não é mesmo?

 

[1] C’Zar Bernstein argumenta que perfeições acarretam apenas propriedades magnificentes ou propriedades neutras; não podem acarretar imperfeições (C’Zar Bernstein, “Giving the Ontological Argument Its Due”, Philosophia 42 [2014]: 667-668).

[2] Bernstein, “Giving the Ontological Argument Its Due”, p. 670.

- William Lane Craig